Você cuida da espiritualidade do seu filho?

Como essa palavra “acontece” na sua casa? Para praticar é preciso pertencer a alguma religião? Decidimos discutir o termo e o tema com pessoas bem diferentes e o resultado é surpreendente: praticar espiritualidade pode ser mais simples do que você imagina

por Cristiane Rogerio e Simone Tinti
 
Reparar que o vaso de flor está cheio de brotinhos novos. Sorrir cada vez que seu filho disser “por favor” ou “obrigado” (principalmente se for para outra pessoa, quem sabe até um desconhecido). Parar para assistir a um pôr do sol em plena segunda-feira. Dar um copo de água com açúcar para um amigo que precisa se acalmar. Preparar um café da tarde bem gostoso, com direito ao bolo preferido do seu filho. Registrar um sorriso de seu bebê numa fotografia para poder grudá-la bem em frente à sua mesa de trabalho. Ouvir o canto do sabiá em meio ao barulho dos carros em um trânsito caótico. Esta pode parecer apenas uma lista simples de possibilidades do cotidiano. Mas, se você está aí suspirando ao imaginar cada uma delas, é porque aqui tem algo especial: exemplos de como a espiritualidade acontece no seu dia a dia, muitas vezes sem você perceber. E espiritualidade não está ligada à religião? Sim, está. Mas não é somente o fato de seguir alguma crença que define se uma pessoa é espiritualizada. É muito mais.
 
Sim, faz sentido 
Quando pedimos ao professor e filósofo Mario Sergio Cortella uma definição de espiritualidade, ele nos surpreendeu. “É tudo aquilo que torna a vida engraçada”, disse. E explica: o termo “engraçado” está associado ao “render graças” e, por isso, espiritualidade é o que enche a vida de graça. Ou seja: pode ser alguém que faz você gargalhar, pode ser a deliciosa sensação de um mergulho no mar. O que fizer você feliz.
 
Padre Claudio Gregianin, vigário da Igreja Coração de Maria, em Higienópolis (SP), tem outra explicação para o termo: uma espécie de “oxigênio da alma”. “Existe uma palavra judaica – ruâh –, vista no Antigo Testamento, que significa ‘vento’, ‘sopro’, e que também é a referência para ‘espírito’, o ‘não material’. E, segundo o conceito de fé judaico-cristã, é esse sopro que movimenta o nosso pensamento, o nosso coração e o nosso comportamento.” Nos últimos dez anos o termo espiritualidade se dissociou da palavra religiosidade, e agora não está mais obrigatoriamente ligado à religião.
 
Praticar espiritualidade é...
 
”Eu sempre alimento os sonhos dos meus filhos. Acredito que permitir que eles encontrem o seu próprio caminho, se descubram, também é uma maneira de exercer a espiritualidade.”
 
Patrícia Otero, coordenadora da ONG 5 elementos e mãe de Luiz Otero Miller, de 11 anos, e Pedro Otero Miller, de 13 anos
 
O que importa 
“Espiritualidade é um sentimento de que a vida não se esgota nem nesse tempo nem nessa materialidade”, diz. Ou seja, a vida não se esgota em você e no seu filho. Não basta apenas vocês estarem bem e felizes. Os vizinhos, os amigos da escola, os animais, as plantas também precisam de atenção, de cuidado.
 
Mas as crianças conseguem ter esse sentimento? “Sim quando os pais revelam um sentimento, um pensamento em atitudes concretas. É quando ela vê ou os pais agradecendo pelo dia, pela refeição, por exemplo, e é incentivada a fazer o mesmo”, afirma padre Claudio. É você saborear algo – uma comida, uma música, um livro, um abraço – e mostrar que está feliz.
 
Por isso que a palavra espiritualidade está ligada mais ao “ser” do que ao “ter”. E aqui não estamos apenas falando de consumismo. Mas também estamos nos referindo ao que não pode ser comprado, ao sentimento bom que só o contato com o outro ser vivo pode nos provocar. É o que comprova que não vivemos inutilmente, que a sua vida, a do seu filho, de seu companheiro e de todos com quem você convive faz sentido.
 
