Uma leitura de nível

Como o exercício de ler e de discernir os níveis de leitura em determinadas obras nos ajuda a interpretar a realidade, aprofundando nossa experiência e conhecimento

por Gabriel Perissé
 
Mestres do passado diziam aos seus discípulos que devemos aprender a exercer uma atividade ou ofício (isto é, preparar-nos para exercer alguma profissão) não só pela necessidade de uma justa remuneração, ou pelo prestígio social que legitimamente ambicionamos, mas em vista do prazer que nasce do próprio aprendizado.
 
O prazer de aprender está incluído numa pedagogia que olha para o conhecimento em geral, e para o conhecimento literário em particular, como coisas boas em si mesmas. A remuneração e o prestígio virão por acréscimo, como decorrência natural de um trabalho bem-acabado, de uma atuação profissional competente e primorosa.
 
Neste caso, a literatura será útil e compensadora, sim, mas não por fornecer uma ou outra citaçãozinha poética do estilo “tudo vale a pena se a alma não é pequena” (de um Fernando Pessoa reduzido a bibliografia de autoajuda). Ler melhor para aprender mais significa experimentar um aprendizado saboroso e humanizador. Não se trata de decodificar os textos simplesmente, mas de aprender a ler o não escrito. E esse aprender nos ajuda a pensar, sentir, agir e falar com maturidade e magnanimidade (isto é, com alma magna, alma grande).
 
Literatura realista
 
Ler melhor é leitura das entrelinhas, leitura meditada. Meditar, aceitando uma etimologia falsa (mas sugestiva), é me ditar, é ditar-me palavras maduras, que brotam da reflexão, da disponibilidade para ouvir em minha própria mente uma voz mais arguta e mais consciente. É muito difícil que a cobrança escolar e a obrigatoriedade do vestibular propiciem esse tipo de leitura. A obrigatoriedade e a cobrança tendem a matar o desejo e reduzir nossa capacidade de fazer descobertas pessoais.
 
Eduardo Portella, em seu Teoria da comunicação literária, afirmava que “a rigor nós não podemos sequer falar do realismo como um tema literário, já que se trata da categoria artística por excelência”. Ou, em outros termos, o real não é algo externo ou contrário à ficção, à poesia. O real se manifesta no literário. Mas para chegarmos a essa conclusão, é preciso reaprender a ler.
 
O filósofo e educador espanhol Alfonso López Quintás, fundador da Escuela de Pensamiento y Creatividad, propõe um método de leitura que nos ensina a redescobrir o prazer de ler e aprender, que é prazer resultante de um tríplice encontro: com a realidade, conosco próprios e com as questões que mobilizam nossa inteligência, nossa liberdade e nossa afetividade.
 
Seu método denomina-se lúdico-ambital. Lúdico, porque encara a leitura como um jogo, no qual leitor e texto dialogam e se relacionam intensamente. E ambital, porque nesse diálogo entre leitor e texto instaura-se um âmbito, um espaço de criatividade e interpretação, em que o leitor atua como coautor do que está lendo.
 
O primeiro passo do método lúdico-ambital (os outros quatro passos ficam para um futuro artigo) consiste em aprender a distinguir o argumento do texto do seu tema [ver quadro com exemplos]. Distinção fundamental, porque nos faz perceber o realismo do texto. Toda e qualquer produção em prosa ou poesia, e nas diferentes formas híbridas e ambivalentes de “proesia”, é produção realista, nos aponta para temas que são também os temas da vida de cada um de nós.
 
