Entrevista: Gustavo Cerbasi, consultor financeiro e escritor

Quando o assunto é dinheiro e finanças pessoais, Gustavo Cerbasi está sempre entre os especialistas e autores mais consultados pela mídia e por empresas dos mais diversos ramos de atividade. Gustavo, que foi eleito um dos 100 brasileiros mais influentes em 2009 (levantamento da Revista Época), é autor best seller no segmento de finanças pessoais. Gustavo é Mestre em Administração / Finanças pela FEA/USP, formado em Administração Pública pela Fundação Getúlio Vargas, com especialização em Finanças pela Stern School of Business – New York University e pela Fundação Instituto de Administração (FIA). Leciona em cursos de pós-graduação e MBAs pela FIA e mantém o site Mais Dinheiro, onde publica artigos e material de educação financeira.

 
Gustavo, se observarmos a prática das pessoas bem-sucedidas financeiramente, notamos que não existem muitos segredos em relação ao que deve ser feito em relação ao dinheiro: gastar menos do que ganha, investir parte e endividar-se pouco. Por que poucas pessoas conseguem respeitar estas regras? Onde normalmente estão os problemas das famílias em dificuldades e como corrigi-los?
Gustavo Cerbasi: Sim, o método para enriquecer é simples, assim como é o de se tornar um atleta, coisa que você também conhece bem. Não é difícil, requer pequenos ajustes na rotina e o ganho em bem estar é imenso. Mas, o número de pessoas que decidem fazer uma meia maratona ainda é maior do que o dos que decidem enriquecer. Isso acontece porque houve um grande debate sobre a importância para a saúde dos exercícios regulares, o que levou as pessoas a se conscientizarem. Hoje, é comum que as pessoas percam alguém querido e comentem: “também, nunca cuidou da saúde…”. O problema com o desequilíbrio financeiro das famílias começa na falta de informação, o que já está sendo trabalhado – com sucesso – por especialistas e pela mídia. Há também uma certa amenização do sentimento de culpa quando o desequilíbrio é generalizado. Por que poupar, se todos os meus amigos pagam carnês para realizarem seus sonhos? As pessoas têm dificuldades de sair da zona de conforto, porque sair dela significa nadar contra uma maré muito forte. O que eu espero é que, com essa abrangente educação financeira que observamos hoje, as pessoas comecem a conectar as causas com os efeitos e reajam contra isso. Quando alguém lê uma dica do Dinheirama, talvez ache interessante. Quando vê um idoso sofrendo por não ter seguido aquela dica, tende a agir. É essa transformação que acredito que estamos promovendo na cultura brasileira.
 
Somos um país de herança paternalista e cuja economia previsível, com uma moeda forte e sob controle, tem pouco tempo de vida (menos de 20 anos). Consumir por prazer só passou a fazer parte do “cardápio” de muitos brasileiros há alguns anos. A educação financeira tem uma barreira enorme para fazer a diferença. Como ultrapassá-la? Que papel devem ter governo, empresas e cidadãos?
GC: Não acredito que o movimento de educação financeira do qual eu e você fazemos parte tenha mais força do que a represada vontade de consumir do povo brasileiro. Por mais que o governo e as entidades civis se esforcem em promover a necessária conscientização, creio que a maioria ainda aprenderá com seus próprios erros. Porém, o aprendizado tende a ser rápido e eficaz, pois hoje as pessoas encontram facilmente explicações para suas dificuldades financeiras. Vivemos um processo como o do começo das teorias sobre alimentação saudável, em que sugestões de combinações de alimentos fundamentais geravam manchetes nos jornais. Hoje, o assunto não se transforma em grandes pautas porque a maioria das pessoas sabe o que é bom e o que não é para ser colocado no prato. Nutrição deixou de ser moda e passou a ser prática das famílias. A educação financeira deve seguir um caminho semelhante.
 
Você diria que o planejamento financeiro ainda é um sonho para grande parte da população? Ou ele simplesmente não é levado a sério porque as prioridades estão desajustadas e não há foco na construção de patrimônio e equilíbrio do padrão de vida? Como mudar este quadro?
GC: O planejamento financeiro sequer chega a ser um sonho. As pessoas ainda não reconhecem que construir riqueza é uma questão de escolha, preferem confortavelmente aguardar o futuro apresentar a conta, e então correr atrás dos tradicionais salva-vidas: governo e familiares. Como você bem coloca, as prioridades estão desajustadas. A maioria das pessoas acredita que o que ganham é a referência do que pode ser gasto no mês, e penam estar certas porque esse é o pensamento da maioria. A necessária mudança de cultura somente será viável se a educação financeira realmente atingir escala e capilarização significativas, a ponto de a maioria da população entender o que é certo e o que é errado, mesmo que não pratique esse certo.
 
