Entrevista – “Tratamos os filhos de formas diferentes porque eles são diferentes”
A psicanalista Vera Iaconelli concedeu uma entrevista exclusiva ao blog para falar de uma das relações mais importantes e, em alguns casos, conflitantes nas famílias: a relação entre irmãos. Confira!
 
Fundação Maria Cecilia – Tem pessoas que dizem que a criança é mais feliz quando tem um irmão. Isso tem fundamento?
Vera Iaconelli – Ter ou não ter um irmão não define se a infância será boa ou ruim. A criança pode ter vários irmãos, mas que não estabelecem uma relação bacana, de parceria. Um filho único pode ser muito feliz na infância construindo boas relações com amigos. Em ambos os casos, o fundamental é que as interações aconteçam com liberdade e espontaneidade.
 
FMC – A diferença de idade entre irmãos conta de alguma forma?
VI – Trazem experiências diferentes, mas isso não significa que sejam melhores ou piores. O importante é a maneira como se dá a intermediação do adulto para que a relação entre a criança menor e a mais velha aconteça de um jeito bom para ambas. Ao mesmo tempo, a intermediação excessiva pode prejudicar a relação dos irmãos, criando disputas desnecessárias, como pela atenção e pelo carinho dos pais.
 
FMC – Como se dá uma intermediação adequada?
VI – Os pais precisam favorecer situações e vivências que fortaleçam a relação dos irmãos. Estimulá-los, por exemplo, a resolver alguns impasses juntos, encontrar soluções em parceria para situações do dia a dia, como no brincar, para que o mais velho sinta que estar com o mais novo é uma fonte de prazer. No caso do bebê, é difícil o mais velho entender as diferenças, então, comentários como: “Ele quer brincar com você. Ele não sabe falar ainda, mas podemos tentar entender o que ele quer”, podem ajudar. Porque, para a criança maior, esse serzinho que chegou é puro mistério.
 
FMC – Mas quando tem uma diferença maior de idade, os interesses acabam sendo bem diferentes entre os irmãos.
VI – Sim. É importante que a criança tenha seu espaço e preserve suas brincadeiras, ter seu mundo próprio. Por exemplo, se o mais velho tem uma programação pensada pra ele (o aniversário de um colega de escola), o mais novo não precisa ir. Não é obrigação levá-lo, só porque é seu irmão. Forçar só piora as coisas.
 
FMC – Muitas vezes, a chegada de um irmão causa ciúmes. Algumas crianças até vivenciam uma regressão.
VI – Sim, mas os pais precisam entender que, quando chega outra criança, há uma perda para o filho mais velho, mas que, ao mesmo tempo, é fonte de novas possibilidades, ou seja, aprender a dividir, estar no mundo com outra pessoa ao lado… Diante de possíveis disputas e brigas, os pais precisam criar estratégias para lidar com essas situações. Nunca, no entanto, fazer comparações (quem é melhor, quem está com a razão…). A criança menor pode ser valorizada por ser mais engraçadinha, ter mais atenção voltada pra ela. Se os pais souberem transformar as situações em ganhos para o mais velho, esse ciúme será melhor administrado. Um exemplo é valorizar coisas que o mais velho faz e que poderá ensinar ao mais novo: “Você já sabe falar! Que bom, porque pode mostrar para seu irmão como se faz”, “você já vai à escola”, “você sabe jogar bola”, e por aí vai.
 
Com relação à regressão, que às vezes acontece com os mais velhos, é importante positivar as coisas que fazem. De repente, ele não quer ir à escola. Mostrar que essa conquista é dele, que ele cresceu e pode fazer as atividades dele.
 
FMC – Muitos pais acabam reproduzindo algumas vivências que tiveram com seus irmãos?
VI – Saber lidar com os filhos é ter de lidar com as ansiedades que os pais tiveram na relação com os próprios irmãos. O importante é, ao olhar para seus filhos, entender que quem fez a escolha de ter outra criança foram eles, pai e mãe. As crianças não têm nada com essa decisão. Então, o filho não é obrigado a gostar do irmão. A gente torce muito para que goste, e geralmente é o que acaba acontecendo, mas ninguém pode ser obrigado a isso, porque o amor não é uma escolha. A obrigação está em respeitar e tratar bem, mas não em gostar ou ter que brincar junto.
 