No seu livro Cómo formarse en ética a través de la literatura, López Quintás nos ensina a encarar a leitura como exercício dialogal e criativo:
 
“Nos cursos de ensino médio e universitário tivemos que aprender uma multidão de dados: nome de autores e obras, datas, manuscritos, influência de uns autores sobre outros, relação entre escolas literárias, mil e uma questões. Mas… aprendemos a penetrar no tema profundo de cada obra, e não apenas em seu argumento? Aprendemos a captar o sentido de cada passagem, e não somente o seu significado mais óbvio? Todos vocês leram o maravilhoso relato de Saint-Exupéry intitulado O pequeno príncipe. Quando o piloto está mais do que nunca envolvido em sua tentativa de consertar o avião, percebe ao seu lado a presença de uma figura bem vestida, pequena, de aspecto simpático, que, sem apresentar-se, pede-lhe que desenhe um carneiro. Diga-me, leitor… que sentido preciso tem, nesse contexto, semelhante pedido? Interessa de fato, ao pequeno príncipe, ter o desenho de um carneiro? Veja. Se ficarmos presos ao desenho, tal como se entende um desenho, captaremos somente o argumento da obra, não o seu tema.”
 
Lucidez
 
O argumento é o que se lê e se entende na primeira leitura. É o literal, o básico, o óbvio. É o que se apresenta de imediato no texto. No romance, é o enredo, a história, os fatos narrados, a descrição dos personagens, o que  dizem, o que fazem. No poema, é a sucessão de imagens, as brincadeiras sonoras, aquilo que o poeta vai expondo em seus versos.
 
Já o tema corresponde ao núcleo de sentido em torno do qual o texto se organiza. O tema do romance, do conto, da crônica, do poema, etc. remete a acontecimentos relevantes da vida humana: amor, ódio, fidelidade, traição, alegria, tristeza, angústia, solidão, gratidão, ressentimento, arrependimento, etc.
 
A descoberta desses temas vitais, na leitura, nos prepara para interpretar a realidade com mais lucidez, e tomar decisões que nos transformem em heróis (e anti-heróis) da nossa própria existência.
 
Argumento x tema nos clássicos
 
A metamorfose, de Franz Kafka
Argumento: Um caixeiro-viajante que sustenta pai, mãe e irmã subitamente se transforma num inseto asqueroso, causando sérios problemas para sua família até que finalmente morre, para indisfarçável alívio de todos…
Tema: O verme em que Gregor Samsa se transforma representa a perda de dignidade, e abre nossos olhos para realidades sociais, psicológicas e espirituais dramáticas. A depressão de uma pessoa (e a incompreensão familiar) é uma dessas realidades a considerar.
 
Lucíola, de José de Alencar
Argumento: O narrador se apaixona por uma cortesã, descobrindo mais tarde a história trágica que a levou a prostituir-se. Lucíola (na verdade, Maria da Glória) redescobre o amor e opta pela pureza absoluta.
Tema: O comportamento sofredor da protagonista (dividida entre um comportamento angelical ou demoníaco) lança luzes sobre a corporeidade e a sexualidade femininas, não só do século XIX mas também do presente.
 
A máquina do mundo, de Carlos Drummond de Andrade
Argumento: Neste poema, o “eu” fala de uma busca sem resultado e do desprezo que sente depois, quando a máquina do mundo aparece e se oferece a quem já desistiu da procura.
Tema: O poema descortina o conflito do agnóstico que, em busca do sentido da vida, identifica a presença do mistério no mundo, graças a uma sensibilidade poética e religiosa que muitos crentes não possuem.
 
Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa
Argumento: Riobaldo conta suas aventuras e histórias de jagunço a um atento ouvinte.
Tema: As reflexões do protagonista e narrador revelam o fascínio pelo mal (o pacto com o demônio), a perplexidade amorosa (o jagunço ama um jagunço, que na verdade é uma mulher) e a descoberta de que ser livre é tomar decisões sem garantias absolutas.
 
A hora da estrela, de Clarice Lispector
Argumento: Macabéa, nordestina destituída de atrativos e capacidades, vive e morre na cidade grande sem realizar nada de útil.
Tema: A dignidade (o brilho) de uma pessoa reside em sua interioridade (seus estados de graça), numa experiência inefável que o preconceito social não consegue apreender nem valorizar.
 


Postado em 04/12/2012


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