O enigma do mercado de trabalho: qual profissão escolher?
A resposta pode parecer difícil, mas com uma boa orientação, a possibilidade de acerto é maior
 
É chegada a hora de prestar o vestibular. Diploma do Ensino Médio garantido, conteúdos curriculares devidamente estudados, livros obrigatórios lidos, técnicas de redação aprimoradas, nota do Enem, calendário das provas. Tudo pronto, certo? Errado! Quase tudo pronto. Sobrou uma última dúvida, aquela que muitas vezes persiste durante vários anos da vida adulta: Qual profissão seguir? Em que área apostar?
 
A indecisão sobre a profissão é comum durante a adolescência, tanto que muitas escolas começam a fazer um trabalho de orientação junto aos alunos já no 9º ano do Ensino Fundamental.
 
Em alguns casos, os alunos recorrem às mais diversas alternativas. Quem nunca se deparou com aqueles testes publicados em revistas, na internet ou até mesmo enviados por e-mail, que prometem resolver o problema apenas com alguns “sins”, “nãos” ou “xizinhos”, e, num passe de mágica, descobre-se a profissão ideal?
 
O cuidado nessas horas deve ser redobrado, porque, muitas vezes, pior do que ainda não saber qual a profissão seguir é escolher de maneira errada, acreditando em métodos sem muito, ou nenhum, critério científico. Quando se fala em orientação profissional, existem metodologias diferentes, e isso deve ser observado.
 
Muito além do teste
 
Em algumas atividades que buscam auxiliar na escolha acerca da profissão, o jovem pode até responder determinados testes, mas, também, participa de entrevistas, dinâmicas de grupo e conhece o universo dos cursos.
 
“Na linha que adotamos, o teste pode ser uma ferramenta, mas não é a única, pois não tem habilidades mágicas ou preditivas e por si só não responde a uma série de dúvidas que o jovem possa ter”, comenta o psicólogo Leonardo Lopes, membro da comissão de psicologia e educação do Conselho Regional de Psicologia de São Paulo, na qual é responsável pela área de orientação profissional. “Partindo desse pressuposto, existem testes diferentes, alguns mais adequados, outros menos, mas isso é opção de cada psicólogo, de cada orientador profissional, fazer uso ou não desses testes”, afirma Lopes, que também realiza atividades de orientação profissional em escolas.
 
Segundo ele, existem 94 testes aprovados no Brasil para uso dos psicólogos. Destes, apenas alguns, cerca de seis, são definidos como parâmetros para orientação profissional. Mas somente os psicólogos podem aplicar testes psicológicos e metodologias de orientação psicológicas. É uma regulamentação federal.
 
Para a psicóloga e pesquisadora Maria da Conceição Uvaldo, professora e doutoranda em Orientação Profissional, área na qual também presta consultoria para escolas e empresas, boa parte dos instrumentos que são utilizados atualmente não tem validade científica nenhuma.
 
Há 25 anos atuando no Serviço de Orientação Profissional do Instituto de Psicologia da USP, Maria da Conceição afirma que o teste não é, em hipótese alguma, um instrumento a ser usado de forma aleatória ou isoladamente.
 
“É importante entender que teste é um instrumento do psicólogo. Só o psicólogo pode usar um teste psicológico ou um teste de orientação profissional, porque só ele está habilitado para entender aquilo. Dessa forma, o teste pode ser um estímulo para o jovem pensar em algumas coisas, pode ser um exercício ou até um disparador. A maior parte desses testes que aparecem em revistas ou sites são, na verdade, exercícios e brincadeiras que não têm validade científica, mas que podem fazer com que o indivíduo goste da idéia e vá buscar mais informações”, explica Maria da Conceição.
 
As influências na hora da escolha
 
Nesse processo de escolha, muitas são as influências externas que o jovem acaba sofrendo. O diretor do NACE – Orientação Vocacional, Silvio Bock, pedagogo e doutorando em Educação pela Unicamp, explica que a escola, os professores, os pais e suas profissões, os amigos, entre outros fatores, podem interferir nas expectativas profissionais.
 
