Setembro Amarelo: porque precisamos falar urgentemente sobre suicídio
Reduzir o suicídio é um desafio coletivo que precisa ser colocado em debate
 
por Clara Dawn
 
A cada 40 segundos, uma pessoa se mata no mundo, segundo estimativa da Organização Mundial da Saúde. Em uma tentativa de reduzir esse número — a meta da OMS é diminuir em 10% a taxa mundial até 2020 —, a Associação Internacional de Prevenção do Suicídio criou a campanha do Setembro Amarelo e estabeleceu o dia 10 de setembro como o Dia Mundial da Prevenção do Suicídio. A ideia é discutir o assunto e divulgar ações preventivas.
 
— O suicídio é o desfecho de uma doença física ou mental e pode ser prevenido quando falamos sobre o assunto. Hoje, ele é tratado como tabu, o que contribui para que continue acontecendo — explica Roberta Grudtner, coordenadora da residência médica em psiquiatria do Hospital Psiquiátrico São Pedro.
 
Dos motivos que levam ao suicídio: 
 
Depressão, drogas, abusos e bullying
 
O suicídio na juventude intriga médicos, pais e professores também pelo paradoxo que representa: o sofrimento num período da vida associado a descobertas, alegrias e amizades, não a tristezas e morte.
 
O tema foi debatido numa roda de conversa organizada pelo Centro Acadêmico Sir Alexander Fleming (Casaf), do curso de Medicina da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), com a presença de estudantes e professores.
 
Segundo especialistas ouvidos pela BBC Brasil, o problema é normalmente associado a fatores como depressão, abuso de drogas e álcool, além das chamadas questões interpessoais – violência sexual, abusos, violência doméstica e bullying.
 
A cientista política Dayse Miranda, coordenadora do Grupo de Estudo e Pesquisa em Suicídio e Prevenção da UERJ, participou do debate e destacou os relatos dos estudantes.
 
“Fiquei impressionada como os alunos falaram de sofrimento, seja deles, seja a dificuldade para lidar com o sofrimento de outros jovens, além do uso excessivo de medicamentos, que eles naturalizam”, afirma.
 
“Um deles disse considerar impossível um aluno passar pelo terceiro ano de Medicina sem usar remédios para ansiedade e depressão”.
 
A coordenadora-geral do centro acadêmico de Medicina, Elisabeth Amanda Gomes Soares, de 22 anos, aluna do sexto período, diz que a intenção ao promover o evento foi debater a saúde mental do estudante.
 
Segundo ela, o aluno de Medicina muitas vezes acaba se distanciando das questões mais humanas e esquece a vida social e familiar para se dedicar ao curso, sucumbindo às pressões.
 
“É muita cobrança por competitividade, nota, sucesso, presença… Temos de discutir isso dentro do curso, é um tema ainda pouco falado”, afirma.
 
Dayse Miranda destaca, entre os jovens que cometem suicídio, o grupo que tem de 15 a 24 anos. “É um período que inclui adolescência, problemas amorosos, entrada na faculdade, pressão social pelo sucesso… Depois dos 25 anos, já é um jovem adulto, as preocupações mudam, já são mais relacionadas a emprego”, avalia.
 
“Também alerto não ser possível falar do jovem como um grupo único. Há diferenças entre grupos sociais. O aluno de Medicina é parte de uma elite. Como é em outros grupos? Temos de discutir esse tema seriamente, pois o problema vem crescendo.”
 
Ambiente escolar
 
Psiquiatra da infância e da adolescência e pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Carlos Estelita estuda a interface entre o suicídio e outros fenômenos violentos – desde famílias que vivem em comunidades urbanas tomadas por tiroteios e vivem o estresse diário dos confrontos até jovens indígenas que se sentem rejeitados tanto por suas tribos como por grupos brancos.
 
O bullying no ambiente escolar é citado por ele como um dos principais elementos associados ao suicídio. “Pessoas que seguem qualquer padrão considerado pela maioria da sociedade como desviante, seja o tênis diferente, a cor da pele, o peso, o cabelo ou a orientação de gênero, são hostilizadas continuamente e entram em sofrimento psíquico”, afirma Estelita, professor do Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde, ligado à Fiocruz.
 
“Temos de alertar também para a transformação do modelo tradicional de família e para o fato de que a escola nem sempre consegue incluir esse jovem”.
 
