Literatura: Entenda por que 2015 é o ano de Mário de Andrade
Poeta, dramaturgo, romancista, professor de música, pesquisador, gestor público: este é o ano de discutir a multiplicidade do autor de Lira paulistana e Gramatiquinha da fala brasileira
 
por Leonardo Fuhrmann
 
Três anos antes de morrer, Mário de Andrade (1893-1945) publicou, em Lira paulistana, o poema "Quando eu morrer", em que expressava o desejo de ser enterrado em várias partes da cidade de São Paulo. 
 
"Meus pés enterrem na rua Aurora,/ No Paissandu deixem meu sexo,/ Na Lopes Chaves a cabeça/ Esqueçam". Seu corpo, obviamente, teve destino único, o Cemitério da Consolação, mas é possível dizer, sem exagero, que Mário de Andrade é um corpo vivo espalhado pela cidade hoje, 70 anos após sua morte, em 25 de fevereiro de 1945.
 
Exemplos disso não faltam. Na principal biblioteca municipal, na rua da Consolação, que leva seu nome. No patrimônio histórico da cidade, preservado graças a seu esforço. No Instituto de Estudos Brasileiros da USP, responsável por seu acervo. Na casa onde morou, na rua Lopes Chaves, Barra Funda, próxima a uma rua que leva seu nome, onde hoje há uma casa de cultura. Na Discoteca Oneyda Alvarenga, que homenageia uma de suas colaboradoras mais próximas e concebida por ele, no Centro Cultural São Paulo. No Lira Paulistana, casa noturna em Pinheiros, onde tocaram nos 1980 nomes de um movimento conhecido como "vanguarda paulistana", como Arrigo Barnabé e Itamar Assumpção. Na expressão "pauliceia desvairada", que se tornou apelido carinhoso da cidade.
 
Paraty
 
Foi um dos líderes da Semana de Arte Moderna de 1922, marco do modernismo. Além de poeta, dramaturgo, cronista e romancista, Mário foi professor de música, crítico e colecionador de arte, pesquisador de folclore, gestor público na área cultural e intelectual centrado na noção de brasilidade. Por isso, ao escolhê-lo como homenageado deste ano, a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) quer discutir a multiplicidade do artista e os vínculos entre suas atividades, entender sua época e a relação de sua obra com o tempo presente. Com curadoria do jornalista Paulo Werneck, a Flip iniciou as homenagens em São Paulo, em abril, com a pré-programação "Em Busca de Mário de Andrade", organizada em parceria com o Sesc.
 
- Ele é um grande intérprete da realidade brasileira e muitas das suas questões merecem ser recolocadas. Tinha uma questão muito moderna de língua, com o divórcio da fala e da língua culta - diz Werneck, que cita como exemplo a Gramatiquinha da fala brasileira, obra inacabada do escritor (quadro abaixo).
 
A programação em São Paulo se estende em encontros semanais até o fim de junho e inclui palestras e visitas a locais relacionados ao autor, como a casa dele e o sítio Santo Antônio, em São Roque, interior paulista. Adquirida nos 1930, a propriedade exemplifica suas preocupações. A ideia de Mário era um retiro para intelectuais. Pensou na preservação da casa-grande e da capela, construídas em 1681 por Fernão Paes de Barros. O conjunto é o maior e mais antigo em taipa de pilão, preservado no estado. Em 1944, doou o imóvel ao Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, que restaurou as instalações, hoje geridas pela prefeitura.
 
O curador diz que, apesar de ligado à cidade, é injusto tratar Mário como escritor regional. 
 
- Gosto de pensar nele como um bandeirante às avessas, que leva o Brasil para dentro de São Paulo - diz Werneck. 
 
A entrada da obra de Mário em domínio público, em janeiro que vem, não preocupa a Nova Fronteira, hoje a principal responsável pela publicação de sua obra. 
 
- Vamos manter o diferencial em relação a outras editoras, que é o acordo com o IEB. Isso nos garante acesso a materiais mais próximos ao que o escritor gostaria de ver editado - diz a editora Maria Jeronimo. 
 
A Nova Fronteira lança agora a versão em quadrinhos de Macunaíma, o romance inacabado Café e uma seleção de contos e crônicas. 
 
