Pesquisa sobre o comportamento de crianças e adolescentes na web

por André Bürger

Mercado e Academia estão constantemente estudando os hábitos de internautas adultos na web, o que fazem, o que compram, que páginas visitam... Mas e as crianças e adolescentes, como se comportam na internet? Para responder a essa pergunta, o Centro de Estudos sobre as Tecnologias da Informação e da Comunicação (Cetic.br) realizou a primeira edição do estudo TIC Kids On-line Brasil e entrevistou 1.580 jovens internautas de 9 a 16 anos e o mesmo número de pais.
 
A atividade mais citada pelos entrevistados foi o uso da internet para trabalhos escolares (82%). Em seguida estão visitas às páginas de redes sociais (68%) e demais atividades ligadas a entretenimento e comunicação como: assistir vídeos (66%), jogos (54%) e mensagens instantâneas (54%). A atividade escrever em um blog, por exemplo, é realizada por 10% dos entrevistados. "Alguns resultados já eram esperados, como a participação expressiva dos jovens nas redes sociais. A pesquisa TIC Domicílios já indicava esse tipo de comportamento", explicou Tatiana Jereissati, coordenadora do estudo.
 
Isabela Henriques, diretora da área de defesa e futuro do Instituto Alana, vê como positivo o fato desse público estar usando a rede com um propósito educativo. Entretanto, a diretora tem suas ressalvas. Para ela o maior problema da web no Brasil é a grande quantidade de merchandising direcionado a esse público. "Hoje, ao jogar um game na web, a criança com certeza será bombardeada por mensagens vendendo serviços e produtos de grandes marcas. Infelizmente elas não conseguem navegar sem esse assédio constante."
 
Para Isabela, os dados chamam a atenção para o fato dos pequenos incluírem em sua rotina mais uma forma de mídia. Segundo a diretora, o excesso de veículos midiáticos consome muito tempo dos jovens, consequentemente eles realizam menos atividades ao ar livre. "Sabemos que as crianças estão em contato com muitas mensagens publicitárias. Para nós, isso gera um prejuízo enorme na sua formação, pois elas estão sendo influenciadas por essa comunicação de massa."
 
O mapeamento apontou quais locais são mais utilizados para acessar a internet. Entre os entrevistados, 42% acessam nas escolas, 40% em domicílio e 35% em lan houses. Assim como no Brasil, na Europa, onde o estudo foi conduzido em 25 países, em 2010, o local mais citado por crianças e adolescentes para acesso à Internet é a escola seguida da sala do domicílio. "Entretanto na Europa, as lan houses, por sua vez, foram citadas por apenas 14% dos europeus", conta Tatiana.
 
As altas estatísticas se repetem quando o assunto é televisão. Isabela Henriques ressalta que as crianças brasileiras estão entre as que mais assistem TV no mundo, em uma média de até cinco horas por dia. "Quando vemos essa pesquisa, percebemos que muitas crianças acessam a internet e assistem à televisão, muitas vezes concomitantemente."
 
Outra comparação que o estudo traz é em relação ao uso das redes sociais. No Brasil, 70% dos usuários de Internet, de 9 a 16 anos, possuem perfil em alguma rede, enquanto na Europa, essa porcentagem chega a 57%. Os brasileiros de 9 e 10 anos representam 42% desse público, enquanto que de 15 a 16 anos são 83%. Outro ponto diz respeito à frequência: entre os adolescentes de 11 a 16 anos, 53% visita um perfil/página de rede social todos os dias.
 
Os perigos da web
 
A pesquisa elaborada pelo Cetic.br também analisou a questão da segurança da internet no Brasil. Entre os usuários de 9 a 16 anos, 72% percebem que há coisas na Internet que podem incomodá-los ou chateá-los de alguma forma. Já 23% dos jovens de 11 a 16 anos declararam ter passado por alguma situação inconveniente no último ano, sendo que metade declarou ter vivenciado isso na web.
 
A pesquisa aponta que as redes sociais fazem muito sucesso entre crianças e jovens mesmo naquelas em que a idade mínima para criar uma conta é 13 anos, como o Facebook. Das crianças de 11 a 12 anos, 71% têm perfil em rede social. De 9 a 10 anos a taxa cai para 42%. Entre aqueles com idade de 11 e 16 anos, 23% já tiveram contato virtual com alguém que não conhecia pessoalmente. Quanto às páginas visitadas, 14% admitiram ter visto conteúdo de ódio e ofensa e 10% já leram páginas com apologia à bulimia e anorexia.
 
Tatiana Jereissati lembra que, dos 1.580 participantes, 86% compartilham uma foto que mostra claramente seu rosto, 28% revelam sua escola, 13% divulgam seu endereço residencial e 12% informam seu telefone na rede. Ao mesmo tempo, entre os entrevistados de 9 a 16 anos, 42% possuem um perfil privado e 25% possuem um perfil público. Já em termos de habilidades, 59% dos usuários de 11 a 16 anos sabem bloquear mensagens de um contato e 54% declaram saber alterar as configurações de privacidade de seu perfil.
 
Com tanta exposição, será que os pais desses internautas sabem o que seus filhos andam fazendo na web? A pesquisa aponta um baixo nível de percepção paterna, visto que 35% dos responsáveis acham que seus dependentes são capazes de lidar com situações que os incomodam e 71% acham que os filhos usam a web com segurança.
 
Segundo Rodrigo Nejm, diretor de prevenção da Safernet Brasil, entidade considerada referência nacional no enfrentamento aos crimes e violações aos Direitos Humanos na Internet, esses dados não captam uma percepção real do que a organização tem acompanhado no seu dia a dia. "Vale a pena prestarmos atenção que, dos pais que responderam, apenas 47% realmente usam a internet. Uma minoria que nos motiva a relativizar o grau de conhecimento desses pais", contextualiza o psicólogo da ONG que colaborou com a realização da pesquisa.
 
"Outra questão é que mesmo aqueles que usam a web, o fazem de forma diferente do que seus filhos. A intensidade e os serviços utilizados são bastante diferentes. Muitos adolescentes nem usam e-mail. Devemos levar isso em consideração", pontuou Rodrigo.
 
Em entrevista ao Nós da Comunicação, Rodrigo citou a questão da exposição sexual dos adolescentes - tema que não foi abordado na pesquisa, mas que tem sido frequente nas mensagens que a Safernet recebe dos internautas. Segundo o psicólogo, muitos jovens expõem seu próprio corpo, seja por meio da webcam, seja por meio de fotos com celular. Normalmente fazem isso com seus respectivos parceiros. O problema é quando os relacionamentos acabam e essas imagens caem na rede, gerando um grande problema para todos. "Isso aconteceu recentemente no Canadá. Uma adolescente cometeu suicídio por ter sido humilhada na escola após ter fotos íntimas expostas na web", disse. 
 
Esse acompanhamento dos pais e educadores é um grande desafio, ressaltou Isabela Henriques, do Instituto Alana. Para a diretora, eles são muito importantes, pois não há filtros na web que substituam a família. "Os pais devem conversar com seus filhos para auxiliá-los nessa descoberta da rede. É importante que eles se dediquem e naveguem com os pequenos, explicando como a rede funciona. As crianças não têm noção da grandiosidade da rede e de quão pública ela pode ser", reiterou.
 
A Safernet Brasil também possui uma ferramenta para auxiliar internautas. É o site Canal de Ajuda, que oferece suporte, tira dúvidas dos adolescentes, pais e professores. "Com psicólogos especializados disponíveis, é um canal gratuito que tem o apoio da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República", disse Rodrigo.
 

 


Postado em 24/10/2012


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