Especialistas revelam o lado positivo (e negativo) de se dedicar totalmente aos filhos

Amamentação prolongada, filhos que dormem junto com o casal... A convite de CLAUDIA, especialistas opinam sobre a volta desse velho jeito de educar

por Patrícia Zaidan 
 
Um pediatra americano, William Sears, causou polêmica. Ele propõe uma revolução na educação dos pequenos. Ele sugere que amãe entre em sintonia com o bebê para entender sua linguagem, suas necessidades e seus medos noturnos. Recomenda evitar a creche e transportar o filho sempre coladinho ao corpo. Embora um projeto assim obrigue uma revisão geral da carreira, sexualidade, liberdade e da vida social, uma parcela de mulheres já optou por esse estilo de criação. CLAUDIA convocou especialistas para discutir essa tendência da mãe grude e sintetiza aqui o que eles pensam.
 
O que diz a psicanálise?
Oscar Cesarotto, psicanalista, professor de comunicação e semiótica na PUC-SP
 
"A cama até podeser dividida como forma de brincar. Na rotina e no sexo, porém, homem e mulher não precisam de mais ninguém ali. Mas, se ela só enxerga o filho, o marido fica ressentido e impotente. Quando busca o psicanalista para reconquistá-la e a neurose é grande, chega odiando o concorrente. Em casos extremos, a supermãe vai à loucura se o quadro se perpetua. Freud dizia que o bebê chupa o peito porque precisa do leite e gosta de peito. Amamentar é gozo. Também para a mulher. Ela cultua o ato ao longo de cinco, seis anos por estar apreciando. Nada contra,não fosse a carga que pesa sobre o filho. Para se tornar adulto e desejar outro ser – já que a mãe não será sua –, terá de fugir do incesto. Há mais de100 anos, a psicanálise vem mostrando que, lamentavelmente, temos de perder. Perdemos a placenta, onde flutuamos, a mama... Todo afastamento é uma castração. Nesse caso, necessária. Espontaneamente, a criança não decidirá parar de mamar. Então, não há negociação: cabe ao adulto cortar. A família toda sofre. O desmame é traumático, mas não tão devastador. Afinal, todo mundo superou. Por último, a educação com apego é só mais uma onda. Nos anos 1970, as mulheres foram trabalhar, os bebês ganharam o leite em pó e a creche. Nos 1990, elas retomaram a amamentação até os seis meses e usaram o dinheiro que ganharam para comprar qualidade de vida. É pouco. Agora, tendo tanto tempo e amamentando tanto, perseguem a hiperqualidade de vida. E estão tendo, por isso, cobertura na mídia. Não é muito narcisismo?”
 
O filho não tem a medida
Daniela de Rogatis, pedagoga, pesquisadora e consultora de famílias na área de educação
 
“Concordo com o doutor Sears que, sabiamente, defende o restabelecimento do vínculo entre a criança e a família. Algo diferente do modelo contemporâneo, em que a mulher está mais para o trabalho do que para os filhos. Hoje, a família prepara mais para a vida econômica do que para a convivência; o afeto é trocado por coisas e os cuidados viraram serviços – caso da educação delegada só à escola. É na família conectada, com bom diálogo, que a criança encontra referências para se desenvolver. Discordo, porém, quando ele diz: ‘Vamos dormir juntos e amamentar pelo tempo que o filho quiser, pois ele sabe a hora de parar’. Pode ser gostoso, mas a criança não tem a medida. Se tudo fica em suas mãos, ela se torna colíder da dinâmica da família e passa a decidir outras coisas sem capacidade. Pai e mãe devem ser os líderes estratégicos. Eles ajudam o filho a fazer o trânsito para o próximo estágio e explicam que o crescimento trará novas oportunidades. Educação com apego impede a autonomia. A criança se apega pelo medo de ficar sem, e isso gera dúvida sobre sua competência para o próximo passo. Já aquela mãe muito atarefada, que perde a conexão com areal necessidade do filho, tende a compensá-lo. Oferece presentes; atende sempre que ouve seu choro. Se não brinc abem com os amigos, ela reorganiza o grupo ao gosto da criança. E ainda repete um mantra muito atual: ‘Faço tudo que é possível para dar felicidade ao meu filho’. Mães desse tipo prometem resolver todos os problemas. Aos 6 ou 7 anos, quando ele tiver de pensar, criar formas para executar a alfabetização e a matemática, vai chamá-la e não encontrará socorro. Não há um chip com os conteúdos para colocar no filho. O garoto vai notar, então, que a mãe não foi verdadeira. Há uma quebra de confiança, uma frustração brusca. Ele estará despreparado para viver fora do seu pequeno reinado.”
 
