Por que limitar o tempo de tela das crianças?
O tempo de exposição às telas é determinante na infância.
Descubra como encontrar equilíbrio no mundo virtual
 
Por Fernanda Montano com colaboração de Malu Echeverria
 
Imagine a cena: pilha de roupas para lavar, almoço para preparar ou aquele dia de fazer home office em que aparecem inúmeras demandas urgentes no trabalho. Você já tentou distrair seu filho pequeno com livros, papel e lápis de cor, mas ele começou a riscar as paredes. Deu potes plásticos e colheres de pau para ele se entreter, e não durou muito tempo. No desespero de resolver suas tarefas no prazo, liga a TV em um canal de desenhos ou dá o tablet na mão dele. E aí, como num passe de mágica, consegue pelo menos 30 minutos sem ouvir “manhê!”.
 
Mesmo que, instantaneamente, você se lembre da recomendação do pediatra ou daquela notícia que leu sobre os malefícios do exagero das telas para o desenvolvimento infantil, está tudo bem. Eu, você, o vizinho e até aquela sua amiga mãe-superparticipativa-companheira-que-propõe-as-melhores-brincadeiras, em algum momento, já usamos a TV, o tablet ou o smartphone como recurso para ocupar o filho, seja no restaurante, seja na fila do supermercado. E se você conhecer um diferentão que jura nunca ter cometido esse “crime”, não tem por que se sentir menos pai ou menos mãe. “As crianças vivem no mesmo mundo em que nós vivemos, aquele em que os adultos checam seus celulares mais de 50 vezes ao dia. As telas fazem parte da vida delas. Se fingirmos que não fazem ou formos tomados pelo medo, elas nunca aprenderão como e por que usá-las. E se começarmos a considerar as consequências positivas que essa tecnologia oferece à vida de nossas crianças?”, questiona a norte-americana Sara DeWitt, vice-presidente do PBS Kids, canal de TV norte-americano voltado ao público infantil, em uma palestra do TED Talks realizada no ano passado, que já tem 1,2 milhão de visualizações. A psicóloga Andréa Jotta, do Laboratório de Estudos de Psicologia e Tecnologias da Informação e Comunicação da PUC-SP, concorda. “Não discutimos mais a dicotomia bem e mal quando o assunto é tecnologia. O acesso é cada vez mais inevitável, o que nos faz apontar para outra direção: como usá-la de maneira saudável”, diz. Ok, faz sentido, estamos no século 21. Mas, então, por que ainda se fala tanto de como as telas fazem mal ao desenvolvimento das crianças?
 
O lado negro da força
Para começar, porque os pequenos estão cada vez mais conectados. Segundo documento divulgado no fim de 2017 pelo Unicef, o “Situação Mundial da Infância 2017: Crianças e Adolescentes em um Mundo Digital”, 1 em cada 3 usuários de internet no mundo é uma criança. E, no cenário ideal, não haveria mal nisso, afinal, tamanha modernidade traz diversos pontos positivos: há aplicativos que ajudam no desenvolvimento do raciocínio, da lógica, da leitura, das artes; a internet democratiza o acesso à informação e à cultura; e ainda pode, por exemplo, conectar crianças de regiões diferentes. Os pais também ganham, claro. Da babá eletrônica ao GPS, passando por apps para amamentar e monitorar vacinas, a tecnologia facilitou, e muito, a nossa rotina.
 
Porém, sem equilíbrio (como tudo na vida), a lista de prejuízos já comprovados cientificamente aos pequenos talvez seja maior: de obesidade e sedentarismo a problemas de sono e agressividade. Isso sem falar da linha tênue que divide o cuidado dos pais e a superproteção – tema, aliás, de um episódio da última temporada da série Black Mirror.
 
A jornalista norte-americana Naomi Riley, mãe de três crianças, resolveu se aprofundar no assunto. O resultado foi o recém-lançado Be the Parent, Please. Stop Banning Seesaws and Start Banning Snapchat (Seja o Pai, Por Favor. Pare de Banir Gangorras e Comece a Banir o Snapchat, em tradução livre, ainda sem previsão de lançamento no Brasil). No livro, ela alerta sobre a importância de limitar o uso da tecnologia desde cedo – sempre explicando aos jovens as razões. “Temos de formar nas crianças os hábitos que permitirão a elas, quando adultas, saber quando guardar seus telefones. Se não entenderem isso cedo, difícil imaginar como saberão no futuro”, diz.
 
Inúmeros estudos comprovam que a preocupação de Riley tem razão de ser. Uma pesquisa recente do King’s College (Londres), feita com mais de 125 mil crianças e adolescentes entre 6 e 19 anos, mostrou que o uso do celular à noite piora a qualidade do sono, causa obesidade e até depressão. A luz das telas diminui a produção de melatonina, hormônio que faz a gente ter vontade de dormir. Portanto, esse é um daqueles momentos em que você precisa criar regras: nada de telas (no mínimo uma hora) antes de deitar. De preferência, não coloque uma TV no quarto do seu filho e jamais permita que ele leve seus gadgets para a cama.
 
