Zumbi, um herói cercado de mistério

por Bruno Fiuza

O arqueólogo Pedro Paulo Funari, que dirigiu a escavação do quilombo de Palmares, e a historiadora Aline Vieira de Carvalho, que estuda a trajetória da comunidade rebelde, contam o que os pesquisadores sabem sobre a vida real do personagem principal do Dia da Consciência Negra
 
Em janeiro de 2003, a data da morte de Zumbi dos Palmares, 20 de novembro, se transformou em Dia Nacional da Consciência Negra. Símbolo da resistência ao escravismo no Brasil, Zumbi se tornou um herói nacional, mas o que sabemos de fato sobre sua vida? Infelizmente, muito pouco, afirmam os autores do livro Palmares, ontem e hoje (Zahar, 2005), Pedro Paulo Funari e Aline Vieira de Carvalho. Funari, além de coautor da obra, foi diretor do Projeto Arqueológico Palmares. História Viva conversou com eles para saber o que a pesquisa histórica revela sobre o maior quilombo brasileiro e seu último líder.
 
História Viva – O que os historiadores sabem, concretamente, sobre a biografia de Zumbi?
Pedro Paulo Funari – Muito pouco. Os que escreveram sobre Zumbi o fizeram de segunda mão e sempre de um ponto de vista contrário aos lutadores pela liberdade. Além disso, foram criadas muitas lendas, como aquela que atribui ao líder palmarino uma formação aprimorada, como seminarista, por meio da qual ele teria até mesmo aprendido latim e as técnicas de guerra dos romanos antigos.
Aline Vieira de Carvalho – Sabemos pouco sobre Zumbi e sobre outras pessoas que teriam vivido em Palmares. Os documentos de época que falam do quilombo não se preocuparam em registrar a biografia de seus moradores.
 
HV – A partir da análise dos documentos escritos disponíveis é possível saber como era a organização política, econômica e social de Palmares?
Funari – A documentação descreve uma comunidade rebelde, em luta por uma vida sem a interferência dos senhores de escravos.
Aline – Sim. Há referências à organização política, econômica e social do assentamento. A preocupação principal, no entanto, é apresentar Palmares como um enclave rebelde e, por isso, indesejável. Logo, os documentos focalizam questões estratégicas de defesa e ataque ao quilombo.
 
HV – Quais foram as novas informações que as pesquisas arqueológicas revelaram sobre Palmares?
Funari – Durante as escavações, descobrimos artefatos de características indígenas. Isso mostra o caráter variado, mesclado, do assentamento rebelde, que congregava africanos, indígenas, brancos e mestiços, todos em luta pela liberdade.
Aline – As pesquisas arqueológicas sobre o quilombo trouxeram informações que puderam ser confrontadas com os dados dos documentos escritos. O cruzamento de fontes permite a construção de um quadro mais complexo sobre o que teria sido Palmares. Passa-se a investigar a presença de indígenas no assentamento, a distribuição dos espaços, possíveis relações entre os quilombolas e os colonos, entre outros aspectos.
 
HV – Em artigo publicado em 1996, o professor Pedro Paulo Funari afirmava que até aquele momento a polêmica sobre a escravidão na academia brasileira era pautada por discussões pouco científicas. Isso mudou nos últimos dez anos?
Funari – Sim, houve grandes avanços. Uma síntese como a que Flávio dos Santos Gomes apresentou em seu livro Palmares (Contexto, 2005) não seria possível sem o aprofundamento dos nossos conhecimentos. Isso se deve tanto à historiografia quanto à valorização dos grupos sociais excluídos.
Aline – A academia, em especial as ciências humanas, têm se dedicado a entender diversos aspectos da escravidão no Brasil e as relações entre essa escravidão e outras regiões, como a África, a América Central e a América do Norte. Acredito que esse recorte só se tornou possível pela constituição de um ambiente democrático tanto nas universidades quanto fora delas. Nesse sentido, as pesquisas científicas ganharam muito nos últimos dez anos.
 
HV – A imagem de Zumbi que conhecemos hoje corresponde às evidências históricas sobre esse personagem ou trata-se de uma construção historiográfica posterior?
Funari – Sabemos muito pouco sobre o líder do quilombo. Não há como desconsiderar a interpretação das épocas posteriores: Zumbi será sempre uma construção, como qualquer outro grande personagem histórico.
Aline – Nós temos muitas imagens do Zumbi dos Palmares. Até as primeiras décadas do século XX, ele era percebido como um exemplo de “fraqueza negra” diante da “superioridade branca” do bandeirante Domingos Jorge Velho, que destruiu o quilombo. Ao longo do século XX, essas imagens foram alteradas. Hoje, temos o líder palmarino como exemplo da resistência negra. Podemos dizer que todos esses “Zumbis” correspondem a contextos históricos bastante específicos e foram criados por grupos sociais com interesses bem delimitados.
 
HV – As pesquisas mais recentes sobre Palmares confirmam ou desmentem essa imagem?
Funari – Diria que desmentem a imagem de um líder centralizador, pois hoje pensamos Zumbi não apenas como um grande chefe militar. Essa era a imagem do século XVII, que o associava ao general romano Júlio César. Hoje, ele aparece como um homem do povo, mal comparando, e muito mal, um Lula da época.
Aline – As pesquisas mais recentes sobre Palmares não estão centralizadas na figura de Zumbi. Almeja-se esclarecer outras relações de poder, como as relações de gênero e as regras que pautavam as negociações entre autoridades coloniais e quilombolas. Ou seja, o objetivo não é apenas reconstituir biografias.
 
HV – Recentemente alguns historiadores propuseram novas e polêmicas interpretações sobre a figura de Zumbi. Luiz Mott fala de uma possível homossexualidade do líder palmarino, e Ronaldo Vainfas sugere que ele poderia ter sido um senhor de escravos. O que acham dessas interpretações?
Funari – Não havia homossexualidade nessa época. Manter relações sexuais com homens e mulheres não indicava opção sexual. Na África, entre o Congo e Angola, a relação sexual de homens com homens era comum e nada tinha de homossexual. Por isso mesmo, Zumbi, como outros, podia ter relações sexuais com homens e mulheres. A escravidão também era usada na África, não apenas no Novo Mundo. Era uma instituição universal. No contexto mais democrático em que vivemos, debater esses aspectos de Palmares mostra que podemos buscar no quilombo não apenas heróis, mas pessoas de carne e osso.
Aline – É interessante refletir por que essas interpretações propostas por Mott e por Vainfas geram polêmica. Elas são controversas por não se ajustarem às imagens idealizadas que temos de Zumbi como um herói “negro” e “masculino”, e do quilombo como um espaço de liberdade. No século XVII, no entanto, a homossexualidade não existe como conceito e a escravidão não é condenada. Esses conceitos não pertencem ao contexto do quilombo de Palmares. Por isso, é possível que Zumbi tenha mantido relações com homens e mulheres e que houvesse escravidão dentro do quilombo. O fato de essas interpretações serem polêmicas revela mais sobre os preconceitos da sociedade atual e da forma como nos representamos hoje do que sobre o quilombo.
 


Postado em 17/10/2012


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