Prevenção ao Suicídio: Como reconhecer os sintomas
Pais precisam ser pais, e não amigos. São os pais que decidem que os filhos têm que fazer terapia
 
por Fernanda Lee, Maria Alice Fontes 
 
Abracem os seus filhos. Conversem com eles. O suicídio é a segunda maior causa de mortes na adolescência, segundo a Organização Mundial da Saúde (1). Abraçar e oferecer esperança por meio de ações positivas pode fazer a diferença entre a vida e a morte. É a desesperança que leva as pessoas a tirarem suas vidas. Muitas vezes os jovens estão passando por dificuldades e em vez de compartilhar a carga pesada, eles ficam em silêncio. E o silêncio mata.
 
Há muitos aspectos que podem levar alguém a perder a esperança e ver o suicídio como uma alternativa viável para o fim do sofrimento profundo. Muitos jovens podem apresentar sintomas de depressão, de distúrbio de ansiedade, transtorno afetivo bipolar e transtornos de personalidade. Estes são sinais de que o cérebro não está funcionando como deveria.
 
A depressão é uma das doenças mentais mais tratáveis. Quando os sintomas são identificados e o tratamento é desenvolvido, os jovens podem atravessar a crise. Quando os jovens canalizam os pensamentos em vez de ruminá-los, eles se sentem ouvidos, seguros, cuidados, confortados e esperançosos. Por isso, é que precisamos nos conectar e conversar. O silêncio mata.
 
Pais, cuidadores e educadores precisam estar atentos aos sinais para estarem prontos para questionar e ajudar os jovens. O suicídio pode ser prevenido. Primeiro vamos entender os mitos e fatos sobre o assunto:
 
Mito: Somente especialistas podem prevenir o suicídio.
Fato: Prevenção ao suicídio envolve todos nós, e qualquer um pode ajudar na prevenção de uma tragédia.
 
Mito: Pessoas mantém segredo sobre as intenções e planos suicidas para si mesmas.
Fato: A maioria das pessoas que planejam cometer o ato contra a vida, comunica a sua intenção de alguma maneira durante a semana que precede o evento. As pessoas comunicam de maneiras diferentes. Uma enfermeira testemunhou que viu o marido beijando cada pessoa da família no porta-retrato, mas ela não disse nada por que não passava estava ciente dos sinais. Fique atento as mensagens de texto que soam como despedidas: “Lembre-se sempre que eu te amo. Não se esqueça daquela viagem que fizemos juntos.”
 
Mito: Aqueles que falam sobre se suicidar não cometem o ato.
Fato: Aqueles que falam sobre o assunto podem tentar ou até chegar a completar um ato de autodestruição.
 
Mito: Uma vez que alguém decide se suicidar, não há nada que possa ser feito para impedi-los.
Fato: O suicídio pode ser prevenido e qualquer ação positiva pode salvar uma vida. Quando o cérebro está muito doente, a pessoa pode esconder informações dos outros. Fique atento para outros sinais, como não comparecer às consultas médicas ou não tomar o remédio.
 
Mito: Quando um jovem fala para um amigo que pretende se matar, o amigo irá buscar ajuda.
Fato: A maioria dos jovens não conta para um adulto.
 
Ao contrário do que pensamos, não é apenas um fator que causa alguém cometer o suicídio, mas sim o acúmulo de eventos que aumenta e reforça a percepção pessoal de desesperança. Vamos considerar a analogia de um copo com água: O copo representa a capacidade de lidar com os problemas e a água representa os fatores contribuintes predisponentes e precipitantes, que durante a vida vão enchendo o copo.
 
Na tabela abaixo, os fatores predisponentes podem ser: biológico, pessoal/psicológico e ambiental. O fator biológico tem influência no copo da vida. Por exemplo, homens são 3 vezes mais predispostos a tirarem suas vidas do que o sexo feminino. O fator pessoal tem contribuído na manutenção da vida. Por exemplo, abusos na infância podem deixar cicatrizes doloridas, e o choque cultural pode influenciar um expatriado que se muda para um novo país. O fator ambiental também tem muita influência na manutenção da vida. Há estudos que mostram que suicídios aumentam no fim do ano para alguns, enquanto que para outros a primavera pode ser um fator de maior risco. Além disso, a falta da luz do sol pode eventualmente desencadear a depressão sazonal, tão presente em países dos extremos hemisférios.
 
Ao longo do tempo o copo vai se enchendo à medida que cada indivíduo percebe e atribui um significado para as suas experiências. Quando as pessoas não estão apropriadamente adaptadas ou equipadas, e reforçam suas convicções que são incapazes de resolver o problema, elas começam a recuar frente às dificuldades.
 
Segundo Alfred Adler, “a expressão mais absoluta de um recuo diante das dificuldades é o suicídio”. O nosso copo interno tem efeitos cumulativos, e ao longo do tempo vai se enchendo com experiências decepcionantes, como por exemplo, de não estar indo bem na escola, tirar zero num teste, não ser contratado para o cargo que queria, nascer um filho com deficiências, perda de um ente querido, divórcio, falência da empresa, etc. A verdade é que a experiência humana é cheia de desilusões e desapontamentos. Mas para algumas pessoas que estão com o copo quase cheio, elas não conseguem lidar com mais uma coisa. É a gota d’água que faz o copo se encher por completo. Não há mais espaço para lidar com dificuldades.
 
