Entrevista com James Gleick, especialista em informação
O escritor diz que a sensação de estarmos diante de uma enxurrada
de informações novas é permanente na evolução humana
 
FELIPE PONTES
 
O escritor americano James Gleick não pode ser acusado de falta de ambição. Há sete anos, ele decidiu escrever um livro sobre a história da informação e sua influência sobre a humanidade – da invenção da escrita cuneiforme aos programas de computador que tornaram possível a era digital. O resultado de sua extensa pesquisa está em A informação: uma história, uma teoria, uma enxurrada (Companhia das Letras, 528 páginas, R$ 59,50). No livro, Gleick analisa a importância das inovações que revolucionaram a relação do homem com a informação e afirma que, apesar dos avanços, ainda somos incapazes de processar e interpretar todos os dados que produzimos. “Esse é um desafio constante”, diz. “Hoje, somos participantes ativos de um processo que consiste em filtrar a informação útil da inútil e ajudar os outros a fazer o mesmo.”
 
ÉPOCA – Como o senhor definiria informação?
James Gleick – Não gosto de definições curtas. Mesmo que fosse divertido ter uma resposta fácil, a informação é um assunto rodeado por muitas visões diferentes. Esse é o ponto de meu livro. De certa maneira, há uma definição científica de informação. É algo que você pode medir em termos de bits, a unidade fundamental de informação. O bit, você absorve ou não. Nesse sentido, a informação é sempre uma surpresa. Cada bit de informação é algo de que você não sabia antes. Mas não precisamos dessa definição para suprir todos os propósitos. Em nosso tempo, nos importamos com a informação que tem significado, o conhecimento. Nem sempre informação e conhecimento são a mesma coisa.
 
ÉPOCA – A abundância de informações garante sabedoria e conhecimento?
Gleick – Não. Informação não é conhecimento, e conhecimento não é sabedoria. Qualquer um que estuda a história da teoria da informação sabe disso. Esse é o paradoxo que meu livro aborda. Sabemos que temos acesso a mais informação do que em qualquer outro momento da história humana. Temos a habilidade de encontrar qualquer resposta factual, simplesmente ao digitar uma pergunta na internet. Mas ninguém acredita ser mais inteligente por isso.
 
ÉPOCA – Os computadores e os smartphones mudaram o comportamento humano?
Gleick – Sim. É algo que temos de ter em mente enquanto vivemos nossa vida e gastamos nosso tempo. Não vejo isso como algo assustador. Quando a calculadora eletrônica foi inventada, muitos reclamaram que os filhos não aprenderiam matemática e que a próxima geração de físicos estava fadada a não existir. Hoje, as pessoas reclamam que não se lembram mais de números de telefones, endereços e fatos. Há alguma verdade nisso. Antes, as pessoas memorizavam grandes quantidades de informação, e isso não acontece mais. Se querem dizer que isso é uma perda para a humanidade, não argumentarei contra. Mas há benefícios, apesar de isso mudar nossa visão do que somos. A internet é uma prótese nossa, faz parte da gente. Quando repassamos alguma tarefa a uma tecnologia nova, ganhamos tempo para lidar com atividades criativas.
 
ÉPOCA – Muita gente grava vídeos e imagens de quase toda a sua vida. Aparelhos novos, como o Google Glass (tela conectada à internet, pendurada no canto do olho), tornaram isso ainda mais fácil. Registrar esse tipo de informação é relevante?
Gleick – Não quero insultar ninguém que faça isso, mas não faz sentido algum. O problema é encontrar tempo para viver o presente, em vez de ficarmos obcecados com o que vivemos no passado. Antes, as pessoas guardavam jornais. Claro que é importante nos lembrarmos do que fizemos e sentimos em determinados momentos. Mas, até certo ponto, é saudável deixar as coisas de lado. Agora que é fácil se lembrar de tudo, teremos de reaprender a habilidade de esquecer.
 