- Não há um boom nas vendas, mas é um ciclo de vida que não se encerra. Seus livros são adotados por escolas e universidades, além de atrair sempre novos leitores - explica. 
 
Biografia
 
Outra novidade da data é a edição de Eu sou trezentos, biografia escrita pelo professor aposentado da PUC-RJ Eduardo Jardim. O título faz referência a um poema de Mário: 
 
"Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cincoenta,/ Mas um dia afinal eu toparei comigo.../ Tenhamos paciência, andorinhas curtas,/ Só o esquecimento é que condensa,/ E então minha alma servirá de abrigo". 
 
É a segunda incursão de Jardim no universo do modernista. Antes, lançou Mário de Andrade - a morte do poeta, com os últimos anos do modernista. Jardim retrata a formação intelectual de Mário, o interesse pelas vanguardas e pela brasilidade, nos anos 20; pela arte engajada e pelo serviço público nos anos 30; até a fase mais sombria, de 1938 até sua morte. Para o biógrafo, a tristeza dos últimos anos foi crucial para a morte de Mário. Jardim cita a conferência crítica aos 20 anos da Semana de 22. 
 
- Estava descontente com os rumos do Brasil, por conta do Estado Novo, de 1937, além de passar por um momento pessoal difícil, com trabalho burocrático no Rio em que precisava bater cartão todo dia. Sem falar na saudade de São Paulo - diz Jardim.
 
Depois de comandar o Departamento de Cultura da capital paulista e ajudar o ministro da Educação e Cultura, Gustavo Capanema, na formulação do anteprojeto de lei que criaria o Instituto de Preservação do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, Mário foi morar no Rio após um convite para dar aulas na Universidade do Distrito Federal. 
 
O plano de criação da instituição não vingou por motivações políticas e ele acabou em um emprego sem importância dentro do ministério. 
 
- Apesar dos amigos no Rio, como Drummond e Bandeira, ficou afastado deles. Morava perto da Lapa e saía para beber com amigos todos os dias, como os primos Moacir Werneck de Castro e Carlos Lacerda, na época militantes comunistas - diz o biógrafo. 
 
Doutora em Educação pela USP, Ana Cristina Arantes estudou a criação dos parques infantis, marca da gestão de Mário no Departamento de Cultura paulistano, além de bibliotecas circulantes e do acervo municipal de discos. Apesar de seguirem a política higienista da época, com cobrança de presença e medições de altura e peso, os parques tinham jogos e brincadeiras relativos ao folclore nacional. 
 
- Pelas localidades em que foram construídos, como Bom Retiro e Vila Romana, na maioria os frequentadores eram filhos de operários de origem europeia. Lá, além de se socializarem, conheciam melhor a cultura local e participavam de atividades esportivas, teatrais e ligadas a artes plásticas - explica Ana Cristina.
 
A atividade de Mário como homem público também é tema de Maria Lúcia Bressan Pinheiro, do Departamento de História da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU), da USP. Ela conta que, nos anos 1910, o modernista se interessou pelas palestras do engenheiro português Ricardo Severo. Sócio do arquiteto Ramos de Azevedo - autor de obras como o Theatro Municipal e o Mercado Municipal, em São Paulo -, Severo foi um dos defensores do valor artístico do estilo colonial brasileiro. Para ele, essa arquitetura era adaptação de formas portuguesas ao clima brasileiro. 
 
Inspirado nas ideias do português, Mário passou a, desde os anos 1920, visitar cidades históricas em busca de prédios com valor artístico.
 
- A arquitetura colonial era, então, vista como estilo inferior ao da Europa. Em obras como o Turista aprendiz, a gente vê fotos e desenhos que fez de prédios - diz Maria Lúcia.
 
Por esse interesse, Mário foi convidado a formular o Patrimônio Histórico Nacional e trabalhou na seleção de edificações em São Paulo.
 
Homenagens da Flip deste ano começaram na capital paulista antes do evento oficial, em Paraty
 
A música foi outro foco importante do modernista, apesar de não ter sido compositor nem músico. Depois de se formar no Conservatório Dramático e Musical de São Paulo, ele vira professor de piano, estética e história da música. Em viagens pelo Norte, Nordeste e Sudeste nos anos 20, acumulou informações sobre canções folclóricas. Quando assumiu o Departamento de Cultura, organizou a Missão de Pesquisas Folclóricas. 
 
