Enem: redações debochadas expõem fragilidade do sistema de correção
Para especialistas, gigantismo da prova favorece deslizes como os descobertos recentemente.
E dificulta a contratação de corretores de qualidade
 
Nathalia Goulart
 
Desde que se tornou um grande vestibular, em 2009, o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) não dá sossego a seus participantes: os problemas com a avaliação já variaram do furto de provas a erros de impressão. Neste ano, a novidade é que a falha só veio à tona bem depois da realização da prova - depois, até mesmo, de os candidatos terem utilizado as notas para ingressar em universidades. Na semana passada, foram tornadas públicas redações em que candidatos enxertaram em seus textos receita de macarrão instantâneo e até um trecho do hino do clube de futebol Palmeiras. A primeira obteve nota 560 e a segunda, 500 — dos 1.000 pontos possíveis. Os responsáveis pelo Enem vieram, então, a público para garantir que as notas atribuídas aos textos debochados obedeceram o regulamento da prova. Só depois, decidiram atuar (a posteriori, mais uma vez), prometendo que a partir deste ano os "engraçadinhos" poderão ser punidos com nota zero. Professores e educadores apontam, contudo, que mais grave é o que o episódio revelou: fragilidade do sistema de avaliação das dissertações. 
 
Para Eduardo Antônio Lopes, professor de redação do Anglo Vestibulares, está correta a decisão de não anular as redações citadas. Isso porque tal situação não estava prevista em regulamento. O professor considera evidente, contudo, que houve supervalorização dos pontos positivos dos textos. Ou pior: o corretor pode ter lido somente o primeiro e o último parágrafos. "As duas hipóteses mostram que se trata de uma correção de má qualidade", diz Lopes.
 
Segundo o professor, levando-se em consideração as cinco competências previstas no edital, que devem servir de guia aos corretores, um texto como o do estudante que dedicou quase um parágrafo ao hino do seu time do coração receberia, no máximo, 400 pontos. “Em uma avaliação criteriosa, eu atribuiria nota 360”, diz Lopes. Isso porque, apesar de tratar brevemente do tema proposto (a imigração para o Brasil no século XXI), o texto não apresenta coesão nem progressão textual, faz uso de vocabulário pobre e não propõe uma intervenção ao problema, além de apresentar uma inserção totalmente despropositada (o hino do clube). “Mesmo seguindo todos os critérios apresentados pelo MEC, a penalização desse candidato deveria ser muito maior do que realmente foi.” Falha, portanto, dos corretores.
 
O próprio MEC, ciente da dificuldade de estabelecer um padrão de qualidade na correção das dissertações, patrocinou melhorias no sistema. Segundo dados do Inep, autarquia responsável pelo exame, o número de corretores contratados em 2012 para a missão aumentou 40% em relação ao ano anterior. Houve incremento também na folha de pagamento: 2,35 reais por redação, ante 1,60 real pago em 2011. Novos critérios foram determinados e uma cartilha de orientação foi distribuída aos estudantes. As medidas são bem-vindas e minimizam as chances de erro, mas não são suficientes, pois não combatem uma questão primordial e tão antiga quanto o novo Enem: o gigantismo da avaliação nacional, um problema que até agora o MEC evitou combater. 
 
Em 2012, mais de 4,1 milhões de pessoas fizeram a redação do Enem nas cinco regiões do país, mobilizando um exército de 5.692 corretores, 234 supervisores, 468 auxiliares e dez subcoordenadores regionais. “É difícil arregimentar tantos profissionais de qualidade”, diz a professora de língua portuguesa Ednir Barbosa, do cursinho Oficina do Estudante. “A prova acontece uma época do ano em que os profissionais que têm experiência nesse tipo de trabalho estão trabalhando dos demais vestibulares. É uma atividade em que experiência e treinamento contam muito.” Em concursos menores, manter o rigor no recrutamento de mão de obra especializada é uma tarefa mais fácil. Na Fuvest, por exemplo, uma das provas mais tradicionais do país, são necessários apenas 60 corretores para 35.000 dissertações.
 
Com um time menor de corretores, fica mais fácil garantir o treinamento necessário à padronização da correção. No vestibular da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), por exemplo, os interessados em participar da banca examinadora participam de uma oficina de redação no início do ano. Na sequência, passam por entrevista individual, seguida de análise de currículo. Uma vez aprovado, o corretor passa por capacitação presencial de 40 horas. Após a aplicação da primeira fase do vestibular, um novo treinamento presencial é realizado.
 
No Enem, toda a orientação é feita à distância, havendo apenas um único encontro, em que os corretores recebem as últimas instruções. Além disso, nos vestibulares como o da Unicamp, toda a equipe de professores trabalha ao mesmo tempo, dividindo o mesmo espaço disponibilizado pela organização do concurso, o que contribui para a consistência da correção. Isso é impossível no Enem. “Garantir que haja um padrão nas notas é o maior desafio do exame hoje. Se, por um lado, é difícil reproduzir as condições de outros concursos na avaliação nacional, por outro, é urgente evitar discrepâncias como as vistas nas redações divulgadas recentemente”, diz Eduardo Antônio Lopes. 
 
A solução para evitar as distorções passa por um caminho conhecido por todos, inclusive pelo MEC: a aplicação do Enem em mais de uma data. Dessa maneira, um número menor de estudantes seria submetido ao exame a cada edição, reduzindo o volume de redações a serem corrigidas. Assim, menos profissionais seriam mobilizados, o que permitiria fiscalização mais rígida do trabalho. É o que acontece com o SAT, o Enem americano, realizado várias vezes ao ano. Em várias ocasiões, o MEC prometeu que implementaria o sistema, mas até hoje não foi capaz de tirar o projeto do papel. Enquanto isso, a cada ano, aumenta a insegurança de milhares de estudantes. Resume Daniela Aizenstein, professora de redação do cursinho CPV : “Para os jovens, fica a sensação de que não basta ser bom, é preciso contar com a sorte. Em cursos concorridos, como os de medicina, um ponto na média final pode separar os aprovados dos reprovados. Uma correção mal feita só aumenta a insegurança.”
 
Fonte: Veja.comTexto publicado em 25 de março de 2013. 
 


Postado em 09/05/2013


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