Análise: Como a saída do Reino Unido da União Europeia afeta o Brasil
A vitória da campanha para deixar a UE poderia ter impacto principalmente no câmbio e em investimentos,
mas também no atraso da recuperação econômica
 
por Soraia Yoshida 
 
A saída do Reino Unido da União Europeia (UE), após mais de 50% dos britânicos terem votado no "brexit" no referendo realizado na quinta-feira (23), representa um impacto econômico e político muito maior do que os aproximadamente 2,4% de sua fatia no PIB global poderia sugerir. Além de capitanear um movimento que coloca em risco a própria existência do bloco, o abandono tem consequência direta em acordos de livre comércio que hoje são negociados, como o do Mercosul. E, por consequência, afeta também o Brasil.
 
O impacto mais direto deve ser sentido pelas empresas e empreendedores brasileiros que fazem do Reino Unido seu “hub” para chegar ao grupo de 28 países. “Cenários de incerteza são muito ruins para se fazer negócio e investir dinheiro”, afirma Carolina Pavese, doutora em relações internacionais da PUC-MG com especialidade na relação Brasil-União Europeia. “Londres é um eixo importantíssimo de acesso ao mercado europeu, tanto que empresas que querem se estabelecer na UE sempre pensam em abrir seu escritório lá. Sem essa facilidade, o Reino Unido perde esse apelo.” A alternativa, já levantada em um artigo do jornal Financial Times, é que várias companhias se mudem para a Irlanda.
 
O acordo de livre comércio Mercosul-União Europeia tem no Reino Unido um apoio importante, já que o governo do primeiro-ministro David Cameron enxergava o tratado com bons olhos e impõe menos pressão do que outros peso-pesados do bloco, como a França. “A União Europeia é o principal parceiro comercial brasileiro, mais importante até do que China e Estados Unidos”, diz Oliver Stuenkel, coordenador do MBA de relações internacionais da Fundação Getulio Vargas (FGV/MBARI). “A saída gera uma incerteza muito grande e levanta dúvidas sobre o projeto europeu, sobretudo para os ‘atores’ que têm relação econômica forte com a UE. Nenhum acordo de livre comércio entre Reino Unido e Mercosul poderia compensar por essa incerteza, por isso o impacto de uma possível saída seria tão negativo.”
 
Considerando que o avanço nas negociações entre Mercosul e União Europeia estão na pauta do governo interino de Michel Temer, Stuenkel aponta então uma situação que poderia pesar na crise econômica brasileira. “Esse acordo é visto como um dos pilares na estratégia do Brasil para acelerar a recuperação econômica”, diz. "Isso faz do ‘Brexit’, como tem sido chamado o movimento, uma notícia negativa para o país.”
 
Afetada pela saída, a economia global deve passar por uma chacoalhada. Em um artigo no The Guardian, o megainvestidor George Soros disse que a libra perderia no mínimo 15% – possivelmente mais de 20% frente ao dólar. “Em uma situação como essa, o investidor corre para o porto seguro, que no caso seria o dólar e o iene”, diz Jefferson Rugik, CEO da corretora Correparti, especializada em operações de comércio exterior. Segundo ele, o investidor brasileiro que estiver posicionado em dólar vai ganhar no curto prazo, mas após o choque, ele acredita que haveria uma acomodação.
 
Prazo
Em termos de exportação, o Brasil não sentirá de imediato os efeitos dessa retirada de campo. Como estado-membro da União Europeia, o Reino Unido segue 160 mil legislações que não poderão ser desfeitas do nada. “As principais diferenças estariam nas negociações do Reino Unido no bloco. Para as empresas brasileiras estabelecidas lá, os produtos de exportação que passam pela UE vão continuar seguindo o fluxo”, acredita Maria Antonieta Del Tedesco Lins, economista e professora associada do Instituto de Relações Internacionais da USP. “O processo de retirada precisaria ser negociado e certamente seria lento.”
 
Pelo último acordo ratificado em 2009, que estabelece entre outros pontos a possibilidade de que um país abandone o bloco, está acertado que, neste caso, o Reino Unido tem de comunicar às autoridades da União Europeia para negociar sua saída e cumprir os procedimentos em no máximo dois anos. “Imagine que nesse prazo o país teria de passar por uma reforma muito rápida, já que hoje segue legislações que são adequadas à UE, sob o risco de que elas ficassem obsoletas”, explica Carolina Pavese, da PUC-MG. Resta ainda a incógnita de como o Reino Unido iria se relacionar com cada um dos membros da União Europeia e, posteriormente, os parceiros globais. "As implicações estariam também na questão da confiança, uma vez que o Reino Reino deixaria os tratados internacionais, enfraquecendo o bloco", aponta Kirstyn Inglis, professora que integra o programa Erasmus+, de pesquisa nas relações Brasil-UE. "O país assumiria uma posição desafiadora para negociar com outros países, como o Brasil e outros Brics."
 