Outra dificuldade é falar do assunto com jovens. Muitas vezes, estratégias que funcionam com adultos não têm o mesmo resultado quando usadas com adolescentes – e, entre as peculiaridades desse grupo, está a forma como usa a internet e as redes sociais.
 
A rede vem sendo palco para grupos que não só romantizam o suicídio, mas exortam jovens a cometê-lo, usando a falsa ideia do desafio. O psiquiatra sublinha a necessidade de uma política nacional de atendimento a urgências, pois, muitas vezes, os profissionais não sabem como lidar com casos de tentativas de suicídio.
 
A psicóloga Mariana Bteshe, professora da Uerj, diz que os pais devem estar atentos a qualquer mudança brusca no comportamento do jovem, como, por exemplo, um adolescente expansivo que, de repente, fica introspectivo, agressivo, tem insônia, dorme demais ou passa muito tempo no quarto.
 
Mais uma vez, o alerta especial vai para o uso da internet, e Bteshe lista, na contramão do jogo que incentivaria o suicídio, iniciativas que tentam combater a depressão e lançam desafios “do bem”, como o jogo da Baleia Rosa.
 
“Muitas vezes o jovem fica muito tempo na internet, e os pais não sabem o que ele anda vendo ou com quem anda falando. É preciso que a família, mantendo a privacidade do jovem, busque uma forma de contato com ele e abra um espaço de diálogo”, afirma a psicóloga, que defendeu na Fiocruz uma tese de doutorado sobre suicídio.
 
Bteshe reitera que silenciar sobre suicídio não ajuda a combater o problema. Por muito tempo não se tratou abertamente do tema por medo do chamado “Efeito Werther” – a ideia de que falar do assunto poderia inspirar ondas de casos por imitação.
 
O nome vem do protagonista do livro Os Sofrimentos do Jovem Werther, de Goethe, publicado em 1774, sobre um rapaz que se mata após um fracasso am oroso e cujo exemplo teria provocado outros suicídios de jovens.
 
Atualmente, diz Bteshe, psicóloga do Programa de Apoio Psicopedagógico ao Estudante da Faculdade de Medicina da UERJ, a diretriz da OMS é abordar o tema sem glamour, sem divulgar métodos e sem apontar o suicídio como solução para os problemas – agindo sem preconceito e oferecendo ajuda a quem precisa.
 
Índices 
 
Criador do Mapa da Violência, o sociólogo Julio Jacobo Waiselfisz destaca que o suicídio também cresce no conjunto da população brasileira. A taxa aumentou 60% desde 1980.
 
Em números absolutos, foram 2.898 suicídios de jovens de 15 a 29 anos em 2014, um dado que costuma desaparecer diante da estatística dos homicídios na mesma faixa etária, cerca de 30 mil.
 
“É como se os suicídios se tornassem invisíveis, por serem um tabu sobre o qual mantemos silêncio. Os homicídios são uma epidemia. Mas os suicídios também merecem atenção porque alertam para um sofrimento imenso, que faz o jovem tirar a própria vida”, alerta Waiselfisz, coordenador da Área de Estudos da Violência da Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso).
 
O sociólogo aponta Estados do Centro-Oeste e Norte em que a taxa de suicídio de jovens é maior, num fenômeno que os especialistas costumam associar aos suicídios entre indígenas: Mato Grosso do Sul (13,6) e Amazonas (11,9).
 
Na faixa etária de 15 a 29 anos, a taxa de suicídio tem se mantido sempre um pouco acima da verificada na população brasileira como um todo, segundo a publicação “Os Jovens do Brasil”, lançada por Waiselfisz em 2014, com um capítulo sobre o tema.
 
Segundo a publicação, o Brasil ainda apresenta taxas de suicídio relativamente baixas na comparação internacional feita com base em dados compilados pela ONU.
 
Em países como Coreia do Sul e Lituânia, a taxa no conjunto da população supera 30 por 100 mil habitantes; entre jovens, supera 25 por 100 mil habitantes na Rússia, na Bielorússia e no Cazaquistão.
 
Em números absolutos, porém, o Brasil de dimensões continentais ganha visibilidade nos relatórios: é o oitavo país com maior número de suicídios no mundo, segundo ranking divulgado pela OMS (Organização Mundial da Saúde) em 2014. (Fonte – BBC)
 
O uso de drogas na adolescência e os transtornos mentais
 
A adolescência é um período de intensas atividades e transformações na vida mental do indivíduo, o que, por si só, leva a diversas manifestações de comportamento que podem ser interpretadas por leigos como sendo doença. Assim sendo, muitas das manifestações ditas normais da adolescência podem se confundir com doenças mentais ou comportamentos inadequados.
 
