História: As cruzadas das crianças
Liderados por meninos pobres, milhares de camponeses, mendigos e doentes cruzaram a Europa,
em 1212, em procissões que queriam chegar a Jerusalém
 
por Isabelle Somma e Kako
 
Estêvão tinha apenas 12 anos. Era analfabeto e ajudava a família cuidando de cabras em Cloyes, no norte da França. Em maio de 1212, foi até Saint Denis, onde o rei Felipe Augusto havia se instalado, para entregar-lhe uma carta. O menino dizia que Jesus em pessoa lhe pedira para liderar uma nova cruzada contra os muçulmanos. Mas, diferentemente das quatro incursões anteriores à Terra Santa, o exército cristão deveria ser formado por crianças. Segundo Estêvão, com o coração e a alma livres de pecados, elas receberiam a ajuda de Deus, venceriam os infiéis e retomariam Jerusalém.
 
Não se sabe se Felipe recebeu o menino e é provável que ele sequer tenha lido a tal carta. Sabe-se porém que o monarca ficou intrigado com a pregação do pequeno pastor e, como não tinha certeza do que fazer com ele, mandou consultar os acadêmicos da Universidade de Paris. A resposta foi sábia: o rei deveria mandá-lo de volta para casa. E assim o fez. Até aqui, a história está documentada e consta dos textos dos principais cronistas da época, entre eles Vincent de Beauvais e Roger Bacon.
 
A partir daí, o que aconteceu a Estêvão virou um mito que foi recebendo enxertos aqui e ali, até se tornar um dos episódios mais emblemáticos da Idade Média, conhecido como a Cruzada das Crianças. Estêvão se tornaria uma lenda, mas não seria o único. Na Alemanha, no mesmo ano, movimentos muito semelhantes aconteceram. “Juntas, essas procissões teriam reunido cerca de 40 mil pessoas, segundo os textos medievais, mas a maioria dos especialistas acredita que é exagerado”, diz o historiador Malcolm Barber, da Universidade de Reading, Inglaterra.
 
Para entender essas manifestações populares é preciso voltar ao início do século 13. Na baixa Idade Média, as migrações eram comuns em toda a Europa. A população crescera bastante e havia muitos camponeses sem terras, migrando de vila em vila, procurando trabalho ou algum tipo de assistência. Essa multidão que vivia em trânsito ou à beira das estradas era um público farto para os pregadores messiânicos, que dominavam a cena religiosa. “O cristianismo estava ameaçado por muçulmanos e bárbaros e os movimentos de 1212 são filhos dessa crise”, diz Christopher Tyerman, professor do Hertford College, em Oxford, Inglaterra.
 
Após o fracasso da Quarta Cruzada, entre 1202 e 1204, surgiu no norte da França e no vale do rio Reno (na atual Alemanha) a idéia de que uma dessas peregrinações deveria se transformar numa nova cruzada popular composta apenas por pessoas comuns e desarmada que iria retomar Jerusalém apenas com o auxílio divino. Assim, quando Estêvão apareceu em Saint Denis, parecia uma resposta às preces daquelas almas cristãs atormentadas que perguntavam: “Por que nós não conseguimos expulsar os muçulmanos de solo sagrado?” Na lógica medieval, Deus não parecia disposto a ajudar as tropas comandadas por nobres pecadores, usurpadores e impuros. Por isso, a idéia de realizar uma cruzada com crianças, imaculadas e livres de pecados, como o próprio Jesus, fazia sentido. Se do ponto de vista religioso essa pregação não representava novidade, do ponto de vista prático era um tremendo desafio.
 
De Saint Denis a Jerusalém seria uma viagem de 4 mil quilômetros que duraria meses ou até anos. Quem seguiria uma criança numa aventura como essas? Que pais deixariam seus filhos partirem assim?
 
A marcha dos incluídos
Para Tyerman, algumas características da época podem nos ajudar a responder. Primeiro, o próprio conceito de criança era muito diferente do que é hoje. Depois, a palavra latina pueri pode ter sido mal traduzida. “O termo significa ‘homens jovens’ tanto quanto ‘crianças’”, afirma. O professor Barber concorda. “A maioria dos peregrinos não eram crianças, mas jovens trabalhadores rurais, pastores e padres”, diz.
 
