Por um trabalho mais feminino

 

Feitos para os homens, os ambientes empresariais e as leis trabalhistas são pontos de mudanças fundamentais para que as mães que trabalham fora tenham uma rotina mais equilibrada
 
Cíntia Marcucci
 
Um dia a dia mais flexível é o que você mais quer. Afinal, com tudo o que há de tecnologia, qual o problema em fazer parte do seu trabalho de casa, mais perto das crianças? Para 63% das mães que participaram da pesquisa da CRESCER, um esquema em que pudessem passar meio período no escritório e a outra metade em casa seria ideal. Outras 20% queriam uma tarde ou dia livre por semana e 29% disseram que o que mais gostariam seria um horário mais flexível. Claro que nem todas as profissões permitem isso, mas mesmo para as que são possíveis ainda é muito difícil conseguir mudanças.
 
Os entraves são muitos e vão desde uma realidade empresarial que ainda não se adaptou às mulheres até leis trabalhistas rígidas. “O mundo corporativo, seus horários e regras, foi criado e moldado para o homem. O home office, ou um horário diferente se o seu filho entra mais tarde na escola, pode render um bom tanto de horas úteis para a relação mãe e filho”, diz a psicóloga e empresária Cecília Russo Troiano, autora de Vida de Equilibrista (Ed. Cultrix) e estudiosa das relações da mulher com seus diversos papéis.
 
Mesmo com as regras ainda rígidas, 30% das mães disseram que costumam levar trabalho para casa e para 48% delas isso toma entre uma e duas horas de seu dia. Já 68% abririam mão de salário para ter um dia inteiro em casa, mais tempo de licença-maternidade ou trabalhar apenas meio período.
 
Para conseguirem isso, esbarram na Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), conjunto de normas que rege o emprego formal no Brasil. Criada em 1943, tem como objetivo proteger o trabalhador de possíveis abusos dos patrões. Mas, de lá para cá, bastante coisa mudou, como a entrada da mulher no mercado de trabalho e os avanços da tecnologia. Foram feitas adaptações ao longo desses quase 70 anos, mas a discussão sobre a flexibilização, que permitiria uma negociação mais livre entre empresas e empregados, é polêmica. “As relações de trabalho são um diálogo permanente, mas é preciso haver uma base de garantias, já que a relação de forças é desigual e o trabalhador é o lado mais fraco”, diz o ministro do Trabalho, Carlos Lupi, em entrevista à CRESCER. 
 
Licença para cuidar
 
Outro ponto em discussão é a ampliação da licença-maternidade obrigatória dos quatro meses atuais para seis. Atualmente, os seis meses são direito das servidoras públicas e opcional para companhias privadas, que podem aderir ao Programa Empresa Cidadã e depois descontar os valores gastos nos dois meses extras do Imposto de Renda.
 
A Receita Federal, que coordena o programa, não tem números da adesão, mas as empresas que já oferecem os seis meses dizem que os benefícios são grandes. “Os custos são irrisórios e as mulheres ficam mais satisfeitas e produtivas”, diz Marcelo Cardoso, vice-presidente de desenvolvimento organizacional e sustentabilidade da Natura. Para o Grupo Pão de Açúcar, a visão é parecida e o retorno é de “uma colaboradora mais tranquila, dedicada, empenhada e feliz.”
 
Mas, além de mais tempo, as mulheres gostariam de ter mais poder de decisão sobre esse período, 46% preferem que uma nova lei traga mais flexibilidade, por exemplo, tirar os quatro meses integrais e mais dois trabalhando meio período.
 
A ideia não é inviável. Em 2010, os valores investidos em salário-maternidade ultrapassaram R$ 1 bilhão, de acordo com dados da Previdência Social. Esse valor foi destinado a quase 1,2 milhão de mulheres, o que corresponde a 6,28% da força de trabalho feminina em empregos formais no país. Em entrevista à CRESCER, o ministro da Previdência Social, Garibaldi Alves Filho, e o secretário de políticas de previdência social, Leonardo Polim, explicaram que, caso a licença de seis meses se torne obrigatória (uma proposta tramita no Congresso Nacional), seria possível arcar com os valores. “Pelos números de 2010, não causaria um rombo no Estado, é possível, sim”, disse Polim.
 
