Pais, desliguem o celular e brinquem!
Hoje as crianças precisam competir a atenção dos seus pais com as redes sociais
e com as mensagens instantâneas que não param de chegar
 
Juliana Ribeiro  
 
Confira a entrevista com a terapeuta ocupacional, empreendedora e mãe Fernanda Monteiro, que tem uma longa experiência com crianças no desenvolvimento neuropsicomotor na primeira infância. Desenvolveu o método BRINC e publicou o livro Super Gênios: cinco pilares da estimulação infantil capazes de gerar pessoas extraordinárias.
 
Revista Bem-Estar: Por que o título Super Gênios? O que você quer dizer para o sociedade e todos os pais com ele?
Fernanda Monteiro: O título foi uma provocação. Queremos mostrar que o super gênio não é a criança melhor ou que se destaca das outras crianças. É a criança que consegue, devido ao ambiente acolhedor, afetivo e com qualidade de estímulos, se desenvolver adequadamente com respeito aos seus próprios limites. Todos os bebês e crianças têm suas potencialidades. Algumas desenvolvem mais cedo, outras um pouco mais tarde. Tem crianças que tem mais facilidade em algumas áreas que outras. Hoje o que vemos é uma corrida para que as crianças sejam as melhores, e muitas vezes o ritmo e as habilidades que a criança apresenta não são respeitadas. Porque a exigência social, de ter que ser sempre o melhor, atropela as características de cada uma.
 
Revista Bem-Estar: Quais são os 5 pilares do desenvolvimento infantil? Você poderia falar um pouquinho de cada um deles?
Fernanda Monteiro: Os pilares para o desenvolvimento infantil saudável, descrevi como o método BRINC. O primeiro é o Brincar. É a maneira como a criança conhece e aprende sobre mundo, as outras pessoas e a si mesma. É a maneira dela conhecer as coisas, as reações de suas ações, os seus movimentos, os seus sentimentos e o do outro. É como tudo ao seu redor funciona. O segundo é a Relação, a ligação afetiva, na qual abordamos a importância do vínculo afetivo entre a criança e seus pais, ou um adulto que seja uma referência de carinho para a criança. É por meio dessa relação carinhosa que o bebê e a criança irá desenvolver suas habilidades sócioemocionais, criar confiança e fortalecer autoestima, e o sentimento de segurança, que o incentivará a conhecer e desbravar o mundo. A Interação é a ação recíproca entre pais e filhos.
 
É a realização de atividades na companhia do outro, com afeto, respeito e atenção. A interação fortalece a relação, e traz uma grande aproximação e confiança entre pais e filhos. O neurodesenvolvimento é como a estrutura cerebral se desenvolve na primeira infância. Demonstra como ocorre a aquisição de habilidades do bebê e da criança pelo resultado da combinação de fatores genéticos/fisiológicos e principalmente das experiências proporcionadas pelo ambiente e por último a Conduta, que faz parte do processo de estimulação, auxiliando na construção da saúde emocional, composta por: limite e regras, rotina diária e sobre a importância de incentivar a independência e autonomia da criança.
 
Revista Bem-Estar: Na era digital e os pais cada vez mais sem tempo, como fica o desenvolvimento das crianças?
Fernanda Monteiro: Hoje todo mundo corre, todo mundo tem pressa, mas acredito que o importante não é a quantidade, mas a qualidade do tempo que os pais têm com seus filhos. Todos precisam trabalhar para dar o melhor aos seus filhos, e acabam deixando de oferecer o que realmente importa: o olhar e a atenção. O amor existe nas famílias, mas muitas vezes não se tem tempo de demonstrar, ou demonstra-se apenas com presentes.
 
Revista Bem-Estar: As crianças nascem tecnológicas ou são os pais que causam danos ao “distrair” seus filhos com tecnologia?
Fernanda Monteiro: A tecnologia tem nos proporcionado avanços em praticamente todas as áreas da nossa vida. Nos traz informações valiosas e importantes, mas os pais precisam estar atentos nas mudanças comportamentais e o novo estilo de vida que seus filhos têm sido criados. Tablet e celular estão sendo oferecidos cada vez mais cedo para as crianças. Bebes de poucos meses passam o dia assistindo filmes e músicas educativos. É assustador, se observarmos o número de crianças com o celular na mão nos restaurantes. Uma pesquisa da AVG Technologies, diz que 57% das crianças de até cinco anos sabem usar aplicativos em smartphones, mas somente 14% sabem amarrar os sapatos. Acredito que seja hora de revermos o papel da tecnologia na vida de nossos filhos.
 
Revista Bem-Estar: Quando o assunto é educação infantil, qual os aspectos mais preocupantes no momento?
Fernanda Monteiro: Quando falamos em educação infantil, precisamos entender que a educação começa em casa. Respeito ao próximo, às regras, para que seja estendido às outras esferas da sociedade. Que para a criança pintar, desenhar, aprender as cores, as formas, as letras, ela precisa ter esse incentivo em casa desde seu nascimento, com brincadeiras e exploração. E que ela só irá aprender a falar se seus pais conversarem com ela. O ponto importante a ser revisto é a ocupação do tempo por atividades 100% dirigidas e estruturadas tanto na escola quanto em casa. O que traz conhecimento e aprendizagem para a criança, não é a quantidade de informações, e sim a qualidade das experiências que ela vivencia.
 
Por isso, a criança precisa ter seu tempo, para brincar e explorar, descobrir o que fazer, inventar e criar atividades. Errar, tentar de novo. A estimulação não é e não deve ter um roteiro para que seja eficiente. Essa falsa ideia de que quanto mais a criança está ocupada ou é direcionada por um adulto especialista mais ela aprender, precisa ser revista. Forçar uma habilidade antes da anterior não funciona. Precisamos retomar a liberdade da criança para experimentar, para inventar e se divertir como ela quiser. Respeitar seu tempo e suas características. E entender que é isso que fará a criança se desenvolver, aprender e adquirir suas capacidades.
 


Postado em 17/05/2018


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