Segundo Barber, já havia um movimento popular em Saint Denis antes da entrada do menino na cidade. “Estêvão de Cloyes chegou à cidade e se juntou a religiosos e peregrinos que voltavam do Oriente pregando a realização de uma nova cruzada. Na cidade, o menino, que tinha fama de milagreiro, foi considerado líder, antes que o grupo fosse dispersado pelo rei”, diz.
 
No entanto, Christopher Tyerman acha que esse pode ser o ponto final da história. “Se nos basearmos apenas em provas documentais é impossível afirmar que o grupo tenha ido além de Saint Denis”, diz. Para ele, Estêvão e seus amigos nunca chegaram ao Mediterrâneo. “As crônicas francesas da época citam as andanças pelo interior, mas nenhuma afirma que eles estiveram nas proximidades do litoral.”
 
Porém, num clássico artigo publicado em 1917, na American Historical Review, o historiador Dana Munro, de Princeton, Estados Unidos, afirmou que a turma de Saint Denis seguiu em procissão até Marselha. Munro se baseou em textos escritos entre 30 e 150 anos depois dos fatos e, segundo eles, o cortejo prosseguiu e, por onde passava, recebeu adesões de homens e mulheres de vida irregular – em outras palavras, prostitutas, vagabundos e vigaristas. Clérigos, que desejavam conhecer Jerusalém, e velhos, que queriam morrer por lá, também se uniram à trupe.
 
O historiador britânico Steven Runciman reproduz em seu livro A História das Cruzadas: O Reino de Acre alguns desses textos antigos. Eles contam que Estêvão teria sido elevado ao posto de santo e quando chegou a Vendôme, no final de julho, uma multidão já o esperava. “Eram por certo vários milhares de jovens, oriundos de todas as partes do país, muitos deles trazidos pelos próprios pais”, escreve Runciman. Dali, partiram para o litoral, onde Estêvão havia prometido fazer com que o mar se abrisse. O menino ordenou ao Mediterrâneo que lhes desse passagem, mas as ondas, é claro, continuaram a bater na praia.
 
Decepcionados, alguns voltaram para casa, mas a maioria ainda esperava um milagre. E não é que aconteceu algo inusitado? Dois mercadores da cidade, Hugo “o Ferro” e Guilherme “o Porco”, se ofereceram para levar os pequenos cruzados de navio para a Terra Santa. Sem cobrar um tostão, tudo pela glória de Deus. “Em julho de 1212, cerca de 2 mil jovens embarcaram em sete navios”, escreveu Munro. Durante 18 anos, não se ouviria mais falar deles.
 
As cruzadas germânicas
Não muito longe dali, em Colônia (na região onde atualmente fica a Alemanha), ocorria um movimento popular muito semelhante. Para Steve Runciman, trata-se do mesmo fenômeno. “As histórias de Estêvão devem ter chegado à Renânia (no vale do rio Reno) e apenas algumas semanas depois de ele ter estado em Saint Denis, um jovem camponês de nome Nicolau pregava diante do santuário dos Três Reis Magos”, afirma Runciman. Ele também dizia que o mar se abriria para que as crianças chegassem a Jerusalém e que elas converteriam os muçulmanos. As semelhanças não param por aí: “Nicolau era um menino camponês de 10 anos, humilde e religioso. Ele chegou a reunir cerca de 7 mil pessoas, mas a média de idade era certamente maior que a dos cruzados franceses”, diz Tyerman.
 
A história dos cruzados germânicos foi mais bem documentada. O bispo de Cremona, Sicardus, relata em um texto da época que o objetivo do grupo de Colônia era ir para o porto de Gênova (na atual Itália) e de lá embarcar para Alexandria, no Egito, de onde seguiria para Jerusalém. Ele também afirma que a população dos vilarejos distribuía-lhes comida e apoiava a marcha, que chegou a ter 20 mil integrantes. Por onde passavam, missas eram celebradas e mais gente seguia com eles. Mas nem as preces nem as aleluias foram suficientes para proteger aqueles meninos durante a travessia dos Alpes. Segundo os Annales Stadenses, textos apócrifos do século 13, apenas um terço do grupo conseguiu vencer as montanhas. Alguns desistiram e voltaram para casa, outros morreram de fome ou de frio.
 