Um outro ponto de relevância nas entrevistas foi a possibilidade de divisão desse benefício com os pais, a chamada licença-parental. “Como a lei dá meses para a mulher e dias contados para o homem, é como se a lei dissesse que a responsabilidade de criar filhos é das mulheres. O benefício é inquestionável, mas cada família se organiza de um jeito”, diz Cecília Troiano.
 
A licença-parental, nos moldes de países como a Noruega e a Suécia, onde pai e mãe dividem o tempo com o filho, também tem uma logística possível de acordo com o Ministério da Previdência.
 
Claro que isso não significaria a imediata divisão de tarefas por igual. “Não se muda comportamento por lei. Eu me lembro quando foi feita a licença-paternidade, em 1988. Um empresário brasileiro disse que a fábrica dele ia fechar. Aí, uma pesquisa mostrou que isso incidia 0,02% na folha de pagamento”, diz a senadora Marta Suplicy, três filhos e cinco netos. “A reação é violentíssima quando você quer mudar um status.”
 
Ainda há muito o que fazer e, quando a sociedade se organiza e pressiona por mudanças, elas geralmente ocorrem mais rápido. A CRESCER convida você a continuar essa discussão no nosso site para, quem sabe, acelerar essa transformação.
 
6 perguntas para Gleisi Hoffmann
 
A chefe da Casa Civil é casada e mãe de João Augusto, 10 anos, e de Gabriela Sofia, 6, adotada aos 5 meses. Ela recebeu Crescer em Brasília, um pouco depois do combinado: precisou sair do Palácio do Planalto para buscar os filhos na escola de última hora. Sim, acontece até com as ministras!
 
Há uma discussão grande hoje sobre a flexibilização da CLT. Qual é a visão do governo sobre isso?
Não há uma visão definida. É polêmico, mas é real que, para a mulher, como reprodutora da vida, cuidadora do bebê no início e também por culturalmente assumir mais a casa, há de ter uma mudança. Seja pela legislação ou pelos costumes. As pessoas reconhecem que a produtividade feminina é muito grande, até maior que a dos homens. Ou seja, se ela tem respon-sabilidade, produtividade, dupla jornada, por que não ter direito a uma legislação flexibilizada?
 
Sobre licença-maternidade, além dos dois meses a mais, as mães gostariam de poder dividir horário de trabalho.
Eu particularmente apoio. Acho os seis meses importantes e nós precisamos nos preocupar como as pequenas empresas poderiam dar esse benefício sem perecer.
 
Em outros países existe a licença-parental, em que o pai e a mãe dividem o tempo. O pai tem cinco dias só...
É muito pouco, né? E o livre-arbítrio para decidir como dividir a licença é importante.
 
Há uma expectativa grande sobre políticas públicas para o público feminino agora que as mulheres estão no poder. O que já está sendo feito?
Não é simples, não é o fato de ter mulher no governo que vai facilitar. A gente é pego aqui na máquina do dia a dia e tem de dar conta... E nos olham com mais cautela para saber se vamos dar conta mesmo. Agora, uma grande política pública voltada para a criança e para a mulher é a de universalizar o acesso à creche. Isso é fundamental (a meta são 6,4 mil creches até 2014). E a gente enfrenta muita dificuldade de municípios que não querem, pois acham que depois fica difícil manter a creche.
 
Fale um pouco sobre a Gleisi mãe. É você quem os leva para a escola, não?
Agora não mais. Venho muito cedo para cá, eles vão de van. Procuro dar muita atenção nos finais de semana. Quando eu tenho um tempo, eu dedico a eles. Vou ao cinema, mas para assistir a filmes de criança. Eu não saio sem eles, não estou lendo nenhum livro para mim, pois é uma dedicação com foco neles.
 
Você acha que seu marido (o ministro das Comunicações, Paulo Bernardo) e os homens em geral fazem o mesmo?
Não, de jeito nenhum... (risos). Ele lê tudo o que precisa, vê todos os filmes que quer e não tem nenhum peso na consciência.
 


Postado em 23/05/2012


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