Exemplo disso é o uso de drogas, que pode constituir-se em um caso de dependência, mas também pode constituir-se em um simples comportamento de experimentação da vida. Temos de ter o cuidado inicialmente de avaliar bem o comportamento de um adolescente, antes de se garantir a existência ou não de um transtorno mental. Para tanto é necessário se conhecer um pouco acerca do que chamamos de “adolescência normal”.
 
Por que as drogas desencadeiam transtornos mentais?
 
Hoje ainda, até o fim do dia, 1 milhão de brasileiros terão fumado maconha. A maioria dessas pessoas está plenamente convencida de que a droga não faz mal. Elas conseguem trabalhar, estudar, namorar, dirigir, ler um livro, cuidar dos filhos.
 
Fumar na adolescência, então, é um hábito que pode ter consequências funestas para o resto da vida da pessoa. Aqueles cartazes das marchas que afirmam que “maconha faz menos mal do que álcool e cigarro” são fruto de percepções disseminadas por usuários, e não o resultado de pesquisas científicas incontrastáveis.
 
Maconha não faz menos mal do que álcool ou cigarro. Cada um desses vícios agride o organismo a sua maneira, mas, ao contrário do que ocorre com a maconha, ninguém sai em passeata defendendo o alcoolismo ou o tabagismo.
 
Apenas 10% dos pacientes internados em clínicas de recuperação de dependentes foram parar ali para tentar se livrar do vício da maconha. Ainda assim, muitos dos usuários da droga nessas clínicas foram diagnosticados com esquizofrenia, bipolaridade, depressão aguda ou ansiedade – sendo o vício de maconha apenas um componente do quadro psicótico e não seu determinante. Risco mais alto de desenvolver esquizofrenia ou depressão
 
Com 224 milhões de usuários em todo o mundo, a maconha é a droga ilícita universalmente mais popular. E seu uso vem crescendo – em 2007, a turma do cigarro de seda tinha metade desse tamanho. Cerca de 60% são adolescentes. Quanto mais precoce for o consumo, maior é o risco de comprometimento cerebral.
 
Dos 12 aos 23 anos, o cérebro está em pleno desenvolvimento. Em um processo conhecido como poda neural, o organismo faz uma triagem das conexões que devem ser eliminadas e das que devem ser mantidas para o resto da vida. A ação da maconha nessa fase de reformulação cerebral é caótica. Sinapses que deveriam se fortalecer tornam-se débeis. As que deveriam desaparecer ganham força.
 
Os efeitos psicoativos da maconha são conhecidos desde o ano 2000 antes de Cristo. Seu princípio psicoativo mais atuante é o tetraidrocanabinol (THC). Um outro componente da droga, o canabidiol, é o principal responsável pelos seus efeitos potencialmente terapêuticos. Dos aproximadamente 400 elementos químicos na maconha, o delta-9-tetrahidrocanabinol, conhecido com THC, é responsável por muitos dos efeitos psicotrópicos (alteração da função cerebral) da droga.
 
Quando a maconha é fumada, THC passa rapidamente dos pulmões para dentro da corrente sanguínea, onde é transportado para os órgãos do corpo, incluindo cérebro.
 
Quando entra no cérebro, THC liga-se a células, ou neurônios, com tipos específicos de receptores chamados receptores canabinóides. Essas células são parte de uma rede de comunicação no cérebro, chamada sistema endocanabinóide, que é importante para seu desenvolvimento e funcionamento.
 
A maioria dos receptores canabinóides é encontrada em partes do cérebro que influenciam o prazer, memória, raciocínio, concentração, percepção sensorial e temporal, e coordenação de movimentos. A maconha interfere no sistema endocanabinóide. Um dos efeitos é a liberação de dopamina no cérebro, o que cria uma sensação de prazer, ou “barato”. Outros efeitos incluem alterações na percepção e humor, perda de coordenação, dificuldade de raciocínio e solução de problemas, e problemas com memória e aprendizado.
 
Certas partes do cérebro têm muitos receptores canabinóides. Essas áreas são o hipocampo, cerebelo, gânglia basal e córtex cerebral. As funções que essas áreas do cérebro controlam são as mais afetadas pela maconha.
 
Quais as drogas que mais desencadeiam a esquizofrenia?
 
