Análise: Limites dos filhos ou dos pais?
Uma criança sem limite é fruto de uma família sem limites
 
Cada vez mais é possível assistir a crianças que crescem sem internalizar o conceito de limite porque de fato não o aprenderam na experiência, isto é, não o vivenciaram junto aos adultos responsáveis. Ter limite e respeitar o limite do outro só é apreendido quando, desde pequena, a criança tem pais que conseguem suportar o fato de que ela passará por privações: não se pode ter tudo, não se pode ganhar sempre.
 
Como essas experiências acontecem? Desde os primeiros momentos da relação da criança com a mãe. Se a mãe tem a pretensão de não falhar e ainda acredita que é sua função suprir todas as necessidades da criança, certamente assistirá mais à frente uma série de dificuldades desta criança na sua relação consigo mesma e com o mundo.
 
Ao internalizar a idéia de limite, a criança em primeiro lugar construirá um limite para si própria: é comum que se coloque em risco nas brincadeiras ou procurando atividades perigosas. Isso acontece porque, de fato, não consegue pensar até onde o seu corpo pode ir. É um corpo elástico que, na sua ilusão de onipotência, permite a ela, por exemplo, andar em cima de um muro estreito como se não existe em hipótese alguma a possibilidade de cair. O corpo introjetado pela criança que com muita freqüência se coloca em situações como esta passa a ter o tamanho que lhe convém.
 
Outro exemplo em relação aos problemas relacionados ao limite é a compulsão alimentar. Uma criança que come compulsivamente alimenta o corpo nas suas parcialidades, isto é, come com os olhos, com as mãos, come com a boca, come pelo outro. E come muitas vezes para o outro não comer.
 
Uma criança sem limite é fruto de uma família sem limites. O problema maior é quando os pais não percebem ou não podem perceber que são eles os maiores responsáveis por não oferecer esse espaço de contenção à criança. Muitas vezes é a escola que vai chamar a família quando, mais à frente, esta falta de limite começa a aparecer como indisciplina, falta de educação, problemas de aprendizagem. E às vezes, quando a criança ou o adolescente é encaminhado para análise pela escola em função de um dos problemas acima citados, são os pais que precisam ser acompanhados terapeuticamente.
 
Desta forma, é preciso fazer um mergulho dentro de si mesmo (e uma análise pode ajudar bastante neste processo) e encontrar na sua própria história de vida o que representa essa situação de ter que dar limite e não conseguir, ter que dar limite e sofrer tanto, não suportar ver o filho chorando porque perdeu algo ou buscar uma recompensa para que não sofra pela perda momentânea. É necessário buscar, de um modo geral, o que causa dificuldade em lidar com o tema em questão.
 
Não é fácil perceber as causas que podem estar relacionadas às dificuldades que se tem na relação com o filho, no entanto, não se pode paralisar diante delas. Vejamos um exemplo: uma mãe, numa sessão familiar, traz lembranças do quanto se sentia tolhida na sua infância pelos seus pais (não podia falar durante o jantar, não podia ter sobras no prato, não podia sair de cabelo molhado) e hoje percebe que grande parte da dificuldade em educar os filhos tem relação com a forma como foi educada. Essa mãe, em uma de suas elaborações, fala: "Acho que tento libertar-me da minha própria infância através da infância dos meus filhos".
 
É preciso pensar nos "porquês" que existem por trás das nossas ações. Por que é difícil suportar ver a criança chorar ou ficar triste quando alguém lhe diz não? Por que a mãe desautoriza o pai quando ele diz não a um determinado pedido do filho? Por que volta atrás nas suas próprias decisões a partir da insistência do filho, mesmo sabendo que não deveria?
 
Dar limites, para alguns pais, é tão ameaçador que muitas vezes fecham os olhos para situações onde a criança ou o jovem podem sofrer conseqüências sérias, como por exemplo: ceder o carro para um menor de idade sem carteira, "fingir" que não está vendo o jovem chegar com um objeto que não lhe pertence, fingir que não está vendo a criança comer um doce que não pode antes do almoço, deixar o adolescente dormir uma tarde inteira mesmo depois de saber que ele terá uma prova no dia seguinte.
 
É preciso pensar o que o "não" significa para os envolvidos na educação de crianças. Pais que não dão limites estão colaborando na formação de pequenos e grandes tiranos.
 
Mônica Donetto Guedes é psicanalista, psicopedagoga e pedagoga do Apprendere Espaço Psicopedagógico.
 
Fonte: Bolsa de Bebê 


Postado em 25/08/2013


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