Os sobreviventes continuaram a jornada até o litoral e em 25 de agosto de 1212 a procissão finalmente chegou a Gênova. Apavorado com aquele bando de maltrapilhos vagando pela cidade, o governador local deu a eles duas alternativas: quem quisesse se instalar na cidade seria bem-vindo, quem tivesse outra intenção deveria deixar a cidade. Cansadas e famintas, algumas crianças conseguiram abrigo nas casas de generosos genoveses. Cada vez menor, a procissão continuou até Pisa, onde novamente se dividiu. Segundo Runciman, alguns embarcaram em dois navios que partiram para a Palestina e também sumiram dos registros históricos. Mas a maioria seguiu com Nicolau para Roma, onde foram recebidos pelo papa Inocêncio III, que ficou comovido pela sua fé, mas constrangido com sua insensatez, e pediu que todos voltassem para casa.
 
Os registros medievais, a maioria escrita por padres e religiosos, não se importaram em relatar a volta desses peregrinos para casa. Segundo os Annales Stadenses, no entanto, o grupo se dispersou pelas aldeias italianas e jamais se ouviu falar de Nicolau.
 
Trágicos destinos
Em 1230, chegou à França um padre vindo do Palestina, com uma incrível história para contar. Ele dizia ser um dos jovens sacerdotes que seguiu Estêvão a Marselha e embarcou com ele nos navios rumo ao norte da África. Seu relato foi contado por outro religioso, Albericus Trium Fontium, o único texto da época que cita o acontecido. Segundo ele, três dias depois da partida, na altura da costa da Sardenha, uma forte tempestade atingiu as embarcações. Duas delas foram arremessadas pelos ventos e ondas fortes contra uma pequena ilha rochosa e naufragaram. Todos os passageiros e a tripulação morreram afogados. Os cinco navios restantes seguiram até Alexandria, no Egito. No desembarque, os cerca de 700 sobreviventes foram presos. A generosa oferta dos mercadores era uma armadilha e os jovens integrantes da cruzada foram vendidos como escravos no mercado da cidade.
 
O jovem padre e alguns outros que sabiam ler e escrever teriam sido comprados pelo próprio governador do Egito, Malek Kamel, que se interessava pela cultura ocidental e empregava-os como intérpretes. Outros foram levados a Bagdá e, desses, nunca mais se ouvira falar.
 
O relato de Albericus, no entanto, está longe de ser uma unanimidade. “Ele está cheio de inconsistências, mas é provável que esteja baseado em relatos verdadeiros e que seja fiel à história”, afirma o historiador Barber. Já para o professor Tyerman, porém, o texto do religioso não passa de literatura. Seja como for, Albericus não explica qual foi o fim de Estêvão, o menino de 12 anos que liderava o grupo. Teria virado escravo? Morrido no naufrágio? Até hoje, não há pistas sobre seu destino.
 
Rumo à terra prometida
Mais de 4 mil quilômetros separavam as crianças de Jerusalém
 
Nicolau saiu da Germânia e se encontrou com o papa
1. Colônia: A cidade foi o ponto de partida da marcha, que contava no início com cerca de 7 mil componentes
2. Gênova: O mar não se abriu como Nicolau prometera. Decepcionadas, algumas das crianças acabaram ficando na cidade
3. Pisa: Alguns seguidores conseguiram carona em navios com destino à Palestina. O restante continuou adiante
4. Roma: Outros, incluindo Nicolau, prosseguiram a marcha até Roma, onde se encontraram com o papa Inocêncio III
 
Estêvão, um jovem pastor de ovelhas, liderou milhares
1. Cloyes: Vilarejo de onde o pequeno pastor teria partido, já como uma procissão com integrantes mirins
2. Saint Denis: Primeira e talvez última parada. Lá, o grupo tentou ser recebido pelo rei, que ordenou a volta de todos para casa
3. Marselha: Em outra versão, eles teriam obtido carona em sete embarcações depois que Estêvão não conseguiu abrir o mar
4. Alexandria: As embarcações atracaram no porto egípcio. Lá, as crianças foram acorrentadas e vendidas como escravas
5. Bagdá: Cerca de 700 crianças teriam sido compradas pelo sultão Malek Kamel e levadas para trabalhar no palácio real
 
