Déficit de atenção e hiperatividade: será que seu filho tem?

Saiba, de uma vez por todas, o que é mito e o que é verdade em relação ao TDAH

Por Jeanne Callegari
 
De um lado os especialistas atestam a gravidade da doença e prescrevem medicamentos para as crianças. De outro, jornais e revistas chegam a questionar a existência do distúrbio. Não é à toa que os pais estão confusos. Apesar disso, não há motivo para desespero. O TDAH é um dos mais bem estudados transtornos da psiquiatria: mais de 8 mil pesquisas já foram realizadas sobre o tema. 
 
Mas, afinal, o que é TDAH? Com certeza, você conhece alguém com o perfil: o menino que não pára quieto, a menina avoada, no mundo da lua. Os dois comportamentos são expressões de um transtorno neurobiológico. Crianças com TDAH têm menos atividade elétrica e reagem menos a alguns estímulos, além de terem partes do cérebro menores que o normal. Também têm dificuldade de regular dopamina e norepinefrina, substâncias essenciais para a concentração e o controle de impulsos. 
 
O TDAH é classificado em três subtipos. O predominantemente desatento é aquele que, apesar de ter sintomas de hiperatividade, apresenta mais os de desatenção. É a criança que não consegue se concentrar para copiar a matéria ou fazer a tarefa. Vai mal na prova porque não lê os enunciados direito. Está sempre no mundo da lua e não termina o que começa. Embora seja o tipo mais comum, aparece menos nas clínicas, porque acriança não dá trabalho, mal é notada. Pode passar horas em uma atividade de que goste, como desenhar ou jogar videogame, mas terá dificuldade em áreas menos atraentes. 
 
Já a criança que tem mais sintomas de hiperatividade e impulsividade não pára quieta. Seu comportamento é excessivo. Arrisca-se mais que o normal para a idade, corre e fala sem parar, age sem pensar. Os pais não podem deixar de prestar atenção nela um minuto, porque o risco de se machucar é muito grande. É o tipo mais raro. Já o tipo combinado é uma mistura dos dois. 
 
Todo mundo tem alguns desses sintomas, mas isso não basta para se diagnosticar TDAH. É preciso que ocorram com freqüência bem maior que nas outras pessoas. Além disso, é fundamental que atrapalhem as principais atividades da vida. Alguns indivíduos conseguem tirar notas boas e ir bem na profissão. Mesmo assim, algum dano ocorreu em outra área, como a social e a pessoal. 
 
E isso aparece nas estatísticas da doença. As crianças com TDAH têm de duas a quatro vezes mais chances de sofrer acidentes ou traumas e sete vezes mais chances de envenenamento. Quando adultos, têm três vezes mais chances de morrer jovens. Além disso, são mais suscetíveis a álcool e drogas e têm mais probabilidade de engravidar na adolescência e abandonar a escola mais cedo. 
 
Apesar de ser um distúrbio grave, reconhecido pela Organização Mundial de Saúde, o TDAH ainda causa polêmica. Algumas pessoas defendem que, na verdade, ele não existe. Seria uma invenção da indústria farmacêutica para vender remédios. Para quem estuda o assunto, a verdade é outra. “Ciência não é questão de opinião, e sim de pesquisa”, diz o presidente da ABDA, Paulo Mattos, da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Duvidar que o TDAH existe é o mesmo que duvidar da existência do diabetes ou do câncer. 
 
Se você desconfia que seu filho tem TDAH, o primeiro passo é ver se a criança tem mesmo algum problema. “Existe criança bagunceira e criança com TDAH”, diz Paulo Mattos. São coisas diferentes. E apenas quem tem, de fato, um distúrbio, deve ser medicado. O mais difícil é fazer o chamado diagnóstico diferencial, ou seja, distinguir exatamente o transtorno que acomete aquela criança. Os sintomas de TDAH podem se confundir com os de depressão ou dislexia, por exemplo. 
 
