Retrospectiva: o que mudou nos últimos 20 anos na vida das crianças
Algumas conquistas foram fundamentais para que as crianças de hoje cresçam
com mais saúde, conhecimento e bagagem cultural. Vamos voltar no tempo?
 
Algumas vezes você já deve ter suspirado pensando que, quando era criança, tinha mais liberdade para brincar ou que a violência não era tão presente na sua infância. Se, por um lado, dava para jogar bola na rua ou ir para a escola a pé, por outro, era muito difícil ter acesso a alimentos mais saudáveis, não havia tantas opções culturais voltadas para os pequenos nem a tecnologia era tão desenvolvida a ponto de levar você para qualquer lugar do mundo sem sair de sua casa.
 
As diferenças entre a sua infância e a do seu filho não param por aí. As crianças de hoje ganharam muito com novas leis de segurança – quem não se lembra de andar de carro sem cinto? –, com descobertas na área da saúde e práticas inovadoras na educação.
 
CRESCER acompanhou os pais em todas essas mudanças e no impacto que elas tiveram na vida dos filhos. Vamos relembrar algumas? A seguir, você confere nossa seleção de pessoas, leis, tecnologias e objetos que revolucionaram o universo infantil durante esse período. E que venham os próximos 20 anos!
 
Em defesa do leite materno
Os benefícios da amamentação estão comprovados há muito tempo, mas somente em 2001 a Organização Mundial da Saúde (OMS) publicou um documento recomendando o aleitamento exclusivo até os seis meses. Afinal, o leite materno fornece alimento completo para o bebê, colabora na formação do sistema imunológico, ajuda na prevenção de cólicas e a sucção desenvolve o sistema sensório-motor oral. Antes, as papinhas eram introduzidas já no quarto mês de vida, mas depois do relatório The Optimal Duration of Exclusive Breastfeeding (A Duração Ideal do Aleitamento Materno, em tradução livre), passaram para o sexto mês. De acordo com o documento da OMS, crianças alimentadas exclusivamente com o leite materno até os seis meses morrem menos por infecção gastrointestinal e não apresentam déficit de crescimento.
 
Depois desses primeiros seis meses, nada de liquidificador na hora de fazer a papinha. De acordo com artigo publicado no Jornal de Pediatria, da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), em 2004, “no início da alimentação complementar, os alimentos devem ser semissólidos e macios (sob a forma de purê), devendo ser amassados e nunca peneirados ou liquidificados. Sopas e comidas ralas/moles não fornecem calorias suficientes para suprir as necessidades energéticas das crianças pequenas”. O pediatra e neonatologista Carlos Eduardo Correa, do Espaço Nascente (SP), explica que a comida deve ter textura, o que estimula a criança a mastigar, desenvolve a musculatura facial e auxilia a digestão.
 
Longe das doenças
Em 1993, o calendário oficial do Ministério da Saúde tinha só quatro vacinas para crianças de 0 a 9 anos: a tríplice bacteriana (DTP), contra difteria, tétano e coqueluche; a BCG, contra tuberculose; a monovalente, contra sarampo; e a vacina oral, contra poliomielite (VOP). Desde então, mais oito vacinas foram disponibilizadas na rede pública de saúde, entre elas hepatite B e rotavírus.
 
Na rede particular, a mudança também foi grande. O primeiro calendário lançado pela Sociedade Brasileira de Pediatria, em 1998, contemplava sete vacinas diferentes para crianças de até 9 anos. Hoje, ele sugere 15 tipos de imunizações, entre elas hepatite A, influenza e HPV, que não fazem parte do programa do governo. “Os calendários da Sociedade Brasileira de Pediatria e da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm) servem de modelo para o Ministério da Saúde”, explica a pediatra Isabella Ballalai, presidente da Comissão de Revisão de Calendários da SBIm Nacional.
 
A vacinação consistente contribuiu para manter a varíola e o ciclo urbano da febre amarela erradicados no país, assim como a ausência de registros de paralisia infantil e sarampo.
 
