As crianças estão estressadas - e muitos pais não estão percebendo
Pesquisa revelou que 72% das crianças entre 5 e 13 anos demonstra sinais de estresse e que 60% dos pais não notam
 
Por Vanessa Lima 
 
Que nota você daria ao seu nível de estresse, de 1 a 10? E ao nível de estresse do seu filho? Essas duas perguntas foram feitas a 432 pais de crianças com idades entre 5 e 13 anos, em uma pesquisa realizada pelo portal médico WebMD, nos Estados Unidos. A conclusão dos especialistas? Os adultos estão tensos, mas não percebem quando essa mesma tensão se manifesta nos pequenos.
 
Um em cada cinco adultos classificou seu próprio nível de estresse com um 10. Mais da metade deles (57%) deu uma nota maior que 7 à tensão. Quando se tratava dos filhos, no entanto, a situação foi diferente: 60% dos pais atribuíram notas abaixo de 4. O estudo também revelou que 72% das crianças demonstrava sinais que podem ser relacionados ao estresse, como dor de cabeça, dor de barriga, muito choro e reclamações excessivas.
 
Por que as crianças estão estressadas?
A própria pesquisa aponta vários motivos. Embora os pais tenham relacionado o estresse à escola (53%) e aos amigos (51%), a chave do problema parece estar no próprio ambiente doméstico. A maior parte das famílias tinha enfrentado certas turbulências no último ano. 27% teve problemas financeiros ou desemprego, 19% enfrentou doenças graves de um membro da família ou de um amigo próximo, 21% precisou lidar com a morte de alguém da família ou próximo, 9% teve um processo de divórcio ou separação e 31% passou por algum tipo de situação emocionalmente complicada.
 
"A infância está mais estressante hoje do que era há algumas décadas", diz Carmen Alcântara, psicóloga clínica de São Paulo (SP). Para ela, a sociedade tem colocado muitas expectativas de sucesso econômico, profissional e pessoal nas crianças, de forma cada vez mais precoce. "As agendas de cursos extracurriculares de uma criança de cinco anos, hoje, compete com as de grandes executivos. Sobra pouco tempo para brincar livremente, descansar, conectar-se a natureza", analisa a psicóloga. Há ainda os estímulos eletrônicos e da mídia, que expõem as crianças muito cedo à violência, à competitividade, ao consumo e  à sexualização. Diante desse quadro, como não se estressar?
 
Os sinais perdidos pelos pais
Se as crianças estão com um nível alto de tensão, como uma parcela tão expressiva dos adultos não percebe? "O estresse infantil passa desapercebido, em primeiro lugar, porque talvez os pais acreditem que a infância é uma fase da vida com poucas responsabilidades, muitas brincadeiras e fantasias. Por consequência, eles podem pensar que o estresse só afeta os adultos", explica a psicóloga.
 
Outro motivo apontado por ela é que os pais, muitas vezes, esperam que a criança verbalize que a constante dor de barriga ou os resmungos estão relacionados ao estresse, mas isso não acontece. "Além disso, vivemos em um mundo em que, cada vez mais, os adultos se voltam para seus próprios problemas e perdem de vista o que seus filhos estão expressando", afirma.
 
Segundo os pesquisadores esse estado de estafa emocional e mental se mostra tanto no comportamento, quanto na parte física. As crianças podem passar a reclamar ou a chorar mais, ou então, elas podem parecer sempre preocupadas e ansiosas. Algumas passam a se queixar de dor de cabeça, dor de barriga, a ter pesadelos ou problemas para dormir e apresentar mudanças nos hábitos alimentares, o que pode acontecer com um aumento ou com uma diminuição repentina do apetite. "É importante, nesses casos, a família buscar ajuda de um profissional especializado, como pediatra, psicólogo ou psiquiatra infantil", recomenda Carmen.
 
Cuide-se para poder cuidar dos seus filhos
Uma das principais maneiras de evitar que as crianças se sintam tão estressadas, ainda que a família enfrente alguma situação difícil, é identificar primeiro o estresse dos adultos e tentar lidar com ele."Dessa forma, é possível evitar passar tanta tensão para a família", orienta a psicóloga.
 
Além disso, a conexão real entre os pais e as crianças é essencial. Entregue-se às brincadeiras e às fantasias. De acordo com a especialista, os benefícios de entrar de verdade na diversão com seus filhos funcionam tanto para eles, como para você. "Isso pode ajudar os pais a aliviarem o próprio estresse e a aumentar a tranquilidade dos filhos", explica. "Crie oportunidades de maior convívio familiar em situações descontraídas, como fazer piquenique em um parque, empinar pipas, pescar...", sugere. O importante é deixar a zona de conforto formada pelo sofá, pelos jogos eletrônicos e pela televisão.
 
Outra forma de prevenção é ajudar as crianças desde cedo a identificarem seu próprio estado de humor, como raiva, alegria, medo. "Ao verbalizar o que os pequenos sentem os pais colaboram para que, mais tarde, eles possam se conhecer melhor e saibam como lidar com essas emoções", afirma a psicóloga.
 
Como lidar com o estresse infantil
Se a criança já apresenta um quadro de estresse, além de procurar um profissional, há outras coisas que os pais podem fazer apara ajudá-la a diminuir essa tensão. "A melhor maneira de melhorar o quadro é tentar identificar as possíveis causas do estresse e modificar o comportamento e o estado de espírito com as crianças e algumas rotinas", explica a psicóloga.
 
Um dos principais fatores é a qualidade do tempo de convivência em família. Mas atenção! Ficar em frente à TV ou ao celular não vale. "O contato consigo e com o outro precisa ser enriquecedor e não alienante. Isso fortalece a resiliência e nos faz sentir menos afetados pelo estresse. "Ficar diante de uma TV ou nos joguinhos eletrônicos pode dar a sensação de alívio imediato, como uma bebida alcoólica. O alívio, porém, é só naquele momento. Não fortalecemos nosso eu interior, nem os relacionamentos com as pessoas mais importantes das nossas vidas", afirma.
 
Pense em atividades prazerosas e desconectadas, como cozinhar, passear, conversar, ouvir música, dançar... Assim, você manda o estresse embora e ajuda seu filho a descobrir ainda mais prazer na vida em família.
 
Fonte: Revista Crescer 


Postado em 23/09/2015


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