Educação, boa e velha

por Rosely Sayão 

Nós não consideramos os velhos importantes em nossa sociedade. Todos pensamos que é muito mais importante ser jovem, não é verdade?
 
A palavra "velho" foi transformada em um xingamento e passou a ter um caráter tão pejorativo que não conseguimos mais dizer com naturalidade que alguém é velho. Procuramos criar outras expressões que consideramos mais apropriadas. Usamos em substituição, por exemplo, eufemismos como "terceira idade" ou "melhor idade".
 
Atualmente, os velhos estão segregados em espaços que abrigam seus pares, ou seja: outros velhos.
 
Realizamos bailes para a terceira idade, excursões e shows especiais para eles etc. Isso não deixa de ser uma maneira de nos protegermos da velhice. Quando nós isolamos os velhos, tornamos a velhice invisível.
 
Quando não há jeito de não reconhecer que uma pessoa é velha, sempre há um modo de amenizar a situação. Afirmar que uma pessoa é "jovem de espírito", independentemente da sua idade avançada, é um elogio. Para quem diz e para quem ouve. Nem mesmo os velhos aceitam a própria velhice.
 
É esse contexto sociocultural que precisamos considerar ao refletirmos sobre o papel dos avós na atualidade.
 
Creio que todo mundo se lembra do tempo em que as famílias consideravam natural o fato de os avós mimarem seus netos. Algumas décadas atrás, essa função era valorizada, inclusive pelos pais das crianças, que não conseguiam esconder seu orgulho quando "reclamavam" que seus pais mimavam ou estragavam os seus filhos.
 
Era simples assim: os avós podiam mimar seus netos porque seus filhos --os pais das crianças e adolescentes-- estavam ocupados demais com a tarefa educativa e não tinham tempo, portanto, (não me refiro aqui ao tempo cronológico) para satisfazer os gostos de sua prole.
 
Hoje, os avós não podem e nem devem mais mimar seus netos. Isso porque são os pais que, agora, se ocupam dessa função. É difícil encontrar mães e pais que não tentem, a qualquer custo, satisfazer todas as vontades de seus filhos, desde as mais simples às mais complexas e caras --em todos os sentidos.
 
Pois eu conheço muitos avós que conseguiram inovar o sentido da palavra "mimar" na relação com seus netos. Para esses velhos da atualidade, mimar passou a ser dedicar tempo aos netos e ter paciência com eles.
 
Contar histórias da família, lembrar casos que aconteceram com seus filhos, agora adultos, quando eram pequenos como são os netos agora, fazer relatos sobre a formação do grupo familiar são meios de passar aos mais novos noções de como é o grupo ao qual eles pertencem. Isso ajuda a construir vínculos e identidade.
 
Gastar o tempo com os netos é o maior mimo que, hoje, os novos avós podem fazer.
 
Esses mesmos avós lutam com seus filhos para ter um papel mais ativo na educação de seus netos. Lutam mesmo, já que a maioria dos pais considera invasiva essa postura de seus pais de querer ajudar a formar as crianças.
 
Nessa linha da perda de importância que aconteceu com os velhos em nossa sociedade, os pais dos mais novos não acreditam que os avós tenham alguma coisa a acrescentar na educação de seus filhos.
 
É: querer ter participação ativa na educação dos netos virou motivo de intensos conflitos familiares.
 
Mas esses avós insistem, porque acham que vale a pena ensinar aos netos que autonomia se conquista e não se ganha, que ter liberdade é muita responsabilidade, que há, sim, certo e errado e falso e verdadeiro, entre tantas outras coisas.
 
Esses avós estão conscientes de que essa atitude que escolheram adotar é duramente criticada pelos filhos. Mesmo assim, eles não desistem. É que eles sabem o quanto é preciosa a boa educação.
 
Rosely Sayão, psicóloga e consultora em educação, fala sobre as principais dificuldades vividas pela família e pela escola no ato de educar e dialoga sobre o dia-a-dia dessa relação. É autora de "Como Educar Meu Filho?" (Publifolha), entre outros. Escreve às terças na versão impressa de "Equilíbrio".
 


Postado em 02/10/2012


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