FMC – Tem pais que ouvem dos filhos algo como “você trata ele diferente de mim”, em tom de crítica.
VI – Tratamos nossos filhos de maneiras diferentes porque eles são diferentes, estão em momentos diferentes, tem desejos diversos. Os pais precisam deixar isso claro para os filhos: cada um tem seu jeito e seu tempo, daí tratamentos e olhares diferenciados. O que não significa injustiça ou privilégios. Cada um de nós ganha algo, ao mesmo tempo em que perde alguma coisa ao crescer, por isso não há privilégios, mas diferentes perdas e ganhos.
 
FMC – Quando os irmãos são gêmeos, o que fazer para mostrar que são diferentes?
VI – Os pais precisam deixar claro que, mesmo parecidos fisicamente, cada um é de um jeito, tem vida e personalidade próprias. Por isso, não é recomendável vesti-los com as mesmas roupas, a não ser que eles peçam. Impor isso a eles é o tipo de coisa que confunde as crianças.
 
FMC – Existem pais que dão responsabilidades aos mais velhos para que cuidem dos mais novos. Isso é bom para ambos?
VI – É importante entender que a criança mais velha não é pai nem mãe do irmão mais novo. Ela também não pode ser culpabilizada por ter nascido primeiro, mesmo porque não foi ela que decidiu isso, muito menos ter um irmão. Assume-se que se tem um irmão e respeita-se isso, gostando ou não.
 
FMC – O que fazer no caso de mães e pais que precisam trabalhar e deixar as crianças mais velhas cuidando das mais novas?
VI – Essa realidade é muito triste e totalmente inadequada, mas, muitas vezes, a única opção desses pais. Acredito que nesses casos, seja essencial que os adultos deixem bem claro que é uma situação circunstancial, fora dos padrões, para resolver um problema da família. Caso contrário, essa história vai se repetir quando essas crianças se tornarem pais, porque tendem a achar que é assim mesmo. Os pais precisam garantir que essa criança, que cuida das outras, tenha seus momentos de infância preservados, com direito ao brincar, a conviver com crianças da idade dela, fazer manha vez ou outra, enfim, ser criança, evitando “adultizar”. E também mostrar gratidão a esse filho, por assumir uma responsabilidade que não é dele, ajudando a família como um todo.
 
FMC – Como criar os filhos sem reforçar preconceitos de gêneros?
VI – É importante, nas falas e atitudes dos adultos, não associar comportamentos normativos com os desejos singulares. Por exemplo: se é menina, vai casar e ter filhos. O menino tem de trabalhar o dia inteiro. Na verdade, meninos podem brincar com bonecas, de casinha, para chegar à vida adulta preparados para serem pais, se assim quiserem, sem achar que essas tarefas não são viris. Vemos ainda, em muitas famílias, só as meninas levantando para tirar a mesa depois das refeições, só para dar um exemplo corriqueiro. O interessante é que, em quase todas as famílias, hoje se reclama da não participação dos homens na rotina da casa. Vale reforçar que uma sociedade mais igualitária começa no berço. Não confundir isso com a brincadeira de princesa e herói, porque na brincadeira vale tudo e o adulto não deve se meter, embora continue a zelar pela segurança da criança. Existem fases em que as crianças podem gostar de se vestir com roupas de meninos ou de meninas independentemente do gênero. Tudo bem. A brincadeira é o espaço da liberdade e não deve ser normatizada pelo adulto.
 
Vera Iaconelli é psicanalista, mestre e doutora em psicologia pela USP, autora do livro “Mal-estar na maternidade” (Annablume, 2005), diretora do Instituto Gerar de psicologia perinatal e parental e membro do fórum do campo lacaniano.
 


Postado em 18/11/2016


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