Mais tempo na escola
Aprovada em 2006, a lei do ensino fundamental de nove anos entrou em vigor em 2010. No documento Ensino Fundamental de Nove Anos. Orientações para a Inclusão da Criança de Seis Anos de Idade, o MEC aponta os motivos da decisão. Considerando que grande parte das crianças de alta e média renda já está inserida no sistema educacional nessa idade, a lei abre a mesma oportunidade para as de baixa renda. Outra explicação é o desempenho superior de alunos com experiência na pré-escola, fato notado no Sistema de Avaliação da Educação Básica. Em 2003, eles alcançaram uma média de 20 pontos a mais nos testes de leitura do que os colegas que começaram a estudar aos 7 anos.
 
A lei foi aplicada, mas muitas escolas ainda não conseguiram criar um primeiro ano de acordo com as necessidades de uma criança de 6 anos, como o brincar. Além disso, a disputa por vagas fez com que muitos pais antecipassem a opção de mudar os filhos de escola, ainda na educação infantil.
 
Em casa com o bebê
Desde 2008, as servidoras públicas federais têm 60 dias a mais para ficar em casa com seus recém-nascidos. Aos poucos, prefeituras e governos estaduais também adotaram a medida e, em 2010, a licença-maternidade estendida, de seis meses, se tornou uma possibilidade para algumas funcionárias do setor privado. A iniciativa anda de mãos dadas com a orientação pediátrica de amamentação exclusiva nos seis primeiros meses de vida.
 
A lei não obriga as empresas a oferecer o acréscimo. Diferente do período obrigatório da licença-maternidade, que é pago pelo INSS, os dois meses a mais saem do caixa delas. Mas o governo garante às empresas de grande e médio porte – que fazem sua declaração anual sobre o lucro real – desconto referente aos valores pagos pelos 60 dias extras no Imposto de Renda, como compensação.
 
Segurança no trânsito
Entre todos os tipos de acidentes, os de trânsito são os que mais matam crianças no país, segundo a ONG Criança Segura. Por isso, desde 2010, a cadeirinha é obrigatória para menores de 7 anos e meio em percursos de carro. A lei, aprovada pelo Denatran (Departamento Nacional de Trânsito), estabeleceu o uso de bebê conforto até 1 ano de idade. Entre 1 e 4, entram em uso cadeirinhas, enquanto assentos de elevação devem ser providenciados até os 7 anos e meio.
 
Apesar da polêmica inicial, a segurança aumentou. Uma pesquisa do Ipea (Instituto de Pesquisas Econômicas) – baseada em dados do Sistema de Informação de Mortalidade, do Ministério da Saúde – apontou redução de quase 23% nos óbitos de crianças de até 10 anos transportadas em veículos só no primeiro ano de vigência.
 
TV só para os pequenos
As crianças de antigamente nem sonhavam com o que hoje é comum em mais de 16 milhões de lares brasileiros: programações exclusivas para elas. Com a chegada da TV a cabo no Brasil, vieram também canais como Discovery Kids, Gloob e Cartoon Network, este último no país há 20 anos. “Não havia uma segmentação, toda a programação era mais generalista. Hoje existem canais direcionados para faixas etárias específicas, além daqueles segmentados até por gênero”, diz Kiko Mistrorigo, um dos criadores da animação Peixonauta e vice-presidente da Associação Brasileira de Produtores Independentes de Televisão.
 
Kiko aponta também uma mudança no conteúdo dos desenhos, que ganharam caráter educativo. “Existe uma preocupação de transmitir noções de comportamentos saudáveis, sustentáveis e valores positivos, como respeitar os amigos, não mentir, não ser consumista e preservar o meio ambiente.”
 
