Análise: Nem só de brinquedo é feito o sorriso de uma criança
Há várias datas comemorativas no Brasil. Algumas têm significado oriundo de uma tradição religiosa cristã (Páscoa, Natal, Semana Santa), outras são laicas na sua origem (ano novo, dia das mães, dia dos pais). Neste último grupo, encontra-se o dia da criança.
 
Diversamente do que sucede com a festa natalina em dezembro, o dia da criança não possui uma data de comemoração uniformizada no ocidente. Ela é variável conforme se trate de um país ou outro. E varia também sua dimensão de importância junto ao folclore social comemorável. Nos Estados Unidos, por exemplo, a sociedade prestigia muito mais a festa do Halloween, ficando o dia das crianças com pouca ou nenhuma repercussão. No Brasil é diferente, pois a comemoração da data é fortemente estimulada pela mídia. O motivo é de uma obviedade flagrante: as crianças têm um potencial consumidor impressionante, máxime quando se trata de brinquedos.
 
Pois foi a indústria dos brinquedos que fez com que o dia da criança passasse a integrar o rol de datas comemorativas anualmente celebradas no Brasil. Na verdade, a homenagem já existia desde 1924, época em que o então presidente da República Arthur Bernardes baixou o decreto 4.867, para instituir oficialmente o dia 12 de outubro como o dia da “Festa da Criança” em todo o território brasileiro. Mas, como sói acontecer com determinações burocráticas sem respaldo social, a data só existia no papel.
 
Ninguém a levava a sério. A situação mudou, contudo, na década de 1960, quando a indústria de brinquedos nacional investiu pesadamente em propaganda, incentivando a comemoração. O sucesso da campanha propagandística foi tão grande que chamou a atenção de toda a população para a data. E assim o dia 12 de outubro ingressou no imaginário social: sob a influência direta da indústria de brinquedos.
 
Um dia das crianças anti-indústria de brinquedos
 
A observação histórica acima é importante para revelar as consequências de a indústria ter sido a responsável por introduzir a celebração do dia da criança nas efemérides anuais do Brasil. A primeira consequência é a total falta de significado humano da data: ninguém pensa em celebrar o dia da criança como o dia de vindicar o respeito aos direitos dos infantes (alguém duvida que eles estejam a ser cotidianamente violados?). A segunda consequência é a de converter, como num passe de mágica, toda a comemoração em um anelo consumista: dia da criança só é dia da criança se tiver brinquedo. Não sem razão as propagandas veiculadas amplamente no período aludem à diversão e ao prazer infantis em ambientações onde aparecem pequenos seres felizes cercados de toda sorte de bugigangas. Naturalmente, o marketing visa a um duplo efeito: estimular desde a mais tenra idade o impulso consumista ao passo que reforça o ideário de uma sociedade de massas que associa, de maneira estúpida, paternidade/maternidade com consumo. Não há como fugir: se um genitor opta em não dar presente ao filho nessa data, a criança será de toda sorte achincalhada — muitas vezes na própria escola, onde desde cedo se aprende que “ter o brinquedo mais legal” implica ser um infante superior, visto que mais feliz. Além disso, os pais também sofrerão. Mui provavelmente serão acusados de avaros (“Ele não compra presente para o próprio filho!”), quando não de desalmados seres humanos sem coração (“Pai que não dá brinquedo pro filho não ama”). E aqui entra um conceito de amor altamente discutível: será que só é possível amar uma criança expressando o sentimento com bens materiais? Será que não pode haver amor por gestos ou palavras? Será que um abraço afetuoso e uma convivência amorosa não vale muito mais do que uma boneca comprada às pressas na liquidação do shopping? E aquelas pessoas que não podem comprar brinquedos? Como ficam? Acaso não amam seus filhos? Só há amor na riqueza? Ou, por outras palavras, não existe amor na pobreza?
 