Outro fato que mostra a urgência de sabermos equilibrar a tecnologia é o aumento do número de casos de miopia nas últimas décadas em todo o mundo – no leste asiático, cerca de 90% dos adolescentes de 18 anos são míopes. Especialistas atribuem o problema à falta de exposição à luz natural, especialmente porque as crianças de hoje brincam pouco ao ar livre – o que também influencia diretamente o sedentarismo e a obesidade infantil. 
 
Muitas vezes, sem darmos conta, permitimos que nossos filhos passem horas seguidas em frente às telas. A advogada e pedagoga Melissa Michelotto, 39, tem tido dificuldades nesse sentido. O filho mais velho, Vincenzo, 10, já apresenta sinais de que a saúde foi prejudicada. “Viciado” nas telas, ele troca qualquer atividade por isso, a ponto de querer voltar do sítio antes do fim das férias por falta de internet. Tanto tempo de exposição já provocou ardência nos olhos, má postura e dores de cabeça. “Ele não associa que seja por causa do tempo que passa nas telas, mas sempre reforço que é. Mesmo assim, é difícil proibir”, desabafa a mãe.
 
De olho no relógio
Não tem outro jeito: restringir o tempo que o pequeno “gasta” nos gadgets continua sendo uma das principais recomendações. A diferença é que, além de TV, agora tem computador, celular, tablet, videogame…
 
Em meio à rotina de escola, banho, alimentação e sono, precisa sobrar espaço também para outras atividades, como brincar (dentro e fora de casa) e conviver com a família em outras situações. Por isso, a Academia Americana de Pediatria (AAP) indica somente 1 hora de tela dos 18 meses aos 5 anos, período que deve ser fracionado ao longo do dia e com conteúdo pedagogicamente responsável (isso é, de acordo com idade, maturidade, nível de compreensão e que traga benefícios para desenvolver a inteligência emocional). A partir dos 6 anos, cabe aos pais estabelecer esse limite – o tempo usado para atividades escolares no computador, no caso de crianças mais velhas ou adolescentes, fica de fora dessa conta. As recomendações, que são seguidas também pelos pediatras daqui, foram atualizadas há dois anos com uma ressalva às diretrizes anteriores, de 1998: a tecnologia traz, sim, benefícios às crianças desde que o uso seja feito com o acompanhamento da família, sem jamais se esquecer de proporcionar momentos sem tela e atividades que estimulem o movimento.
 
E mesmo que seu bebê já consiga destravar o celular, ele não foi incluído na classificação da APP. O neuropediatra Antonio Carlos de Farias, do Hospital Pequeno Príncipe (PR), explica o porquê. “Até os 2 anos, a criança está no período sensorial, no qual estímulos como ouvir, cheirar e tocar fazem os neurônios crescerem e se conectarem. Claro que a tecnologia estimula a visão, mas não incentiva a comunicação não verbal.”
 
Nessa fase, ela aprende principalmente com a interação com o outro. E quando se expressa de alguma forma, seja chorando, seja balbuciando, ela espera que haja uma comunicação de volta do adulto, como uma conversa. “Isso faz com que a criança se sinta acolhida, entendida e segura, e, assim, se esforce ainda mais para ser compreendida. Com as telas não há esse ‘bate e volta’”, completa a jornalista Patrícia Camargo, pesquisadora de educação e autora do site Tempojunto. Todos esses pontos foram comprovados por diversas pesquisas, como a realizada no ano passado pela Universidade de Toronto (Canadá): quanto maior o tempo de tela, maior a probabilidade de o bebê apresentar atrasos no desenvolvimento da fala – 30 minutos de exposição diária já aumenta o risco em 50%.
 
Sabemos, claro, que na vida real é praticamente impossível atingir a meta de zero telas – mesmo no caso dos mais novos. Ou você vai proibir os avós que moram em outra cidade de conversar com o neto via Skype? Nesse caso, vale a pena limitar o uso a 15 minutos ou a meia hora, e, de preferência, que não seja diário. Isso significa fazer um esforço para não recorrer aos gadgets toda vez que precisar de um descanso ou quiser distrair a criança. Até porque alguns minutos em frente à TV ou ao canal do YouTube preferido facilmente viram horas – e podem, ainda, piorar a (já curta) paciência do seu filho.
 
Uma dica que funciona bem com os bebês e também com os maiores é propor outras atividades primeiro, assim a tela serve como último recurso. Você vai se surpreender ao descobrir que brincadeiras simples, como descolar uma teia de fita-crepe do cadeirão, podem fazer tanto sucesso quanto um app de desenho. Na casa da empresária Elicéia Dalprá, 37, mãe de Gael, 5, e Maê, 1, sempre dá certo. “Gosto de estimular brincadeiras que usem a imaginação, nem que seja com carrinhos, por exemplo. Uma delas é a do Elefantinho Colorido [as crianças têm de encontrar um objeto com a cor escolhida pelo adulto]. Ter um tempo assim, sem telas, é a minha condição quando eles querem algum jogo eletrônico. E, muitas vezes, ficam tão entretidos que até esquecem dos gadgets”, conta.
 
Fonte: Revista Crescer - atualizada em 12/04/2018 


Postado em 16/04/2018


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