O que você diria ao jovem que tem a oportunidade de ler sua opinião e pensa em construir um futuro mais rico e feliz. Quais devem ser suas principais atitudes e compromissos?
GC: O jovem precisa entender que, mais do que acreditar no futuro, ele deve mesmo é planejá-lo. Porém, jamais deve acreditar que esse planejamento vai dar certo. Sua crença deve ser a de que ele irá além. Hoje, ele conhece muito menos do que conhecerá daqui a alguns anos. Se tiver um bom projeto, que ele saiba que irá funcionar se colocar em prática, é muito provável que as variáveis desse projeto melhorem com sua experiência e com a aquisição de conhecimento. Por esse mesmo motivo, sugiro que não tenha muita pressa para enriquecer. Caso ele decida se dedicar muito aos investimentos, estará perdendo tempo, pois possui pouco dinheiro para multiplicar. É melhor dedicar-se intensa e produtivamente a sua carreira, fortalecendo sua renda e sua empregabilidade, pois a certeza na carreira significa certeza na renda, e essa se traduz em certeza de que o planejamento funcionará. Na medida que crescer na carreira e nos ganhos, aí sim ele deverá intensificar seus investimentos e seu aprendizado sobre o assunto. Mantendo a disciplina, o foco nos planos e sua energia pessoal/saúde, as chances de que seu projeto se acelere são grandes.
 
Quem quer começar a investir normalmente reclama que tem pouco dinheiro para aplicar e acaba postergando esse importante passo. Gostaria que você abordasse a questão do tempo nos investimentos e desse algumas dicas para quem quer começar.
GC: Como falei, quem tem pouco tempo não deve espremer a agenda buscando entender de investimentos. Deve prefirir investimentos mais estruturados e com gestão profissional, como uma carteira de fundos ou um plano de previdência, ao mesmo tempo em que mergulha na carreira para crescer e adquirir maior independência. Esses não são os melhores investimentos, mas os mais adequados para quem não tem tempo. Quando a pessoa começa a se dedicar de verdade aos investimentos, participando de cursos, lendo livros e blogs, frequentando eventos e compartilhando idéias com amigos, os melhores investimentos e as melhores estratégias aparecem e se tornam acessíveis. Se essa rotina não é viável, o importante é que se poupe e se mantenha informado. O conhecimento se acumula, as boas escolhas também.
 
O investimento em ações também deve fazer parte das alternativas escolhidas pelos nossos investidores? Em que proporção? Você considera os fundos de ações e ETFs (Fundos de Índice) como uma boa escolha para aqueles menos interessados nos detalhes do mercado? Por quê?
GC: Não tenho dúvidas de que todos deveriam investir uma parte de suas reservas em renda variável, não necessariamente ações. Quem trabalha deveria ter em mente que:
- O dinheiro que ganha não é para pagar as contas do mês, mas sim para pagar as contas da vida, por isso uma parte dos ganhos deve ser poupada; 
- É preciso formar uma reserva financeira para emergências, e esse dinheiro jamais deve ser tratado como investimento; deve estar protegido da inflação e com liquidez, por isso fundos de renda fixa ou caderneta de poupança seriam ótimas opções;
Depois de formar uma reserva de emergências contendo pelo menos o valor de três a seis meses da renda familiar, seria oportuno poupar para garantir a aposentadoria. Esse investimento ser composto por um mix entre renda fixa e renda variável, porém predominando em renda fixa para fazer da aposentadoria uma meta previsível e crível;
Recursos poupados para outros objetivos, como a troca da casa ou uma viagem, poderiam ser investidos de maneira mais arrojada.
Com exceção da reserva de emergências, é sensato contar com uma carteira contendo tanto renda fixa quanto renda variável. A renda variável é a oportunidade de ganhos diferenciados no longo prazo, e é importante ter sempre recursos nessa categoria, para que o desconforto da volatilidade nos provoque a estarmos sempre informados. Já a renda fixa, que deve perder desempenho na medida que a saúde da economia brasileira melhore, será não apenas a parcela da carteira com rendimentos seguros, mas principalmente a liquidez necessária no momento em que investidores bem informados identificarem oportunidades de boas compras.
Quanto mais jovem o investidor, maior deve ser sua exposição ao risco, para aproveitar melhor o efeito do longo prazo. Quanto aos ETFs, considero o produto ideal para pessoas conservadoras que queiram começar no mercado de ações e pensam no longo prazo. Índices não quebram, diferentemente das empresas, o que significa a certeza de preservação do patrimônio no longo prazo.
 
Fonte: Dinheirama


Postado em 04/09/2012


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