Outro ponto importante, que não salta à primeira vista, é que sendo um defensor de maior liberalização do comércio e serviços, o Reino Unido sempre pressionou os Estados-membros a adotar um modelo econômico menos regulador. Sua ausência será sentida principalmente pelos empreendedores, que buscam nações mais abertas.
 
Com a saída, um fator que pode ser positivo para o Brasil, no entanto, é a possibilidade de aumentar seu poder de barganha. Em vez de negociar com um bloco, o país deve estabelecer uma relação direta com o Reino Unido. “Há uma perda em vantagem competitiva porque deixa de ser um bloco, mas ao negociar um a um, o Brasil pode firmar acordos que poderiam ser bem favoráveis”, diz Carolina.
 
E os brasileiros?
O principal ponto que levou ao referendo do “Brexit” surgiu da gritaria interna sobre a questão migratória e a reclamação de que o Reino Unido contribuia muito para o orçamento geral da União Europeia – para receber pouco em troca. O fato de que o governo do primeiro-ministro David Cameron, que defendia a permanência, se viu praticamente coagido a realizar o plebiscito diz muito. Pesquisas de opinião divulgadas nos últimos dias apontam que os eleitores que defendem o "deixar" a UE por uma larga marge,, 65% contra 35%, não completaram o ensino médio, pertencem à classe trabalhadora ou estão acima dos 60 anos. Já os que possuem nível superior e são profissionais qualificados votam "ficar", em margens similares, de 60% para 40% ou mais. 
 
Para "calar" os descontentes, o governo defendeu um controle mais rígido para a entrada de estrangeiros, que “sobrecarregam” o sistema médico-assistencial, de acordo com aqueles que defendem a saída. As expansões em 2004, 2007 e 2013 trouxeram um fluxo de mão de obra nem sempre qualificada para o país, tirando o espaço também de brasileiros.
 
“Para os brasileiros que vivem lá será difícil escapar de uma crise econômica que deve se seguir pela própria transição e pelas expectativas econômicas que acompanham o Brexit”, acredita a economista Maria Antonieta Del Tedesco Lins. “Com tanta incerteza pela frente, a situação pode se complicar bastante.”
 
O fato, porém, pode puxar a balança para o lado dos brasileiros. “Os europeus estariam submetidos à mesma legislação que vigora, por exemplo, para brasileiros e americanos”, diz Carolina Pavese. “Isso, de certa forma, nos coloca numa posição mais de igualdade em termos de legislação migratória e trabalhista.”
 
Quem perde mais
Com a crise econômica e política, o Brasil não ocupa uma posição de destaque na visão estratégica do Reino Unido. A mídia britânica recebeu negativamente o processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff, a ponto de a Economist destacar que uma saída melhor para o país seria a convocação de eleições diretas. “A imagem do Brasil ficou muito manchada”, admite Maria Antonieta Lins. Mas não que isso emperre investimentos. “Os investimentos em papéis, carteira e empresas que tiverem de ser feitos serão feitos, porque o Brasil está muito barato.”
 
O resultado do referendo no Reino Unido lança dúvidas principalmente sobre o futuro do projeto de integração na Europa, mas também sinaliza o crescimento preocupante do sentimento anti-migração e dos movimentos nacionalistas. “Isso representa um ceticismo em relação à globalização, às fronteiras abertas, e vejo até um perigo para a democracia”, afirma Oliver Stuenkel. “Vejo protecionismo, xenofobia, nacionalismo.”
 
Stuenkel enxerga esse risco não somente no Reino Unido, mas em vários países. “As pessoas que defendem o Brexit são as que votam em favor de Donald Trump nos Estados Unidos, em Marine Le Pen na França e aqui no Brasil desejam um salvador da pátria, alguém que resolva todos os problemas que a democracia apresenta. Nesse sentido, o Brexit faz parte dessa crise porque passa o sistema e o risco da ascensão de populistas, inclusive por aqui. Não podemos excluir essa possibilidade nas próximas eleições.”
 


Postado em 24/06/2016


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