Quantas palavras tem a língua portuguesa?
Com palavras criadas a todo instante por conversas do dia a dia e tecnologias,
entenda como gírias e expressões vão parar entre os verbetes do dicionário
 
por Aldo Bizzocchi*
 
Quantas palavras tem a língua portuguesa? É impossível saber ao certo, mas as estimativas variam entre 200 mil e 600 mil. Diante de tamanha imprecisão, alguém poderia sugerir: ora, basta contar o número de verbetes do dicionário!
 
Infelizmente, esse procedimento não daria certo porque diferentes títulos contêm quantidades variáveis de vocábulos e também porque apenas uma pequena parcela das palavras da língua está registrada neles. Parece estranho? Pois não é.
 
Em primeiro lugar, seja numa conversa de botequim ou no âmbito do comércio, da ciência ou da tecnologia, palavras são criadas a todo instante, da gíria adolescente ao termo técnico. É em parte por isso que se torna impossível estabelecer com precisão o número de termos da língua.
 
Mas, além disso, uma palavra só é dicionarizada quando se tem certeza de que ela realmente já se integrou ao idioma, isto é, está incorporada aos hábitos linguísticos dos falantes. Isso porque grande parte das palavras criadas no dia a dia –especialmente as gírias – desaparece após algum tempo sem deixar vestígios.
 
Em segundo lugar, existem dois tipos de palavras: as que todos ou que parcela considerável dos falantes usa e aquelas utilizadas por comunidades restritas, como é o caso de termos ultraespecializados (e não me refiro apenas ao jargão técnico-científico: qualquer atividade humana, do surfe à criação de gado, tem palavras de uso exclusivo).
 
Com um vocabulário básico de cerca de mil palavras, mais o domínio da gramática, é possível falar um idioma. Durante milênios, enquanto a espécie humana viveu em tribos nômades, sem qualquer registro escrito, o léxico permaneceu nesse patamar. (Ainda hoje, línguas de povos tribais têm, no máximo, por volta de 1,5 mil palavras.)
 
Aliás, um milhar de vocábulos é o repertório médio de um falante pouco escolarizado dos dias atuais. Estima-se que um indivíduo com instrução superior e boa leitura chegue a conhecer até 5 mil palavras (mesmo que não use todas em sua fala). Pessoas extremamente cultas, como foi Rui Barbosa, podem dominar até 10 mil. Ainda assim, é uma fração bem pequena da totalidade do léxico.
 
O grego e o latim clássicos contavam, no século V de nossa era, com cerca de 50 mil palavras. Essa era também a extensão aproximada do léxico das línguas europeias no século XVI.
 
O trabalho e o vocabulário
No mundo greco-romano havia por volta de 50 profissões e na Europa renascentista, cerca de uma centena delas. Na França do século XIX, o filósofo Auguste Comte relatava a existência de 130 profissões, ao passo que, hoje, levantamentos do Ministério do Trabalho dão conta de mais de 30 mil atividades.
 
Essa assustadora diversificação ocorrida no último século trouxe como consequência a hipertrofia do léxico das línguas contemporâneas – fenômeno típico das sociedades pós-industriais, extremamente heterogêneas, nas quais o saber acumulado, cada vez maior, é compartilhado por cada vez menos indivíduos.
 
Como resultado, uma parcela diminuta do léxico é conhecida de todos, outra menor ainda é partilhada apenas pelos falantes altamente escolarizados, enquanto grandes contingentes de palavras são de domínio exclusivo de certos grupos sociais ou profissionais. Essas terminologias são como “códigos secretos” que quem não é iniciado não compreende.
 
Por essa razão, os dicionaristas somente abonam termos que estejam em circulação no meio social, isto é, sejam de uso comum ou pertençam a alguma terminologia suficientemente difundida, como a da informática e a da medicina. Também entram palavras de pouco uso na atualidade, mas que, no passado, tiveram alta frequência, como “madeixa”, “tílburi” e “redingote”, necessárias à compreensão de clássicos da literatura.
 
Quando se trata de palavra relativamente nova, como “mensalão” ou “tuitar”, os dicionaristas podem ficar em dúvida quanto à conveniência da abonação. Por isso, alguns dicionários registram tais verbetes e outros não.
 
Além disso, cada dicionário tem um propósito diferente e destina-se a um público bem delimitado. Quantas e quais palavras entrarão em determinada obra é uma decisão que deve levar em conta esses parâmetros. É por isso que há tanta variação na extensão e abrangência dos diferentes léxicos disponíveis no mercado. Vocabulários especializados, dirigidos a profissionais de uma determinada área, trazem apenas os termos técnicos que interessam a esses profissionais. Dicionários de bolso, por seu pequeno tamanho, incluem apenas as palavras de uso mais comum, deixando de fora termos mais específicos. Dicionários escolares e aqueles destinados ao leitor jovem costumam dar mais ênfase a vocábulos com maior probabilidade de incidência nos discursos desse tipo de público.
 
É o caso do Aurélio Júnior, lançado no ano passado pela Editora Positivo. O novo dicionário, que, como o título diz, remete ao universo infantojuvenil, incluiu entre seus 30 mil verbetes palavras do momento como “bullying” e “periguete”, além de novas acepções para velhas palavras, como “baixar” (receber arquivos da internet) e “ficar” (trocar carinhos por um tempo sem compromisso de namoro). A bem da verdade, o foco principal desse dicionário talvez nem seja o jovem, já bem familiarizado com esses termos, mas o adulto que deseja compreender o que ele diz.
 
Seja como for, a organizadora do volume, Valéria Zelik, incorporou vocábulos que já são, sem dúvida, de uso corrente, e não só pelos mais jovens: “bullying” está até em documentos do Ministério da Educação, hoje em dia, todo mundo “baixa” alguma coisa da internet e, não raro, alguma personagem de telenovela é identificada como “periguete”.
 
Para aqueles que têm algum preconceito com gírias ou termos da moda, é preciso lembrar que muitos vocábulos hoje considerados eruditos e até arcaicos, como “breca”, “dândi”, “maçada”, “mancheia”, “pinoia” e “punhado”, eram expressões populares em séculos passados. A partir do momento em que foram empregados por grandes nomes da literatura, ganharam salvo-conduto para entrar nos dicionários. Aliás, o emprego de uma palavra em veículo de grande influência sobre as massas, como foi no passado o romance e é hoje a televisão, contribui bastante para a sua difusão e, por conseguinte, sua incorporação aos dicionários.
 
* Aldo Bizzocchi é doutor em Linguística pela USP, com pós-doutorado pela Uerj.
 
Fonte: Carta Educação. Artigo divulgado em 3 de dezembro de 2015.


Postado em 19/07/2017


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