Quarta cruzada, grande furada
A Quarta Cruzada, iniciada em 1202, foi um dos maiores micos da história da Igreja Católica. Sob as bênçãos do papa Inocêncio III, os combatentes armados pelos ricos comerciantes de Veneza nem chegaram ao destino escolhido para o desembarque, Damieta, no Egito. Para pagar pelo transporte, o exército cruzado concordou em invadir o porto húngaro (e cristão) de Zara e entregá-lo aos venezianos. No ano seguinte, a tropa seguiu para Constantinopla, a fim de resolver uma disputa pelo controle do Império Bizantino. Um dos querelantes, Aleixo, era cunhado do imperador germânico, Felipe de Swabia.
 
O embate opôs cruzados contra bizantinos, ou seja, novamente cristãos contra cristãos. O resultado foi o saque e a completa destruição de Constantinopla. Satisfeitos com o butim, os cruzados esqueceram-se da luta conta os infiéis e voltaram para casa. Os cristãos ortodoxos não perdoariam o papa ou Roma pelo acontecido. Somente em 2001, em viagem à Grécia, o papa João Paulo II conseguiu pôr fim à pendenga, pedindo desculpas oficiais por aquela cruzada.
 
Os sem-infância
Assim como na Roma antiga, na Idade Média a infância era um período muito breve. Meninos e meninas eram considerados crianças somente até os 6 anos de idade. Dali em diante, eles já enfrentavam uma longa jornada de trabalho. As famílias de agricultores empregavam seus filhos no pesado trabalho da lavoura. De sol a sol elas participavam da plantação e da colheita. Os pais artesãos colocavam sua prole para trabalhar como aprendizes. Ao dominar o ofício, os pequenos já se viravam para ajudar no sustento da casa. As meninas não tinham sorte muito diferente. Desde muito jovens já ajudavam nos serviços domésticos. Naquela época, ao nascer, a criança também tinha um status diferente do atual. As crianças não tinham direitos. Elas eram propriedade dos pais e era dessa forma que eram tratadas. Essa situação está refletida nas expressões artísticas da época. Até o século 12, a arte medieval desconhecia ou ignorava as crianças.
 
Em esculturas e pinturas, elas eram retratadas como adultos em miniatura: o corpo era igual, somente a altura era menor. No dia-a-dia, as crianças trajavam roupas iguais às dos adultos e que em nada lembravam sua idade. Os casamentos eram realizados muito cedo. Meninas a partir dos 12 anos já eram sérias candidatas ao noivado. Portanto, os adolescentes da época eram jovens adultos que já trabalhavam, casavam e tinham filhos. Essa situação só começou a mudar na Renascença. Durante esse período, os artistas começaram a retratar as crianças de maneira mais realista, brincando ou sendo amamentadas. Mais tarde, durante o iluminismo, o filósofo inglês John Locke (1632-1704) defendeu que a mente infantil era uma “tábula rasa”, que era alimentada com conhecimentos passados pelo mundo exterior.
 
E, portanto, a qualidade das primeiras experiências seria vital para sua boa formação. Somente no século 18, o conceito medieval de que as crianças eram seres maus por natureza caiu por terra. Segundo o filósofo francês Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), elas nasciam boas e deveriam ser preservadas das maldades do mundo exterior para que mantivessem esse espírito. A obra de Rousseau influenciaria escritores como Victor Hugo (1802-1885) e Charles Dickens (1812-1870), que expuseram a bárbara exploração da mão-de-obra infantil.
 
Saiba mais
Livros
A História das Cruzadas: O Reino de Acre e as Últimas Cruzadas, Steven Runciman, 2003
The Children´s Crusade, American Historical Review, volume 19, de Dana C. Munro, O livro de Runciman dedica apenas metade de um capítulo ao assunto, em que apresenta a versão de Albericus. O melhor texto sobre o que realmente teria ocorrido é o de autoria de Dana C. Munro
 


Postado em 13/10/2013


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