Eu poderia prosseguir em reflexões dessa ordem ao infinito, agudizando o espírito crítico. Mas meu objetivo aqui é outro. Apontei um cenário. Estou convicto de que, pela intrepidez da minha pena, não hei de mudá-lo. Se me pus a expressar meu pensamento, defendendo que a paternidade/maternidade são conceitos distintos — bem distintos, por sinal — do consumo desbragado, tendendo muito mais para o afeto sincero, a prescindir de manifestações materiais para atingir sua completude, fi-lo por amor à nobre arte schopenhaueriana de argumentar. Não creio tenha forças para lutar, sozinho, contra toda a sociedade brasileira que, não bastasse acatar o engodo de uma comemoração forjada pela indústria, condena impiedosamente à execração social aquele que não compactua com o moto mercadológico segundo o qual “no dia das crianças, compre brinquedo”.
 
Assim, caro leitor, rendendo-me aos apelos consumistas que circundam o dia das crianças, quero propor algo diverso do que costumamos ouvir por aí. A proposta é a seguinte: se o dia das crianças pressupõe “ganhar presentes”, que tal se esse “presente” fosse algo útil para a vida toda? Refiro-me a um objeto material (no sentido de ser palpável), cujo entretenimento proporcionado não se cingiria apenas ao momento lúdico, mas permaneceria gravado na memória do infante por toda vida? Que presente, ao fim e ao cabo, seria esse?
 
Um presente para a vida toda
 
Diante dos questionamentos propostos, no sentido de saber qual presente corresponderia à expectação de um entretenimento infantil superior no dia das crianças, vejo-me conduzido, de maneira invencível, a uma única resposta: o livro. Livros são o melhor presente que alguém pode dar a outrem. E essa afirmação vale, evidentemente, para pais e filhos. Já que temos de aturar a imposição social de consumismo forçado no dia 12 de outubro, num movimento torpe que conjuga o verbo “amar” indissociavelmente ao de “presentear”, que tal se o presente a ser dado valesse para a vida toda? Um presente que proporcionasse muitas horas de diversão, que estimulasse a imaginação pelo exercício da leitura enquanto aperfeiçoa, paralelamente, o domínio da linguagem? Por todos esses atributos, creio que presentear as crianças com livros seja uma demonstração digna de afeto. Remete, pois, ao ato de amor de quem quer cuidar para a vida inteira — e não apenas o gesto frio e maquinal do automatismo familiar que cumpre uma convenção de efemérides ano após ano. Dar um livro de presente a uma criança significa dar a ela a sabedoria necessária para viver.
 
Logicamente, nem todo o livro há de servir qual presente para um infante. Houvesse recebido dos meus pais, ainda criança, um livro complexo como “Ensaio Sobre a Cegueira” de José Saramago, é provável que não tivesse entendido absolutamente nada (na realidade, o perigo seria entender a narrativa e crescer atormentado com a ameaça de uma epidemia súbita de “cegueira branca”). Por isso, a literatura reserva um espaço carinhoso aos escritores que escrevem livros para jovens. Seja o público alvo infantil ou infantojuvenil, essas obras não podem ser desprezadas na construção de uma formação sólida no campo das humanidades. E tanto isso é verdade que até hoje me ponho a adquirir exemplares de clássicos da literatura infantil. Não me causa nenhum desconforto ser flagrado a ler, por exemplo, contos de fadas de Hans Christian Andersen ao lado da obra de Cees Nooteboom; ou deixar-me encantar pela doçura de Alice e seu país de maravilhas, concebido por Lewis Carrol, depois de deitar os olhos na moderna poética neogrega de Konstantinos Kaváfis. Para um amante incondicional da literatura como eu, toda história é sempre um barco a navegar pelas águas plácidas da felicidade, do mais genuíno e sincero prazer.
 
Fundamentada minha proposta de presentear os filhos com livros no dia das crianças, devo advertir o leitor de que também não basta apenas a vontade de presentear. É preciso considerar a escolha, de maneira criteriosa, até para que o rebento não perca tempo de vida útil enquanto leitor. E acreditem: trata-se de um parâmetro importante se se considerar que a vida é curta — curta demais, eu diria — para dar conta da profusão de grandes obras à disposição dos que leem amiúde. Logo, não convém perder tempo com maus escritores (no fundo, maus leitores também). É preciso considerar a urgência da juventude em ter o seu “primeiro encontro” com os clássicos da literatura, como bem observou, aliás, Ítalo Calvino.
 
Comecemos com algumas propostas de definição. Os clássicos são aqueles livros dos quais, em geral, se ouve dizer: “Estou relendo …” e nunca “Estou lendo …”.
 