A religião é, na verdade, uma forma de “organizar” a prática da espiritualidade, mas devemos ir além. Se você segue algum tipo de crença ou convive com isso de alguma forma, já descobriu que pouco adianta limitar seus pensamentos e ações a um lugar concreto, seja dentro de uma igreja, uma mesquita ou um centro. Só vale se acontecer no dia a dia, afinal, a espiritualidade existe a partir da conexão com o outro. E é uma representante religiosa quem nos diz: “Não pode estar desvinculado da vida cotidiana, por que se não a espiritualidade não tem uma função prática”, diz a monja Miao Shang, do templo budista Zu Lai, de São Paulo. É uma questão de coerência. Mas, de que importa você não jogar o lixo no chão e usar apenas produtos ecologicamente corretos, se não for capaz de ser gentil com um estranho?
 
Praticar espiritualidade é...
 
”Outro dia a Helô acordou muito cedo porque estava com o nariz entupido. Em vez de esticar esse mal-estar, aproveitei para levá-la ver o nascer do sol da minha lavanderia. Quantas cores, quanto frescor... E assim, o que poderia ter sido uma manhã convencional passou a ser espiritualizada com esse toquezinho poético.”
 
Tatiana Bonumá, jornalista, mãe da Heloísa Bonumá Valsi, de 4 anos
 
2 perguntas para a mestra Miao Shang, do templo budista Zu Lai 
 
O que é espiritualidade?
Não é algo externo a nós, misterioso ou esotérico. É o mundo prático. A espiritualidade não pode estar desvinculada da vida cotidiana. Se fosse algo que você precisasse apenas entrar em um templo para encontrar, ela se desvincularia do ser íntegro que uma pessoa deve ser. Por que o ser humano não é apenas matéria, mas também mente e espírito. E essas três coisas devem andar juntas.
 
De que maneira as famílias podem praticar essa espiritualidade? E como ensinar às crianças?
Tenha e pratique boas palavras, boas atitudes e bons pensamentos. Ou seja, dê o exemplo. Ensine que não podemos maltratar os animais nem jogar lixo na rua, que é preciso ajudar os idosos, mostrar gratidão pelos alimentos. Há muito que ensinar para as crianças no âmbito real, vivo. 
 
De repente, aprende 
Acompanhar uma criança crescer é voltar a nos surpreender com os detalhes. Desde bebê, tudo é novidade, mistério, um pedaço do sagrado. Tudo é encanto. E recuperamos a razão do contemplar. Ter filho dá essa “coisa” na gente: temos vontade de juntar o que é mais bonito e mostrar, um por um. E torcer para que ele não perca nada. Isso também é praticar espiritualidade. Você quer compartilhar. “É quando você vê uma flor linda e quer contar para seu marido, quer que ele veja a mesma beleza que você viu”, diz o padre Claudio. Voltar-se para observar a vida que pulsa no outro nos joga a outro exemplo de espiritualidade: a compaixão. No sentido etimológico, significa “sofrer com”. Se o outro importa para mim, eu sofro quando ele sofre.
 
Aconteceu numa escola no Canadá. Sylvie, 9 anos, foi para a escola usando tênis com velcro. Algumas outras crianças zombaram dela, dizendo que estava usando tênis de bebê. Esse é o tipo de humilhação que arrasaria o espírito de qualquer criança de 9 anos. Mas então algo aconteceu. Quando a sala estava saindo para o intervalo, a melhor amiga de Sylvie, June, trocou um pé do tênis com ela. Sem dizer uma palavra ela transformou um ataque maldoso e excludente em uma brincadeira. A menina passou o recado: “Ela é minha amiga – se zombarem dela, vão estar zombando de mim”.
 
Essa história está no capítulo escrito pela canadense Mary Gordon, perita em educação familiar, no livro Honrar a Criança – Como Transformar esse Mundo, coletânea de textos sobre a infância, lançado no Brasil no mês passado, pelo Instituto Alana. A autora fala do poder da empatia, que tem tudo a ver com espiritualidade: a menina “entrou no sentimento” da amiga e melhorou a situação. Nada mais transformador – e espiritual. “A empatia é o verdadeiro cerne da sociedade civil, seja essa sociedade a sala de aula, a escola, a comunidade, o país ou a nossa ‘aldeia global’”, escreveu a especialista.
 