ÉPOCA – Quais foram as revoluções de informação mais importantes na história humana?
Gleick – De certa maneira, essa é a história de meu livro. Ele é sobre os métodos, hábitos e tecnologias da humanidade para lidar com informação. Tudo começou com a invenção do alfabeto pictográfico e, em seguida, da escrita em termos de números e símbolos alfabéticos, na forma de palavras. Outra revolução enorme foi a prensa de Gutenberg, que transformou o mundo mais do que pensamos. Sem ela, simplesmente não haveria revolução científica nem a difusão do protestantismo na Europa. Outras invenções importantes, cada uma a seu tempo, foram o telégrafo, o telefone, o computador e a internet.
 
ÉPOCA – Em que período histórico a humanidade testemunhou seu maior salto de informação?
Gleick – A resposta fácil seria dizer que estamos no meio dela, com bilhões ao redor do mundo continuamente interconectados. É uma experiência nova na história humana, e somente estamos começando a entender aonde chegaremos com ela. Sei que vivemos um período como nunca visto anteriormente, mas tudo faz parte de um processo contínuo de aprendizado. Há 150 anos, quando o telégrafo surgiu, muitos afirmaram que aquela tecnologia aniquilaria o tempo e o espaço e criaria uma comunidade global, assim como a internet agora. Por isso, é importante que, mesmo maravilhados com o que acontece hoje no mundo, saibamos que nossos ancestrais também ficaram atônitos com as tecnologias que surgiram em sua época.
 
ÉPOCA – O volume de dados digitais hoje no mundo é estratosférico. Estamos próximos de conseguir processar e interpretar todas essas informações?
Gleick – Não, estamos bem longe. E não há problema nisso. Pelo contrário, vejo isso como algo que estamos continuamente tentando processar. Não acredito que devemos procurar uma resposta mágica, na forma de algum superalgoritmo que finalmente nos colocará no comando de toda informação de que precisamos. Atualmente, somos participantes de um processo que consiste em filtrar a informação útil da inútil e ajudar os outros a fazer o mesmo. Esse é um desafio constante, não um problema a resolver de uma vez por todas.
 
ÉPOCA – Há muita expectativa em relação à computação quântica. Ela pode solucionar o problema da interpretação dos dados digitais?
Gleick – Não. E não estou dizendo que a física quântica não seja importante, até porque tenho certeza de que ela ainda proporcionará grandes descobertas. Ninguém está numa posição para dizer de que ramo da ciência virá a próxima descoberta importante. Ainda há coisas importantes a descobrir na física quântica, em genética, nas várias ramificações da ciência da informação, e teremos grandes surpresas em todas. É difícil saber em qual.
 
ÉPOCA – O que há de novo no conceito de big data?
Gleick – Big data é uma palavra da moda, uma maneira de falar que temos acesso a quantidades enormes de informação não filtrada em vários domínios. Entre seus exemplos estão os milhões de mensagens que aparecem todos os dias no Twitter e os genomas sequenciados em vários laboratórios pelo mundo, compilados e colecionados em vários supercomputadores. As pessoas veem o big data como um desafio, porque todo mundo acredita que existam versões da verdade em meio a esse amontoado de dados, e investigam que meios poderíamos usar para manipulá-los. Isso tudo é verdade. Mas, novamente, vejo isso como um processo contínuo com que sempre nos envolvemos. A humanidade sempre lidou, de certa forma, com o excesso de informação, num volume difícil para qualquer indivíduo absorver. Agora, há mais ainda.
 
ÉPOCA – Como podemos enfrentar esse desafio?
Gleick – Estamos fazendo isso todos os dias, enquanto julgamos a importância do que lemos ou quando aprendemos a ser céticos, nos tornando consumidores de informação mais sofisticados. Conscientemente ou não, já usamos filtros para avaliar a informação. Esse filtro pode ser uma ferramenta de busca na internet, como o Google. Pode ser também as pessoas que seguimos no Twitter, blogueiros, editores de jornais ou curadores de museus. Essas pessoas têm julgamentos criativos em que nós, como consumidores de informação, aprendemos a confiar. Não há resposta óbvia. Temos de tomar nossas próprias decisões. 
 
* Publicado na Revista Época em 14/06/2013. 


Postado em 14/06/2013


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