Isso acontece pelo menos com aquelas pessoas que se consideram “grandes leitores”; não vale para a juventude, idade em que o encontro com o mundo e com os clássicos como parte do mundo vale exatamente enquanto primeiro encontro.
 
Desse modo, embora eu não tenha filhos, dada a minha experiência de leitor com pouco mais de um quarto de século de vida, gostaria de recomendar aos pais alguns autores que, segundo entendo, são excelentes para estimular o gosto pela boa literatura e estão à disposição no mercado livreiro nacional. Ei-los:
 
1 — Monteiro Lobato: impossível iniciar uma lista de autores recomendáveis para crianças sem mencionar o nome do grande fabulista brasileiro. No início do século 20, a criatividade extraordinária de Lobato fê-lo criar o famoso “sítio do picapau amarelo” e suas inesquecíveis personagens: Emília, Narizinho, Pedrinho, Visconde de Sabugosa, Dona Benta, Tia Nastácia, Cuca e Saci. No mercado brasileiro, a editora Globo relançou a obra infantil de Monteiro Lobato em lindas edições ricamente ilustradas por nomes como Paulo Borges, Camilo Riani, Luiz Maia, Elisabeth Teixeira. Se possível, recomendo adquirir as caixas “Monteiro Lobato Infantil”, “Monteiro Lobato Conta Outra Vez” e “Monteiro Lobato em Quadrinhos” — todas dignas de cuidadoso trabalho editorial.
 
2 — Ziraldo: eis um nome de um cartunista e chargista de grande importância no movimento de resistência à ditadura militar brasileira, especialmente pelo seu trabalho no periódico “O Pasquim”. Na década de 1980, Ziraldo lançou o seu maior sucesso editorial: “O Menino Maluquinho”. E esse foi um dos personagens que mais marcou minha infância, já que eu lia o gibi regularmente ao lado das histórias em quadrinhos do Homem-Aranha e dos dramas dos mutantes dos X-Men. Na infância, eu sempre me identifiquei com o arquétipo transgressor-contestador-iconoclasta do menino maluquinho e sua paixão pela espirituosa Julieta (descrita como uma menina bastante inteligente), muito mais do que com as histórias da “Turma da Mônica”, de Maurício de Souza — outro grande quadrinhista infantil. Além disso, como eu passei quase toda a minha infância escrevendo e desenhando histórias em quadrinhos (foi na adolescência que eu passei a estudar música), o traço de Ziraldo influenciou-me muito, quase tanto quanto o do espanhol Sergio Aragonés, que é meu cartunista favorito. Recomendo adquirir, obviamente, o livro “O Menino Maluquinho” e os demais livros da série, como “A Panela do Menino Maluquinho”, “Uma Menina Chamada Julieta”, além dos livros da coleção “A Turma do Pererê”.
 
3 — Antoine de Saint-Exupéry: o francês era piloto. Não surpreende, portanto, que tenha criado uma das mais belas fábulas envolvendo o diálogo entre um aviador e um principezinho. “O Pequeno Príncipe” é o retrato infantil do dilema adulto de crescer insensivelmente, captado nas conhecidas palavras de Goethe: “O homem deseja tantas coisas e, no entanto, precisa de tão pouco”. Obra universal e obrigatória, “O Pequeno Príncipe” já se encontra em sua 48ª edição no Brasil e é publicado pela editora Agir.
 
4 — James Matthew Barrie: ele foi o criador daquela história de quem todo mundo já ouviu falar, mas nunca ninguém leu o livro. Trata-se da história de Peter Pan, o menino que não queria crescer, e das demais personagens que o cercam: Wendy, Sininho, Capitão Gancho. Graças ao cinema (e à obsessão infantil de Michael Jackson com seu rancho Neverland), são figuras muito populares. Nada melhor, então, que ler a história de Peter e Wendy, o título do original escrito pelo escocês J. M. Barrie. Publicado em 1911, o livro de Barrie ganhou em 2012 duas excelentes edições no mercado brasileiro. A primeira (“Peter Pan — Edição Definitiva”, comentada e ilustrada) faz parte da (excelente!) coleção de clássicos comentados da editora Zahar, conta com tradução de Júlia Romeu, apresentação de Flávia Lins e Silva e notas de Thiago Lins. A segunda (“Peter e Wendy”) saiu pela Cosac Naify, editora que é sinônimo da mais alta qualidade editorial no Brasil. A versão da Cosac manteve o título original de Barrie, foi traduzida por Sérgio Flaksman, conta com posfácio do germanista estadunidense Jack Zipes, quarta capa assinada pela atriz Denise Fraga e é ilustrada lindamente por Guto Lacaz. É volume de luxo, é caro, mas custa muito menos do que um aparelho de celular smartphone ou uma boneca da Barbie que fala, canta e dança, em inglês e com legendas, tudo ao mesmo tempo.
 