“Quando eu converso com os pais, pergunto por que eles deram aqueles nomes para os seus filhos, e eles percebem que esses nomes já carregam em si expectativas. Depois vem a questão da escola. Escolhem aquela que contribuirá de melhor maneira para a construção do futuro do filho. Eu digo sempre que não tem a melhor escola, e sim a escola ideal para seus valores, para sua concepção de vida, sua concepção de pessoa. Ou seja, os pais carregam expectativas sobre os filhos, e isso não é negativo”, comenta o pedagogo.
 
Outro fator que influencia a decisão quanto à profissão é a questão do gênero. Ou seja, ainda é comum entre muitas pessoas a suposição de que determinada profissão deve ser exercida por mulheres, enquanto outras, por homens.
 
Bock analisou os dados sobre os candidatos inscritos para a Fuvest. Segundo ele, 70% dos candidatos da área de Exatas são homens, 70% da área de Biológicas são mulheres, enquanto 55% dos candidatos para a área de Humanas, um pouco mais neste ano, são mulheres.
 
“A construção de gênero é um forte peso não consciente na decisão das pessoas. Quando eu mostro esses dados para os jovens que vêm fazer orientação e peço uma explicação, eles respondem que é uma questão de gosto pessoal, ou seja, é uma escolha individual. Mas aí eu falo dessa tendência social. Na verdade, eu estou perguntando por que as mulheres escolhem mais determinada área, e os homens, outra”, explica Bock. “O papel da orientação profissional, em minha opinião, é justamente esse. Não digo que a pessoa deva seguir uma carreira que vá contra o padrão de gêneros, o qual reflete a sociedade em que vivemos. Nossa tarefa, então, é desnaturalizar os processos que se acreditam ser naturais. Isso é historicamente construído e, portanto, pode ser mudado.”
 
A escola, principalmente a particular, também tem uma influência muito importante na decisão do aluno. “Nós até já conhecemos o que algumas escolas valorizam. O valor da escola também é dado, às vezes, pelo número de alunos que passaram no vestibular para medicina da USP, por exemplo. Já ouvi alunos dizendo que a escola não apoiou a decisão dele sobre o curso para o qual iria prestar vestibular, outros casos em que a escola chamou os pais para contestar a decisão do jovem”, comenta Maria da Conceição.
 
Também existe a possibilidade de os professores transmitirem informações equivocadas ao aluno sobre as áreas de atuação de determinadas profissões ou de falarem da própria carreira denegrindo ou supervalorizando. “O jovem, às vezes, não tem a dimensão de que tal situação refere-se a um profissional, que teve uma história de vida, uma experiência com determinada profissão e que isso pode ou não se repetir se escolher o mesmo curso”, lembra Lopes.
 
Para Bock, a primeira tarefa fundamental do professor em relação à escolha profissional dos alunos é a de conquistá-los para a sua área. A partir do 6º ano do Ensino Fundamental, os professores – de química, física, matemática, história, geografia etc. – são representantes de suas áreas, pois, a partir deles, os alunos fazem ilações de como é determinada carreira. “Se ele ganha o aluno para a química, por exemplo, ele está trabalhando com a liberdade de escolha desse jovem. Quando eu falo ganhar esse aluno para a química, refiro-me ao fato de esse jovem perceber o que é a química, de gostar da disciplina, de não a achar uma coisa absurda.”
 
E isso não acontece apenas em relação aos professores. Independentemente da situação socioeconômica, os jovens pensam na profissão pela imagem que construíram a respeito dela, e essa imagem refere-se, geralmente, a uma pessoa que exerce determinada profissão.
 
“Quando o adolescente fala que quer ser engenheiro, não está se referindo às atividades do engenheiro. Ele está dizendo que quer ser engenheiro tal qual uma pessoa que ele conhece e quer ter a vida que essa pessoa tem, seja pelo poder de consumo, seja pela relação que esse profissional estabelece com os outros etc. Isso, nas minhas pesquisas de mestrado e doutorado, fica evidente”, diz o orientador. “As pessoas têm imagens das profissões, que não são nem falsas nem verdadeiras, são imagens que puderam construir em sua história de vida. Esse é o ponto de partida de qualquer decisão. A tarefa da orientação profissional é mostrar que é um ponto de partida, mas não pode ser um ponto de chegada. Essa imagem é sempre parcial, é sempre um pedaço da realidade. Temos de ampliar essa visão.”
 
O processo de orientação profissional
 
Apesar de não existir uma idade certa para se buscar um serviço de orientação profissional, esse momento é determinado socioculturalmente. No Brasil, escolher profissão de nível universitário acontece ao fim do Ensino Médio.
 
