Os pais e a ilusão de controle

Do cartão pré-pago para vetar o consumo de guloseimas ao chip para escolher a hora do primeiro beijo. Como criar uma geração de eternos bebês

CRISTIANE SEGATTO
 
Que tal arranjar um cartão pré-pago para controlar o que os filhos comem na cantina? A ideia foi adotada em algumas escolas da elite paulistana, segundo uma reportagem do colega Jairo Marques, publicada nesta semana na Folha de S. Paulo.
 
Os pais estabelecem um valor de consumo diário, mensal ou como acharem melhor. Pela internet, escolhem quais alimentos e em qual quantidade os filhos podem comprar. Na hora do recreio, o aluno paga as despesas com o cartão. Caso escolha um produto não aprovado pelos pais, a compra é travada. Neca de pitibiriba. Passa amanhã.
 
Preciso admitir que o sistema é prático. Uma comodidade que evita o manuseio de dinheiro, contorna os esquecimentos da molecada avoada e facilita o controle dos gastos. Educar para a vida, no entanto, não combina com comodidade. É uma tarefa bem incômoda, trabalhosa, que exige uma paciência de Jó.
 
O cartão pré-pago é mais uma medida desesperada para dar aos pais a sensação de falso controle sobre as escolhas dos filhos. A obesidade atingiu níveis alarmantes, as crianças têm colesterol, triglicérides e glicemia elevados, é uma geração que aos 10 anos tem saúde de quem já passou dos 60? É a mais pura e estarrecedora verdade.  
Sinto dizer que impingir (e aqui repito: impingir) alimentos saudáveis na hora do recreio será pouco eficaz para reverter a situação. Em geral, uma criança passa 20 horas semanais na escola. O que ela come nas outras 148 horas? Qual é o exemplo que os pequenos recebem dos pais? O que há na geladeira e nos armários? Como são as refeições em casa e nos momentos de lazer?
 
É inadmissível que uma mãe diga que a filha precisa emagrecer enquanto ela própria enche a casa de todo tipo de bugiganga calórica, açucarada, gordurosa. Crianças não se tornam obesas aos 10 anos sem que os pais tenham negligenciado sua educação alimentar. A não ser, é claro, nos raros casos em que a doença é provocada por questões orgânicas, como disfunção hormonal ou tumores.
 
Assim como a religião, a visão de mundo, a escolha do time, a construção do paladar infantil é fortemente influenciada pela cultura e pelos hábitos da família. Minha filha e as amigas dela sabem o que por no prato porque simplesmente aprenderam a fazer de uma determinada forma. Se tivessem nascido na Mongólia, na Alemanha ou no Japão, fariam diferente.
 
Como nasceram no Brasil, uma terra na qual tudo dá, aprenderam a comer arroz, feijão, carne, peixe, legumes, verduras e frutas. Chegam da escola cheias de apetite, lavam as mãos e, felizes da vida, dizendo “adoro isso”, “adoro aquilo”, comem comida de verdade. 
 
Todas têm peso normal. Todas consomem guloseimas em momentos especiais. Um passeio ao shopping uma vez por semana, um sorvete, um chocolate, pipoca e batata fria de vez em quando. 
 
É uma delícia perceber que o paladar dessas meninas está formado. Não precisam de cartão pré-pago. Simplesmente aprenderam a escolher. Vão levar esse aprendizado para sempre e incrementá-lo com os novos sabores que a vida lhes apresentar.
 
Com esse excesso de descontrole camuflado de controle, a molecada de hoje está tendo a oportunidade de crescer e de aprender com seus próprios erros e acertos? Creio que não.
 
Do jeito que a coisa vai, daqui a pouco alguma empresa vai inventar um chip para controlar o primeiro beijo dos filhos e tudo o que vem depois.
 
Se algo do gênero estiver em desenvolvimento em algum laboratório de tecnologia, não tenho notícia. Mas acredito que seja o sonho de consumo de muitos pais.
 
Já pensou? Colocar um chip sob a pele da garota ou preso à roupa para controlar o momento em que ela seria promovida do estágio BV (boca virgem, no vocabulário adolescente) para BVL (boca virgem de língua)? Posso até imaginar alguns pais barganhando as primeiras experiências amorosas dos filhos em troca de desempenho escolar. “Só vou liberar o BD (beijo de Drácula) se você tirar a nota máxima no Enem”. 
 
Tempos estranhos esses em que nos colocaram para viver e educar. Educar é permitir que as crianças tomem decisões gradativamente e aprendam a assumir a responsabilidade decorrente de suas escolhas.  
 
Quanto desse aprendizado estamos roubando de nossos filhos?
 
Nas mãos de muitas famílias, o celular se transformou em instrumento de controle e coerção. Quando tenho minhas dúvidas de mãe (e elas não são poucas), procuro olhar para trás e pensar na minha própria infância. É sempre instrutivo.
 
Como aprendemos o que era certo ou errado, aceitável ou reprovável? Como escolhíamos o que fazer nos momentos que exigiam decisões rápidas? Como agíamos quando alguma coisa escapava do previsível? Ligávamos para o celular da mãe?
 
Felizmente não fazíamos isso. Quando eu tinha 10 anos, celular não existia. Tampouco tínhamos telefone em casa. Comunicações de emergência eram feitas pelo orelhão. Sempre brevemente porque a ficha caía e deixava o recado pela metade.
 
Inúmeras vezes tive de decidir por conta própria. E depois arcar com as consequências. Às vezes tomava broncas homéricas da minha mãe na volta para casa. “Você não podia ter feito isso....O que você tem na cabeça?”. 
 
Hoje acho graça e agradeço pelas broncas, pelas lambadas que a vida me deu e por ter tido tantas oportunidades de decidir. De erro em erro, de acerto em acerto, aprendi a não ter medo de arriscar. 
 
Foi assim que entendi o que é aceitável socialmente e o que não pode ser negligenciado. E também pude reconhecer os pontos que não eram aceitos socialmente, mas contra os quais valia a pena me rebelar. Tudo por minha conta e risco.
Assim se constrói um ser autônomo. Não uma extensão de quem veio antes. Criamos filhos para o mundo, por mais doloroso que esse fato possa parecer.
 
(Cristiane Segatto escreve às sextas-feiras)
 

 


Postado em 14/03/2013


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