Como nossa mente é muito complexa, não sabemos quão cheio o copo dos nossos filhos estão. E também não sabemos o que faz encher o copo deles. Mas o maior problema é que nem estamos cientes disso. Para os adolescentes que ainda não têm o seu cérebro totalmente formado (a formação completa acontece por volta dos 25 anos), o problema que eles enfrentam é muito importante para eles. Como a parte pré-frontal do cérebro não está totalmente desenvolvida (além de ter que lidar com mudanças hormonais e a falta da inibição do impulso) eles podem tomar decisões insensatas. Por isso, não os deixe desacompanhados quando estiverem em crise. Saiba que qualquer coisa que você fizer para estender a mão e mostrar que os entendem pode ajuda-los a superar este momento.
 
Observe se houve mudança no padrão alimentar e de sono, levando em consideração o que é uma mudança significativa para o SEU filho. Quando ele estiver em crise, diga que você estará lá para escutá-lo. Pergunte diretamente se esta fase down que está passando é por causa de algum relacionamento na escola, por causa de notas escolares ou outro motivo (os melhores alunos da classe podem ser afetados profundamente quando recebem uma nota baixa, pois afeta a identidade deles). Seja qual for o motivo, pergunte como o evento afeta ELES.
 
Pais precisam ser pais, e não amigos. São os pais que decidem que os filhos têm que fazer terapia. Se o jovem resistir, seja firme, gentil e aconselhe fazer pelo menos 3 sessões, e diga que ele pode mudar de terapeuta caso ele prefira. Ofereça proteção ao eliminar acesso aos meios que podem causar a morte (não tenha armas em casa, e se tiver, mude o cadeado, esconda a chave). Guarde bebidas alcoólicas e medicamentos de casa. Reduza o stress em casa. Procure ajude imediatamente se ele escrever ou falar diretamente: “Eu queria morrer”, “Vou acabar com tudo”, “Se isso ou aquilo não acontecer, eu vou me matar” ou se o jovem começar a se cortar. Ou se falar indiretamente: “Estou cansado da vida, não consigo mais”, “Minha família seria mais feliz sem mim”, “Quem se importa se eu estiver morto”, “Só quero sumir”, “Não viverei por muito tempo”, “Em breve vocês não vão ter que se preocupar mais comigo”. (Eles realmente acreditam que a família seria muito melhor sem eles, porque eles afetam a dinâmica familiar.)
 
Nos sentimos encorajados quando pelo menos uma pessoa se importa com conosco. O mesmo é com seu filho. Esse papel pode ser preenchido por um dos pais, terapeuta, um professor querido pelo seu filho, e a qualidade deste relacionamento pode fazer toda a diferença em aliviar a água do copo, enquanto eles aprendem novas habilidades para lidar com as adversidades da vida. A nossa percepção se torna a nossa realidade, e com o tempo podemos mudar a percepção do mundo à nossa volta e ter a coragem e ferramentas para enfrentar os problemas. Devido à plasticidade neural, o cérebro é capaz de fazer novas conexões e a mente a dar um novo significado às experiências.
 
Caso você suspeite de algo, pergunte ao seu filho diretamente e em particular. Perguntar não significa que você está sugerindo que ele cometa o ato. Se ele relutar em responder, persista. Deixe-o falar livremente. Escolha um momento do dia quando não estão com pressa e você está disposto a estar presente plenamente (olho no olho e com uma postura receptiva). Para começar pergunte:
 
- “Você tem se sentindo infeliz ultimamente?”
- “Você tem se sentindo muito infeliz ultimamente?”
- “Você tem se sentindo tão infeliz ultimamente que esteve pensando em acabar com a sua vida?”
- “Você tem desejado ir dormir e nunca mais acordar?”
 
Numa abordagem mais direta, se aproxime do jovem e pergunte (se você não está num estado emocional para fazer estas perguntas, procure alguém que você confia e que pode perguntar).
 
- “Sabia que quando as pessoas estão tão tristes, assim como você parece estar, às vezes, elas desejam estar mortas? Eu gostaria de saber se você se sente assim também.”
- “Você parece extremamente infeliz. Me pergunto se você está pensando em suicídio?”
- “Você está pensando em se matar?”
 
Como reagir às respostas dos jovens:
  • Escute os problemas deles e dê atenção total. Deixe-os falarem sobre suas dores emocionais e os encoraje a dizer mais: “Tem mais alguma coisa?”, “Me conte mais.”
  • Lembre-se que o suicídio é uma solução permanente para um problema temporário e que você não vê, e que seu filho acredita que não pode ser resolvido.
  • Ofereça esperança de alguma forma.
  • Preste atenção no que você está sentindo e reaja de forma reflexiva (em vez de reativa) e diga algo como: “Estou aqui para você. Vamos superar isso juntos.” “Você viria comigo buscar ajuda?” “Você pode me prometer não se matar até que encontremos ajuda?” - Reforce: “Eu quero você vivo”, “Não há nada que você faça que seja um incomodo para mim.”
  • Lembre-se que a sua disposição, vontade em escutar e ajudar podem resgatar a esperança e fazer toda a diferença. O silêncio mata. A conversa ajuda a entender se algo está fora do normal, a abordar a situação de forma gentil e respeitosa, a se manter ao lado dele e a buscar ajuda. Você terá que se envolver e levar o jovem diretamente a um profissional que possa ajudar. 
  • O Centro de Valorização da Vida está disponível gratuitamente para dar apoio emocional e prevenir o suicídio por telefone discando 188 ou pelo chat no site: cvv.org.br.
Fontes:
[1] Suicídio de adolescentes: como entender os motivos e lidar com o fato que preocupa pais e educadores. https://g1.globo.com/ciencia-e-saude/noticia/suicidios-de-adolescentes-como-entender-os-motivos-e-lidar-com-o-fato-que-preocupa-pais-e-educadores.ghtml
ADLER, Alfred. What Life Means to You: 2a. ed. Oxford: Oneworld Publications, 1992
Centro de Valorização da Vida. https://www.cvv.org.br/
 


Postado em 09/09/2019


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