- Após a I Guerra Mundial, teve início um movimento para reunir expressões culturais de cada povo. A destruição causada pelo conflito deu dimensão aos intelectuais de que elementos tradicionais de suas regiões poderiam ser extintos - explica Flávia Camargo Toni, do Departamento de Música da ECA-USP e do IEB. 
 
Quando Mário fez o trabalho, o poeta espanhol Federico García Lorca coletou obras da cultura cigana de seu país e Alan Lomax reuniu canções de negros do sul dos EUA. Flávia organizou a caixa Música tradicional do Norte e Nordeste, a partir da missão comandada por Mário, lançada pelo Sesc/SP em parceria com a prefeitura paulistana e o Centro Cultural São Paulo. O objetivo de Mário, diz ela, não era só coletar músicas tradicionais. 
 
- O desejo era que essas sonoridades influenciassem compositores eruditos da época, para criar uma música moderna brasileira. Ele sabia que o folclore servia de inspiração a artistas russos e alemães da época - comenta. 
 
Metódico, Mário anotava na capa de discos informações sobre cada obra. O material servia depois a críticas e crônicas sobre o conteúdo das músicas e até o sotaque de intérpretes. 
 
- A impressão é que ele sabia da importância de seu acervo para a posteridade. Como não era rico, selecionava obras significativas com preços acessíveis - diz Flávia.
 
Correspondência
 
Além de Villa-Lobos e Camargo Guarnieri, muita gente se correspondeu com Mário. Com base nas cartas recebidas, hoje no IEB, o professor Marcos Antonio de Moraes estima que o modernista tenha escrito 7 mil cartas. Dessas, 1,5 mil são conhecidas dos pesquisadores. 
 
- Pode ser pouco em relação a outros autores, mas algumas são, quase, tratados de 60 páginas - diz Moraes. 
 
Ele avalia que as cartas eram um projeto para o autor. Mais do que pessoais, serviram à troca de informações e a experimentações de linguagem. 
 
- Mas a função mais significativa foi a didática - conta ele.
 
Segundo Moraes, Mário tinha uma maneira de apresentar conceitos sem parecer professoral.
 
- Criava momentos de tensão, que beiravam o rompimento, para testar a disposição do interlocutor. 
 
Um dos exemplos foi a correspondência com Drummond. 
 
- Drummond era jovem e tinha muita influência francesa e pouca identificação artística com o Brasil. Começou a mudar de opinião a partir desse diálogo - diz o pesquisador. 
 
Mas a relação artística mais importante e polêmica foi com Oswald de Andrade. Um pouco mais velho e bem mais viajado, Oswald teve papel importante na vida de Mário nos anos 1910 e no começo da década seguinte, quando lhe apresentou a vanguarda europeia e foi divulgador de suas obras. Os dois se afastaram em 1924, quando Oswald redigiu o Manifesto da poesia pau-brasil. O rompimento definitivo veio quatro anos depois, com o Manifesto antropofágico. Segundo Gênese Andrade, da Unicamp, há diferentes versões sobre o rompimento. Das duras críticas a Mário na Revista da Antropofagia (assinadas com pseudônimo, foram ou não escritas por Oswald) à briga pela liderança do modernismo. 
 
- Oswald tentou se reconciliar várias vezes, mas Mário não quis - diz.
 
Para Gênese, Oswald se referia positivamente a Mário, apesar de ter escrito um artigo, com Mário vivo, em que depreciava sua obra. Ele pouco se referiu a Oswald publicamente, mas mostrava sentimentos divergentes em cartas a Drummond e Bandeira. 
 
- Ora lamenta o rompimento ora se refere furiosamente ao ex-amigo. Não sou favorável à polarização que se costuma fazer entre os dois. A relação entre eles foi muito frutífera enquanto durou - diz Gênese.
 
Superestimado
 
Apesar de admirar a produção intelectual de Mário, o professor de literatura da Universidade Federal do Rio Grande do Sul Luís Augusto Fischer considera Mário e a Semana de 22 superestimados na cultura brasileira. 
 
- É preciso entender o momento histórico. Os dois simbolizam a consolidação de São Paulo como capital intelectual e cultural do país - afirma. 
 
Para ele, tende-se a ensinar o modernismo como movimento superior aos outros. Exemplo seria a classificação de Euclides da Cunha e Lima Barreto como "pré-modernistas". 
 