Peito não é ameaça
Luciano Borges, presidente do Departamento Científico de Aleitamento Materno da Sociedade Brasileira de Pediatria e membro do comitê de aleitamento do Ministério da Saúde
 
“As pessoas veem uma criança mamando aos 4 anos e com mau comportamento; aí elegem o aleitamento como culpado. Não enxergam que, por trás disso, há uma mãe insegura e com dificuldades para educar. Não vejo problema no filho que, tendo uma alimentação correta, só mama na hora de dormir. Ele vai se desinteressar e deixar o peito naturalmente. Mulheres do Oriente amamentam até mais tarde. Será que nos olham como povo estranho porque aqui acaba cedo? A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomendou em 2002, com base em pesquisas, que a a mamentação seja exclusiva até os 6 meses. Como não houve consenso sobre quando cessar, a OMS sugeriu que, intercalada com outros alimentos, ocorra até 2 anos ou mais. O leite materno é sempre uma preciosidade. Tem proteínas, gorduras e anticorpos – aliados contra infecções. E reidrata. Quando atendo uma criança desidratada, penso que, se pudesse, adotaria leite materno no lugar do soro. Mais grave que prolongar é desmamar bruscamente. Soa como abandono. Pior se a mãe coloca substâncias amargas no seio para a repulsa do filho. Ele reconhece o artifício, se sente enganado, e o prejuízo emocional é maior.”
 
Cama compartilhada
Magda Nunes, neuropediatra, coordenadora do Grupo de Estudos do Sono da Sociedade Brasileira de Pediatria
 
“À noite, a criança de 2 a 3 anos vive a angústia da separação. Sem noção do tempo, não sabe se verá os pais de novo; imagina que a ausência será para sempre. Por isso, manipula, tenta convencê-los a deixar dormir junto. A cama única para a família, um hábito antropológico, caiu em desuso na Revolução Industrial. Mais recentemente, voltou a ser comentada e combatida porque cresceu a ocorrência da síndrome da morte súbita do lactente – o leito compartilhado é uma das causas. A nicotina liberada pelo adulto tabagista altera os quimiorreceptoresda criança, que deixa de perceber o oxigênio. Já os pais que usam álcool ou drogas podem dormir sobre o bebê. Com essa preocupação, a Academia Americana de Pediatria sugeriu a permanência em berço seguro, sem almofadas e brinquedos, ao lado dos pais, até os 6 meses. Depois, quartos separados. Ele precisa pegar no sono sozinho. Mãe e pai transmitem tranquilidade e confiança quando combinam: ‘Vou cantar uma música ou ler uma história e logo você estará pronto para dormir’. Além disso, a família deve criar hábitos saudáveis: escovar os dentes, apagar a TV e o som e preparar o ambiente. Às vezes, noto que a demanda do leito comum é dos pais: cansados, desistem de criar bons hábitos, pois dá trabalho. Ou o casamento está ruim, e a criança é estimulada a dormir no meio dos dois.”
 
