Como concluir a redação do vestibular ou Enem
por Chico Viana
 
Uma das razões para concluir bem o texto está na velha máxima de que a última impressão é a que fica. A conclusão deve ser coerente com o ponto de vista e com os argumentos apresentados, de modo a conferir unidade à exposição. Ela tem basicamente duas funções: fazer uma breve retomada do que foi dito, confirmando a tese, e apresentar sugestões para o problema tratado no desenvolvimento.
 
Retomar o que foi dito implica suspender a argumentação, ou seja, não prolongar a defesa do ponto de vista. Quando se chega ao último parágrafo, o problema já foi suficientemente discutido e cabe ao candidato propor soluções para resolvê-lo. A tendência é que se concentre nessa parte do texto a "proposta de intervenção solidária", de que trata a Competência 5 do Enem. Essa proposta deve ser "detalhada" e "exequível" (ou seja: viável). 
 
É por não atender a esses dois requisitos que muitas conclusões falham. Vejamos um exemplo na seguinte passagem de uma redação sobre "nível cultural e opção religiosa": "Por tudo isso, seria necessário informar as pessoas para que o preconceito contra os religiosos acabasse de vez. Elas deveriam ser impedidas de ter uma mentalidade errada quanto a isso, pois a religião não mede o nível cultural das pessoas."
 
Os problemas dessa conclusão começam com o uso do futuro do pretérito. Se o candidato não está convicto do que propõe, como é que vai convencer o leitor? "É necessário" (no presente) passaria a ideia de firmeza e convicção. Quanto às propostas, nada mais vago do que simplesmente dizer que se deve "informar as pessoas". Informar por que meios - palestras, campanhas educativas, esclarecimentos através da mídia? Faltou detalhar. E como impedir que as pessoas tenham uma "mentalidade errada" (ou talvez um "pensamento errôneo") sobre os religiosos? Mudar uma mentalidade leva tempo e depende de ações concretas; o aluno não citou nenhuma.
 
Para que a conclusão cumpra o seu papel, verbos como "conscientizar", "despertar", "orientar" e semelhantes não devem ser usados sem que a seguir se apontem os meios pelos quais se podem efetivar essas ações. Além disso, é fundamental evitar propostas utópicas ou simplistas. Um aluno escreveu que para acabar com a discriminação contra as mulheres "é preciso mostrar que as pessoas são iguais". Infelizmente esse nobre princípio não basta para mudar a opinião dos que discriminam o sexo feminino. Produziria mais efeito, por exemplo, demonstrar que a igualdade entre os sexos se impõe devido às novas configurações da família e do mercado de trabalho.
 
Chico Viana é professor de português e redação. www.chicoviana.com


Postado em 22/10/2013


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