A equação se complica mais quando se pensa nas comorbidades, os transtornos que acompanham o TDAH. “As doenças vêem em conjunto”, diz Russell Barkley, do Departamento de Psiquiatria da Universidade Médica Upstate, de Nova York, nos Estados Unidos. Quem tem uma tem mais chance de ter a outra. No caso do TDAH, 80% dos portadores, em média, apresentam pelo menos uma comorbidade. E 54% apresentam duas. O sucesso do tratamento depende de se diagnosticar todas as doenças existentes. Por exemplo, tratar uma criança com TDAH será diferente de tratar uma que tenha TDAH e transtorno bipolar. 
 
Existe risco de uma criança ser diagnosticada e não ter o distúrbio? Sim. Como a doença não é detectada por exames laboratoriais, e sim pela avaliação clínica, pode haver engano. A chance de isso ocorrer com profissionais que estudam o distúrbio é bem menor que com aqueles que não conhecem bem o assunto. Por isso, é fundamental procurar um bom especialista. Um bom ponto de partida é o site da ABDA, que lista profissionais e traz dados atualizados sobre a doença. 
 
Estudar, ler livros, sites confiáveis, conversar com bons especialistas: tudo isso vai dar segurança aos pais. Ninguém precisa dar remédio para o filho sem questionar. Depois de estudar, os pais podem ficar seguros de estar fazendo o melhor possível.
 
Para toda a vida 
 
Em alguns pacientes, os sintomas diminuem com a idade. De 14% a 35% estarão curados aos 18 anos. Mas a maioria terá o distúrbio por toda a vida. É crônico, como o diabetes. E é preciso tratá-lo todo dia. Na maior parte das vezes, com medicação. Casos muito leves não vão precisar, mas80% vão. Nesses casos, o metilfenidato, composto de remédios como Ritalina e Concerta, é o único disponível no Brasil. Tecnicamente, é um estimulante, mas o efeito é o oposto: aumenta a concentração, diminui a hiperatividade e a impulsividade. Estudo publicado em agosto no Journal of Developmental & Behavioral Pediatrics mostra que o tratamento com estimulantes está associado a melhora nos índices de leitura, decréscimo do absenteísmo e da repetência escolar. 
 
Apesar dos benefícios, a Ritalina é polêmica. Muito,talvez, por causa da rapidez com que a venda do remédio cresceu. Dados de 2006do Instituto Brasileiro dos Usuários de Medicamentos apontavam um aumento de940% na venda desde 2001, de 71 mil caixas para 739 mil. Essa porcentagem impressiona. Porém, é enganadora. Em 2001, menos de 0,5% dos portadores de TDAH eram tratados; o número subiu para 5% em 2006. Ou seja, o ponto de partida era muito baixo, e qualquer aumento seria significativo. Nos Estados Unidos, onde o TDAH é mais conhecido, o número de pacientes tratados chega a 60%. 
 
Como muitos outros medicamentos, a Ritalina pode, sim, causar efeitos colaterais, como inapetência, irritação gástrica e dor de cabeça. Além disso, é contra-indicado para pacientes com arritmias cardíacas,tiques motores, hipertensão e glaucoma. E não deve nunca ser utilizado por quem não tem o distúrbio. 
 
Os pais temem que os filhos fiquem “abobados” ao tomar remédios como esse. Mas o efeito é outro. Ele altera o organismo para que o cérebro funcione melhor. É como um par de óculos: corrige a maneira como a criança enxerga o mundo. 
 
Para tratar os sintomas primários do TDAH, ou seja, hiperatividade, impulsividade e desatenção, a psicoterapia não tem muito efeito. Iane Kestelman, diretora da ABDA, sabe bem disso. Psicóloga de formação, acredita no valor da terapia. Seu filho adolescente freqüentou um psicólogo para curar o problema, sem melhora alguma. Já a medicação resolveu logo. “A terapia pode ajudar nos sintomas secundários, como a baixa auto-estima”, diz ela. Ela colabora na aceitação do distúrbio, mas não irá curá-lo. 
 