O corpo e o tempo 
Rosiska Darcy de Oliveira, feminista, pesquisadora e escritora 
 
“É um despropósito. Nem quando estávamos fora do mercado de trabalho as crianças mamavam tanto. Uma mulher não pode ficar à disposição dos desejos discricionários de um filho. Há 40 anos, a revolução feminista afirmou a identidade da mulher com a frase: ‘Nosso corpo nos pertence’. Agora, há mais uma demanda: ‘Nosso tempo nos pertence’. Significa rever a forma de trabalhar para que a nossa energia não seja toda da empresa. Sou defensora da vida privada e de que homens e mulheres tenham tempo para ser felizes, cuidar dos filhos. Mas esse modismo americano é um exagero e tem a vã esperança de levar a mulher de volta para casa. Ao escrever o livro Reengenharia do Tempo (Rocco), não estava pregando isso. Até porque, não existe mais o homem provedor. A mulher que sustenta a família não pode sair do emprego para amamentar. Além disso, ela só atinge autonomia se tiver as próprias finanças. É o que a torna adulta. Assim, estar aberta à livre demanda do filho infantiliza a mulher. É uma maneira perigosa de tirar dela o tempo para crescer na profissão, de ter um hobby e amigos. A maternidade pode ser uma ambição, mas não uma aspiração exclusiva. O que choca é a mãe se tornar uma serviçal da cria. Uma coisa é valorizar os laços afetivos, outra é ser escrava deles.”
 
Amigas do peito 
Maria Lúcia Futuro, ativista da ONG Amigas do Peito, escritora de livros infantis 
 
“Nossa experiência de 32 anos orientando mulheres a amamentar mostrou que o apego e o acolhimento são o natural. Tenho cinco filhos, foram 13 anos amamentando. Eu era autônoma, levava as crianças para o escritório, pedia licença aos clientes para atendê-las. Hoje são adultos que cuidam da vida deles. Meu marido e eu nunca deixamos o sexo ou os amigos. A reportagem da Time é boa, mas gerou mais preconceito numa sociedade que já não é tolerante com a maternagem. Muitas bobagens foram publicadas em sites e jornais, e quero desfazê-las. 1. Não causa dependência. A criança ficará presa à mãe caso receba uma educação de subordinação, e não por ser amamentada. Ela vem, mama e vai brincar. 2. O leite tem valor nutricional mesmo para as grandes. Não supre todas as necessidades, mas é alimento e deveria ser o único leite para a espécie humana. 3. Desde que não seja algo imposto, não promoverá fixação sexual. O olho devasso é que torna o ato libidinoso. É um crime colocar essa pecha na amamentação. Fixação oral? Quem não tem? Uns roem unha, outros fumam, comem demais. 4. Não inibe o sexo. O casal acha tempo para ele. Se os filhos estão no quarto, procura outro lugar, inventa, inova. Com tantas proibições, subtraímos nossa capacidade de brincar, de ter alegria. Colocamos no lugar só razão e raciocínio e ficamos consumistas, competitivos, solitários. Já para jogar, precisamos do outro e nos tornamos cooperativos.”
 
Freio na carreira 
Iêda Novais, diretora corporativa da KPMG 
 
“A vida é feita de escolhas. A amamentação prolongada é uma. Para tomar essa decisão, a mulher deve saber do impacto na profissão. Em 30 anos analisando carreiras e empresas, nunca vi uma só corporação abrir espaço para isso. Não acontece em companhias familiares, pequenas, multinacionais, de origem coreana, chinesa, americana... A flexibilização da jornada de trabalho não é uma realidade, e a licença-maternidade de seis meses nem chegou às empresas. Nesse contexto, a proposta de educar com apego gera stress. Se for uma executiva, terá de negociar com a chefia e ver sua ascensão, que se daria em cinco anos, demorar dez. Se pedir demissão, é preciso lembrar que o mundo corporativo muda rápido e, quando ela quiser voltar, terá um cargo inferior ao que deixou. Poucas se dão bem após uma interrupção. Só se for herdeira do negócio ou esposa do dono. Em reunião de executivas, fala-se muito na culpa. Ainda não resolvemos a equação trabalho, filhos e marido. O drama será menor mantendo equidade de gênero em casa, dividindo tudo. Voltar ao modelo arcaico, de cuidado exclusivo com os filhos, não parece a solução do dilema.” 
 


Postado em 04/12/2012


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