Lágrimas coloridas

 

por Denise Fraga
 
O menininho chorava no shopping batendo os pezinhos no chão. Gritava esperneando e, a cada pisada, acendiam luzinhas coloridas no solado do seu tênis. Sua mãe tinha comprado o tênis pisca-pisca pensando no pequeno brincando de pega-pega e não naquela cena insólita onde lágrimas molhavam a alegria, prestes a dar um curto-circuito. Olhei a cena discretamente. Sim, porque não há nada mais contrangedor do que os olhos que se viram pra nós em plena cena de birra pública de nosso pequeno. As lágrimas iluminadas por luzinhas coloridas me fizeram pensar no quanto nossos dias de mãe são realmente um show de contraste. É verdade que, enquanto alisamos nossa crescente barriga, pensamos mesmo é nas mãozinhas deles no nosso pescoço, nas corridas no gramado, nos sorvetes, bicicleta e todas as delícias que vamos fazer juntos. Dificilmente pensamos numa criança gritando NÃO QUEEEEEROOOOO!
 
Confesso que, quando comecei a ouvir, me assustei. Não me sentia preparada para aquilo. Não tinha estudado pedagogia ou psicologia e o momento parecia exigir de mim uma atitude de especialista. Foram tantos que não resolvi como gostaria! Eu achava que conseguiria resolver tudo na conversa, que explicaria tudo com amor e, pronto! Nos entenderíamos. Mas as conversas doces iam virando pequenos tratos, chantagens e, muitas vezes, meninos arrastados pela mão aos gritos e lágrimas. Muitas e muitas lágrimas, por vezes manchadas de tinta ou chocolate, me exibindo o contraste necessário à vida. Contraste que só agora, que tenho meus filhos crescidos, posso ver com clareza nas luzinhas do tênis no shopping. Como aprendi com meus pequenos, Santo Deus! Aprendi tanto e parece que nunca sei nada, porque a convivência com eles é de tamanha riqueza e multiplicidade, que sempre haverá enigmas, impasses e xeque-mates a decifrar. Então é isso ter filhos? Acho que sim. Pelo menos, acho que é isso ser mãe. A delícia da intimidade, da cumplicidade e das pequenas conquistas dentro do infinito mar da dúvida. Porque o terreno é móvel. É delicado, frágil e lindo. Nas festas de aniversário, o pequeno vai mesmo ficar emburrado e sair chorando nas fotos do parabéns ainda que vestido de Homem-Aranha, você vai comprar com todo o amor do mundo um carrinho pra cada um e um deles vai chorar porque queria o azul e a boa ideia de uma simples ida à padaria pra comprar um picolé pode virar um pesadelo se um sorvete cair no chão no caminho de volta. Ter filhos é ver dor e prazer se misturarem o tempo todo. A vida em si não é assim? Mas acho que junto aos pequenos aumenta a intensidade do contraste. Uma vez, um índio do norte da Argentina me disse: “Sabe qual é a grande diferença da minha cultura pra sua? Vocês tentam eliminar o mal. Nós temos consciência de que o mal precisa existir junto com o bem pra criar a dinâmica.” Dinâmica. Palavra boa, né?
 
DENISE FRAGA é atriz, casada com o diretor Luiz Villaça e mãe de Nino, 14 anos, e Pedro, 12 e-mail: dfraga.colunista@edglobo.com.br
 


Postado em 11/06/2012


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