O uso indiscriminado de qualquer tipo de droga na adolescência pode desencadear transtornos mentais em indivíduos geneticamente predispostos. Mas o uso indiscriminado da maconha na adolescência por indivíduos geneticamente predispostos é a maior causa do desencadeamento da esquizofrenia.
 
A ligação entre maconha e esquizofrenia foi observada pela primeira vez no início de 1970; desde então, tem havido uma quantidade considerável de interesse nesta área, levando à mudança de classificação da maconha da classe de drogas C para B em 2009.
 
Um dos primeiros e maiores estudos (mais de 15 anos) sobre os efeitos da maconha e desenvolvimento de esquizofrenia foi o estudo sueco que descobriu que entre 45.570 homens que foram recrutados no exército, os usuários mais frequentes de maconha tinham 06 vezes mais risco de ter esquizofrenia do que os não usuários! Aqueles que só usaram maconha uma vez tiveram um risco 2,4 vezes maior que os não usuários. Reavaliação mais recentemente (2012) encontrou um risco três vezes maior para a esquizofrenia em pessoas usando maconha com mais frequência. Estes estudos reforçaram os resultados da associação entre o uso de Maconha e transtornos psicóticos.
 
Estudos na Nova Zelândia, examinando o estado de saúde mental de 1.037 indivíduos, concluíram que o risco específico para desenvolver esquizofrenia era para uso de maconha, e não de outros fármacos. Os sintomas de psicose anteriores ao uso de maconha foram controlados demonstrando que o uso da maconha não é secundário a sintomas pré-existentes e que usuários de maconha são mais propensos a apresentar sintomas psicóticos do que os não usuários. Isto reforça a relação entre o aumento dos quadros psicóticos/esquizofrênicos e uso de maconha; que parece ser um fator de risco à psicose.
 
Especialistas da Harvard Medical School e da Northwestern University, de Chicago (EUA), analisaram a ressonância magnética de 20 usuários de maconha, com idade entre 18 e 25 anos. Eles compararam as imagens às de cérebros de pessoas que nunca fizeram uso da droga.
 
Prevenção ao suicídio
 
Segundo a Organização Mundial de Saúde, a tendência é de crescimento dessas mortes entre os jovens, especialmente nos países em desenvolvimento. Nos últimos vinte anos, o suicídio cresceu 30% entre os brasileiros com idades de 15 a 29 anos, tornando-se a terceira principal causa de morte de pessoas em plena vida produtiva no País (acidentes e homicídios precedem). No mundo, cerca de um milhão de pessoas morrem anualmente por essa causa. A OMS estima que haverá 1,5 milhão de vidas perdidas por suicídio em 2020, representando 2,4% de todas as mortes.
 
Em muitos países, programas de prevenção do suicídio passaram a fazer parte das políticas de saúde pública. Na Inglaterra, o número de mortes por suicídio está caindo em consequência um amplo programa de tratamento de depressão. Ações semelhantes protegem vidas nos Estados Unidos. Um dos focos desses programas é diagnosticar precocemente doenças mentais. De acordo com uma recente revisão de 31 artigos científicos sobre suicídio, mais de 90% das pessoas que se mataram tinham algum transtorno mental como depressão, esquizofrenia, transtorno bipolar e dependência de álcool ou outras drogas.
 
No Brasil, porém, persiste a falta de políticas públicas para prevenção do suicídio, com o agravo da passagem do tempo e do aumento populacional. Em 2006, o governo formou um grupo de estudos para traçar as diretrizes de um plano nacional de prevenção do suicídio, prometido para este ano. O que temos até então é um manual destinado a profissionais da saúde. O nome do documento é Prevenção do Suicídio – Manual dirigido a profissionais das equipes de saúde mental.
 
Reduzir o suicídio é um desafio coletivo que precisa ser colocado em debate. “Nossa resposta não pode ser o silêncio. Nossas chances de chegar às pessoas que precisam de ajuda dependem da visibilidade”, disse-me o psiquiatra Humberto Corrêa para um artigo sobre suicídio publicado pela corajosa revista Planeta (Suicídio aumenta no Brasil, mas isso poderia ser evitado, edição 421, Outubro de 2007). “Uma das nossas tarefas é convencer donas de casa, pais, educadores, jornalistas, publicitários, líderes comunitários e formadores de opinião de que o debate sobre o suicídio não é uma questão moral ou religiosa, mas um assunto de saúde pública e que pode ser prevenido. Aceitar essa ideia é o primeiro passo para poupar milhares de vidas”, alertava o especialista.
 


Postado em 06/09/2017


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