- É um limbo, como se não tivessem alcançado o ponto alto de serem chamados "modernistas". Mas são figuras de destaque na luta contra as ideias racistas do positivismo, corrente de pensamento majoritária nos círculos intelectuais da época - diz.
 
Fischer diz que a obra de Mário não o instala no nível de nomes como Machado de Assis e Guimarães Rosa. 
 
- Como intelectual, teve erros graves de avaliação. Pensou o Brasil de forma original, mas não é o único e não deve ser tratado como superior aos outros - afirma. 
 
Ele cita, como exemplos de falhas, a preferência por José de Alencar em relação a Machado e o desprezo pelo samba como expressão cultural. 
 
- Mário é personagem complicado, até pelo catolicismo exacerbado. Até pouco antes da Semana de 22, pedia autorização a seu confessor para ler obras proibidas pela Igreja - conta.
 
Inspiração
 
Obra e ideias de Mário, no entanto, seguem inspirando artistas. É o caso da Companhia do Feijão, grupo teatral paulista. Para o diretor Pedro Pires, a aproximação foi um acaso. 
 
- Eu já era admirador dele, mas calhou que fomos apresentar nossa primeira peça no agreste nordestino graças ao programa Comunidade Solidária, em 1999. Algumas daquelas cidades foram visitadas por ele 70 anos antes. A coincidência nos fez relacionar nossas memórias aos relatos de viagem para a construção de um espetáculo - conta. 
 
Depois de O ó da viagem, contos, poemas e estudos do modernista serviram de material de pesquisa para a criação de outros espetáculos. No mais recente, Armadilhas brasileiras, o trabalho se desenvolve a partir de Café e do poema "Meditação sobre o Tietê", escrito por Mário nos últimos meses de vida. Em fevereiro, data da morte do escritor, o Feijão organizou apresentações próprias e de convidados, no centro de São Paulo. Não contem a seus inimigos, Mário está sepultado em sua cidade. Saudade.
 
A "gramatiquinha" inacabada
 
A Gramatiquinha da fala brasileira é um dos materiais inacabados de Mário que foram preservados em seu acervo. A pesquisadora Aline Novais de Almeida escreveu um mestrado sobre essa coletânea de observações feitas pelo autor. 
 
- Apesar do nome, o material não é uma gramática, na medida em que não trata de regras. A ideia dele, manifesta em anotações e correspondências, era registrar falas e construções típicas da linguagem do país - explica. 
 
Os comentários tratam do hábito nacional de tratar objetos e pessoas no diminutivo e o duplo "não", devido a uma suposta dificuldade brasileira em dar ordens. 
 
- Ele coletava exemplos, sempre em linguagem que considerava poética, seja em livros, músicas ou falas de pessoas que conhecia - comenta. 
 
Aline conta que os primeiros apontamentos datariam do início dos anos 1920 e o estudo seguiu até o ano da morte do escritor. 
 
- Apesar de não ter sido concluída, é uma obra importante, pois ele desenvolveu uma estilização das características coletadas em outros textos que publicou, como Macunaíma - explica.
 
 
Trechos da Gramatiquinha
 
Sem exemplos vulgares
Nem uma só vez dar exemplos vulgares, gênero "Pedro matou Paulo". Todo exemplo será reflexão profunda. Será frase lírica adorável. Será julgamento crítico. Será ataque ou sarcasmo. No máximo, com brasileirismos. Raríssimo dar exemplo de palavra isolada, só quando já contiver lirismo. (Fólio 15 anverso, p. 70, volume I)
 
Língua
Particípio passado 
como substantivo
"As moça me oiava,
Me dava um piscado"
 
escutei em Sta.
Izabel, estado de
S. Paulo da boca
dum caipira can-
tando modas.
(Fólio 111 anverso, p. 406, volume I)
 
Incapacidade de mandar
Não faz isso!
Não conta pra êle, não!
(Incapacidade de mandar do 
brasileiro se reflete nisso [)]
(Fólio 167 anverso, p. 579, volume II)
 
Gramatiquinha
Não falar nem uma vez em regras. Nem tão pouco em normas, se possível. Falar só em "constancias". (Fólio 255 verso, p. 977, volume II)
 


Postado em 17/06/2015


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