Por quê? 
Praticar espiritualidade requer dedicação. É preciso paciência naquele dia que o trânsito fez você se atrasar para pegar seu filho na escola e ainda quase perder a consulta dele no pediatra, enquanto ele insiste em observar as formigas caminhando na calçada. Ele está puxando você para a espiritualidade, mas as coisas que nos “desgraçam”, ou seja, “que nos tiram a graça” – ainda usando as definições do professor Cortella –, estão aí a todo momento. É hora de buscar alternativas. Não podemos aceitar que a vida se resuma a conseguir sobreviver a um dia de cão. Temos que querer mais para nós mesmos e nossa família. E isso não necessariamente é conseguir fazer a tão sonhada viagem em família para Fernando de Noronha. Pode estar naquela gargalhada depois de um banho de chuva inesperado, no sorriso do bebê depois de seu aperto gostoso na barriga dele ou naquela história que ele vai contar quando chegar da escola. A criança precisa enxergar a vida com significado e aprender que o que ela faz influencia o outro, seja a família, os amigos, o cachorro, a violeta na sala que ela já aprendeu a não mais arrancar as florzinhas. Nossas atitudes têm consequências e está em nossas mãos dar um rumo a elas. É o mesmo caminho da felicidade, não?
 
Pois foi por aí que um estudo do ano passado relacionou espiritualidade com felicidade. Segundo o pesquisador mark holder, da universidade de british columbia, no canadá, um estudo coordenado por ele mostrou que as crianças que dão significado para suas vidas desenvolvem relacionamentos profundos e de qualidade – ambos medidas de espiritualidade –, além de serem mais felizes. A razão está aí. Viver tem de fazer sentido. Muito sentido.
 
Praticar espiritualidade é...
 
”Penso sempre em atividades como música, pintura, escultura com massinha, por exemplo, que manterão as crianças sensíveis.”
 
Paulo Porto Correia, diretor do Instituto Triângulo e pai de Pedro, de 6 anos, e Carol, de 11 meses
 
2 perguntas para Mario Sergio Cortella
 
Como expressar a espiritualidade?
Quando você conecta-se a outras pulsações de vida. Quando eu me relaciono com outras pessoas e essa relação é respeitosa, cuidadosa, prazerosa, eu estou fazendo a vida vibrar em outro. Eu tenho um hábito. Quando gosto demais de um livro, esteja onde estiver, eu o fecho e bato palmas. Parece loucura, mas é a minha maneira de render graças. Render graças: o que deixa a vida mais engraçada. Quando você rende graças a um alimento gostoso, a uma música boa, a uma convivência, a um local bonito, você se sente parte daquilo.
 
O que os pais podem ensinar?
Educar para espiritualidade na família significa ser capaz de render graças o tempo todo, inclusive na refeição. Impedir o desperdício, por exemplo. Meus pais não admitiam que ficasse comida no prato. Pode parecer algo mesquinho, mas não era uma questão econômica, e sim para render graças ao alimento. E hoje você vê famílias que vão a um fast-food com os filhos e aceitam que eles façam guerra de batata frita. Por isso educar para a espiritualidade na família é primeiro ser capaz de construir momentos de convivência em que a gratidão venha à tona.
 
Existe conexão entre espiritualidade e cultura?
As expressões artísticas são um meio e tanto para mostrar essa conexão entre os seres: o choro na cadeira do cinema, o espanto diante de uma tela de Claude Monet, a gargalhada diante do palhaço. O simples ato de colocar uma música para o outro ouvir é pura espiritualidade.
 
Imagine, então, o que de bom acontece à criança quando os pais são os condutores, quando a família é a referência. “Nas conversas constantes, nos jogos e brincadeiras, nos passeios lúdicos e culturais, no criar momentos mágicos e fantasiosos: essa participação dos pais proporcionará segurança e afetividade para as crianças. E segurança e afetividade são variáveis importantes no desenvolvimento da espiritualidade”, diz o educador e pesquisador Hosaná Dantas.
 
Por isso, contar e ler histórias é das atividades mais profundas para se praticar espiritualidade em casa. Primeiro, você está dedicando um tempo somente para essa atividade, um tempo exclusivo para estar com seu filho. Segundo, histórias são conexões diretas com os nossos sentimentos, para conversar em silêncio sobre assuntos muitas vezes difíceis de resolver. “As raízes das histórias estão ligadas a mitos arcaicos, pois inicialmente essa era a forma das pessoas passarem seus saberes, valores, ensinamentos”, afirma a professora e contadora de histórias Rosane Pamplona, autora de diversos livros infantis com contos de tradição oral. Se a contação for por pura diversão, melhor ainda: olha lá você tornando a vida do seu filho mais engraçada! Tem poder melhor do que esse?
 