Da mesma forma que se altera o ambiente para que um deficiente possa se movimentar com mais facilidade, assim deve ser alterada a rotina do portador de TDAH. Isso vai significar, por exemplo, sentar na primeira carteira na escola e entregar cinco problemas de cada vez, no lugar de 50 ao mesmo tempo. 
 
Quando um filho tem TDAH, os pais sentem muita culpa. “Eles não querem dar remédio para o filho por algo que tenham causado”, diz Mattos. A situação só melhora quando os pais descobrem que a causa não é a criação e sim um problema na química do cérebro, causado, principalmente, por fatores genéticos. “A taxa de herdabilidade genética é de75%, uma das mais altas da psiquiatria”, diz a geneticista Tatiana Roman, da Fundação Faculdade Federal de Ciências Médicas de Porto Alegre. Tanto que, em30% dos casos, é preciso tratar também os pais. O ambiente influencia apenas em torno de 25%. Entre os fatores ambientais associados ao TDAH, o fumo na gravidez é um dos principais, junto com hemorragias cerebrais e álcool. 
 
Para os pais, importa saber: meu filho vai ficar bem? A resposta, felizmente, é sim. “A melhor época para ter uma criança com TDAH é hoje”, diz Barkley. Com a quantidade de pesquisas realizadas sobre o tema, é possível aperfeiçoar os remédios e afinar o tratamento. Espera-se que, em alguns anos, se possam fazer remédios específicos para cada tipo de TDAH, com base nos genes associados a cada um. Ninguém gostaria de ter um filho com o problema, mas se tiver, hoje em dia as técnicas de diagnóstico e tratamento estão entre as mais adiantadas e bem descritas da psiquiatria. Os filhos podem descansar de sua inquietude, e os pais, finalmente, respirar aliviados.
 
Seu filho tem TDAH? 
Todos nós temos alguns desses sintomas, mas é a freqüência com que ocorrem que determina se há ou não um distúrbio. Se, além disso, são observados em mais de um ambiente — por exemplo, casa e escola — talvez seja bom procurar um médico. 
 
Desatenção: Seu filho: 
- Não consegue prestar muita atenção a detalhes ou comete erros por descuido nos trabalhos da escola 
- Tem dificuldade de manter a atenção em tarefas ou atividades de lazer 
- Parece não estar ouvindo quando se fala diretamente com ele 
- Não segue instruções até o fim e não termina deveres de escola, tarefas ou obrigações 
- Tem dificuldade para organizar tarefas e atividades 
- Evita, não gosta ou se envolve contra a vontade em tarefas que exigem esforço mental prolongado 
- Perde coisas necessárias para atividades, como brinquedos, deveres da escola, lápis ou livros 
- Distrai-se com estímulos externos 
- É esquecido em atividades do dia-a-dia 
 
Hiperatividade: Seu filho: 
- Mexe com as mãos ou os pés ou se remexe na cadeira 
- Sai do lugar na sala de aula ou em outras situações em que se espera sentado 
- Corre de um lado para outro ou sobe demais nas coisas em situações em que isso é inapropriado 
- Tem dificuldade em brincar ou envolver-se em atividades de lazer de forma calma 
- Não pára ou, freqüentemente, está a mil por hora 
- Fala em excesso 
- Responde perguntas de forma precipitada, antes de elas terem sido terminadas 
- Tem dificuldade de esperar sua vez 
- Interrompe os outros ou se intromete nas conversas ou jogos dos outros
 


Postado em 28/08/2012


Notre Dame
+ Notícias

atendimento
CENTRAL DE ATENDIMENTO
(13) 3579 1212
Unidade I - Av. Pres. Wilson, 278/288 - Itararé
Unidade II - Rua Pero Corrêa, 526 - Itararé
Unidade III - Cel. Pinto Novaes, 34 - Itararé