“Nesse momento, ou seja, durante o Ensino Médio, fazer uma orientação profissional seria fazer o jovem dar uma olhada na sua história, como ele se construiu até o momento. Que habilidades, que interesses, que características pessoais ele apresenta naquele momento. O jovem faz uma atividade de autoconhecimento. Ele deve conhecer as possibilidades profissionais, ter informações sobre as profissões”, diz Bock.
 
Além disso, o jovem necessita ter informações sobre o entorno dessa decisão, ou seja, pesquisar sobre as condições econômicas, políticas e sociais da região, do país, do mundo em geral, bem como sistema de ingresso na universidade, oferta de bolsa de estudos. Com base nisso tudo, a idéia é que ele faça um projeto de vida, que pode envolver até mudanças de ordem pessoal.
 
Sobre mudanças de ordem pessoal, Bock se refere a buscar habilidades que o indivíduo ainda não possua. Por exemplo: se ele quer exercer uma profissão que exija habilidade para desenho, mas não sabe desenhar, então deverá aprender. Se é introvertido, e a profissão demanda extroversão, pode procurar trabalhar isso em um curso de teatro ou em uma terapia. “Na orientação, eu digo para esse jovem que é uma questão a mais para ele pensar. Que tal desenvolver essa habilidade? É possível, pois a sociedade oferece recursos para você desenvolver. É fácil? Não, faz parte da decisão do indivíduo enfrentar ou não isso”, lembra.
 
Ainda segundo Bock, os processos de orientação profissional que trabalham com essa perspectiva são poucos, pois predominam ainda os modelos tradicionais, como os testes ou a metodologia que faz um jogo de encaixe entre o perfil do indivíduo e o perfil das profissões.
 
“No fim de um bom trabalho de orientação profissional, espera-se que o jovem consiga dizer para nós qual é a sua escolha, e por que e como embasou sua escolha. Percebe-se um amadurecimento, porque ele tem de pensar nele mesmo e fazer projeto. Observa-se uma maior facilidade para se fazer escolhas. Mas basicamente, espera-se que ele saia mais definido, com mais informações, inclusive sobre si próprio”, afirma Maria da Conceição. “Trabalhos de orientação que só dão um papel escrito o nome da profissão a seguir, pouco trabalhou e pouco tem de validade. Pode ser que depois o jovem até escolha aquela profissão, mas ele precisa se apropriar dessa escolha, saber por que chegou nela.”
 
Nessa perspectiva de trabalho de incentivar o jovem a construir um projeto de vida, não é o orientador que vai levantar dados e fazer uma devolutiva ao indivíduo. A relação é invertida, e quem vai chegar a uma determinada decisão é o próprio jovem. E essa decisão pode ser até a de não fazer um curso de nível superior.
 
“Nós incentivamos a construção do projeto profissional da pessoa, que não necessariamente pode ser finalizado com a escolha de um curso. O jovem pode chegar à conclusão que precisa pesquisar mais, se preparar melhor, que é necessário estudar mais para o vestibular”, acredita Lopes.
 
Durante o trabalho de orientação profissional, Bock revela que ainda questiona os dois mitos que existem na sociedade em relação à escolha. O jovem trabalha com o mito do start: um dia acorda decidido e sabe o que vai fazer. Outro mito, mais presente entre os pais, é o da maturidade, ou seja, os jovens se desenvolvem e amadurecem, ocasião em que estarão prontos para a escolha, que acontecerá de maneira natural.
 
“Nós dizemos que não existe nada disso. Nossa perspectiva é crítica, escolha é ruptura, não é continuidade. Não existe momento ótimo, a escolha é dada quando a sociedade determina que ela deva ser feita. Nosso trabalho combate esses mitos, e apresentamos nossa visão de escolha. Escolher significa pensar em tudo o que se viveu, pensar nas profissões que existem e conhecer o entorno delas, para aí sim fazer um projeto. Diremos, em última instância, que escolha é um profundo ato de coragem. Coragem de decidir entre algumas possibilidades que são atraentes, e coragem para assumir o compromisso de fazer de tudo para isso dar certo”, finaliza Bock.
 
Fonte: Portal Guia Escolas. Publicado em 01/01/2008


Postado em 03/09/2013


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