O poder das histórias é bem maior do que podemos imaginar e o repertório nem sempre precisa ser fantasioso. Experimente contar fatos sobre quando seu filho nasceu, ou quem foi seu melhor amigo na escola, ou como seus avós se conheceram. “Ao contar algo sobre nós ou nossa família, estamos fazendo em nós mesmos uma linha do tempo que liga o passado ao futuro”, diz Christine Fontelles, diretora de educação e cultura do Instituto Ecofuturo que desenvolve práticas de sustentabilidade também por meio do incentivo à leitura. Isso dá sensação de pertencimento, de identidade, e conecta a família ao mesmo tempo em que mantém um hábito ancestral.
 
Praticar espiritualidade é...
 
“Segunda-feira é o dia da leitura em casa. Meu irmão, minha mãe, eu e meu sobrinho, Felipe, de 10 anos, sentamos com nossos livros preferidos e cada um conta a sua história. Sempre tem alguma comida gostosa e esse é o nosso momento especial.”
 
Martha Rios Guimarães, diretora da USE-SP (União das Sociedades Espíritas de São Paulo)
 
Espiritualidade também é treino
Imagine se você pudesse fazer uma lista de afazeres para sua família, todas voltadas para a prática da espiritualidade. Aqui vão algumas sugestões, mas o ideal é que vocês adaptem conforme a dinâmica da sua rotina. Vale até se estiverem diante de algum conflito, que pode ser desde uma briga com um colega de escola, até uma dificuldade para seu filho entender por que deve economizar água.
 
Resoluções morais e éticas podem ser sugeridas pelas próprias crianças. “Poderiam ser propostas para todos os dias ou uma listinha semanal. O mais importante é acreditar na criança. Pergunte como ela pode transformar as suas ações de hoje em coisas boas. O melhor disso vai ser compartilhar, conversar”, diz Marcelo Cunha Bueno, diretor pedagógico da Escola Estilo de Aprender e colunista do site CRESCER.
 
Praticar espiritualidade é...
 
“Meu pai, que não está mais aqui, amava passarinhos, principalmente o bem-te-vi. Quando ouço um e estou com a Isabele, minha filha de 4 anos, digo a ela: ‘Olha o vovô dizendo bom dia’. Acho importante que ela sinta a presença dele de alguma forma, que ela saiba de onde ela vem. Com a Camile, eu pratico espiritualidade quando ela chega em casa, depois de ter passado o dia todo fora, voltado da faculdade, e pergunto como foi o dia, trocamos histórias...“
 
Christine Fontelles, diretora de educação e cultura do Instituto Ecofuturo, mãe de Isabele, 4 anos, e Camile, 20 anos
 
* Ensine que abraçar não precisa de motivo
• Prepare a torta preferida dele, com ele
* Mostre que se importa com o outro, perguntando como vai
• Conte as estrelas
• Coloque uma música
 * Faça cócegas!
• Tenha um peixe
* Chame um novo colega para brincar em casa depois da aula.
• Dê um beijo inesperado
* Diga “bom dia” às pessoas e insista que ele faça o mesmo
*Fale palavras de carinho
• Conte histórias
• Prepare aquele doce que ele adora
• Recite uma poesia
• Andem descalços na terra
* Cante alto enquanto cozinha
• Listem as coisas que vocês adoram fazer quando estão juntos
• Mexa com cachorros na rua
• Mostre a ele o beija-flor parado no ar
* Agradeça sempre: pelo dia, pela refeição, pela companhia
• Visite as pessoas
• Invente novas brincadeiras
• Peça que ele regue as plantas do jardim
• Ao chegar em casa, pergunte como foi o dia dele e conte como foi o seu
 
Fontes: Ana Lucia Villela, presidente do Instituto Alana; Marcelo Saad, fisiatra e acupunturista, coordenador do comitê sobre Espiritualidade e Religiosidade em Saúde do Hospital Israelita Albert Einstein; Marcia Tiburi, filósofa, professora da Universidade Mackenzie e participante do programa Saia Justa, do GNT; Martha Rios Guimarães, diretora da USE-SP (União das Sociedades Espíritas do Estado de São Paulo); Patrícia Otero, coordenadora da ONG 5 Elementos; Paulo Correia, diretor do Instituto Triângulo.
 
Fonte: Revista Crescer 

 


Postado em 28/09/2012


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