5 — Die Brüder Grimm: os irmãos Jacob Ludwig Carl Grimm e Wilhelm Carl Grimm, mais conhecidos como “Os irmãos Grimm”, entraram para a história da literatura com seus dois volumes de contos. Mas “seus” é possessivo de força de expressão. Na verdade, a obra era a consequência de um trabalho portentoso de pesquisa que os irmãos levaram a efeito na Europa do século 19, especialmente na cidade de Hanau, situada em Hessen, um dos dezesseis Länder da Alemanha. Coube aos irmãos Grimm compilar as histórias de “contos de fadas” que circulavam no plano da estrita oralidade, convertendo-as para o plano da linguagem escrita. O resultado veio com a publicação, respectivamente em 1812 e 1815, dos dois volumes de “Kinder-und Hausmärchen” (“KHM oder Grimms Märchen”), que a editora Cosac Naify colocou à disposição dos leitores brasileiros com o título de “Contos Maravilhosos Infantis e Domésticos” (2012). A qualidade da edição dispensa comentários: a tradução direta do alemão ficou com Christine Röhrig, a apresentação sob a responsabilidade do germanista e crítico literário Marcus Mazzari, além das ilustrações do gravurista pernambucano J. Borges. É obra indispensável na biblioteca de qualquer leitor, seja criança ou adulto. Basta recordar que histórias como a de “Bela Adormecida”, “Chapeuzinho Vermelho”, “João e Maria”, “Rapunzel”, “Cinderela” e “Branca de Neve” saíram desses volumes de contos.
 
6 — Henrique Pinto: foi o maior professor brasileiro de violão em todos os tempos. Graças aos livros do seu conhecido curso de “Iniciação ao Violão”, milhares de estudantes, incluindo a mim, puderam iniciar-se nos estudos da técnica violonística erudita. Cito-o como uma sugestão peculiar aos pais cujos filhos estejam dispostos a estudar música e, em particular, o violão erudito. Henrique Pinto escreveu um livro único, adotado em vários conservatórios da Europa, chamado de “Ciranda das 6 Cordas: Iniciação Infantil ao Violão”, publicado pela editora Ricordi. Trata-se de um autêntico método de estudos violonísticos para crianças, muito útil para quem está a começar sua alfabetização musical na leitura das partituras e a desenvolver a coordenação motora necessária para a execução das peças no instrumento. Como Henrique Pinto faleceu em 2010, esta é também uma forma de homenagear o professor que tanta contribuição deu à educação musical no Brasil — incluindo a das crianças.
 
Essas foram, assim, algumas obras que eu indico aos pais que desejem ver seus filhos iniciados na nobre arte literária. Alguém poderia objetar que sou mui jovem para arvorar-me em tutor de leituras de outrem; aos incrédulos responderia que tudo o que peço é um voto de confiança do leitor. Além disso, ainda que eu viesse a indicar outras centenas de obras que li e recomendo, tal seria demonstração desnecessária de pedantismo e fugiria ao propósito que me animou a escrever neste 12 de outubro. E qual foi mesmo esse propósito? Simples. Lembrar que, no dia das crianças, também é possível ser feliz com um tipo “especial” de brincadeira (a leitura) e seu respectivo brinquedo (o livro). Só que o livro não é um presente qualquer. A sabedoria que ele proporciona vale para a vida toda. Então, dê um livro ao seu filho! Garanto que ele será o melhor dos presentes que se pode dar a uma criança.
 
Rafael Teodoro é advogado, crítico de música e literatura.
 
Fonte: Revista Bula
 


Postado em 12/10/2013


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