Cinema de primeira
O americano John Lasseter entrou na Pixar antes mesmo de ela ganhar esse nome, quando ainda pertencia à Lucasfilm’s. Sob o comando criativo dele, a empresa de tecnologias de computador para a indústria cinematográfica atingiu sucesso inédito. Em 1995, Lasseter entrou para a história ao dirigir Toy Story, o primeiro longa animado inteiramente no computador. Embora o desenho no papel ainda faça parte do processo atual, o uso do eletrônico ajudou a acelerar a produção. Mas o sucesso da Pixar – e de Lasseter, até hoje na companhia – está além das suas qualidade gráficas. Com filmes que agradam adultos e crianças, traz um conceito de entretenimento familiar. Depois de Toy Story, a empresa lançou outros títulos que entraram para a história, como Monstros S.A. e Procurando Nemo. Em 2006, ela foi comprada pela Disney, consolidando-se como o principal estúdio de animações voltadas para o público infantil.
 
Gadgets
Pense em como os smartphones e os tablets, junto com a internet, mudaram a sua vida. Seu filho já nasceu – ou, pelo menos, cresceu – em um mundo povoado por essas tecnologias. A web como conhecemos surgiu em 1995; o tablet foi criado em 2001 pela Microsoft, mas se popularizou em 2010 com a Apple; e o primeiro smartphone data – acredite! – de 1994. Por já serem amigas íntimas desses objetos, as crianças têm atração natural por eles.
 
Para se prevenir no futuro
Desde 2001 é possível armazenar no Brasil o cordão umbilical do seu bebê. Mas o que, afinal, ele tem de tão especial? O sangue que permanece na placenta e na veia umbilical após o nascimento é rico em células-tronco. “Elas são potencialmente aptas a dar origem a qualquer tecido ou órgão do corpo humano, o que pode ajudar no tratamento de mais de 90 doenças, como linfomas, leucemia e tumores”, afirma Alberto D’Auria, diretor médico da Cryopraxis, primeiro banco privado de células-tronco do cordão umbilical a se instalar no Brasil. No mesmo ano, o Banco de Sangue de Cordão Umbilical e Placentário, uma instituição de cunho público, foi criado pelo Instituto Nacional do Câncer.
 
No banco público o material é guardado sem custo e fica disponível para outros pacientes compatíveis. Neste caso, a maior dificuldade encontrada é o reduzido número de maternidades credenciadas no programa Rede Brasil Cord, as únicas autorizadas a fazer a coleta. São 21 em todo o país. Bancos particulares são outra opção. Eles mantém as células à disposição da criança ou dos irmãos e cobram, em média, R$ 3 mil pelo serviço, além de anuidade de R$ 600 para guardar o material. De acordo com um relatório da Anvisa, entre 2003 e 2010, das cerca de 45 mil unidades armazenadas em instituições privadas no país, apenas oito foram utilizadas.
 
Direitos iguais
Depois de um ano de luta na justiça, em 2006, o casal Vasco Pedro da Gama e Júnior de Carvalho conseguiu uma vitória inédita no Brasil: eles puderam registrar o nome de ambos na certidão de nascimento da filha, Theodora Rafaela Carvalho da Gama. A conquista não diz respeito apenas aos direitos dos homoafetivos à adoção, mas às muitas crianças que aguardam um lar e podem ganhar nova chance. A própria Theodora não correspondia ao perfil desejado de outros 46 casais que estavam à frente de Vasco na lista de espera. Na época com 5 anos, era considerada velha demais.
 
“Hoje em dia não há nenhum tipo de restrição para esses casais. Desde que a união estável homoafetiva foi reconhecida em 2011 e, especialmente depois que o Conselho Nacional de Justiça aprovou o casamento civil, neste ano, as adoções são exatamente iguais”, explica a advogada Silvana do Monte Moreira, presidente da Comissão de Adoção do Instituto Brasileiro de Direito de Família.
 
Para cantar com gosto
Em 1994, Paulo Tatit e Sandra Peres romperam os padrões da música infantil e criaram a Palavra Cantada, que conquistou as crianças e se tornou um sucesso. “Já trabalhávamos com música e veio o desejo de fazer um CD para crianças. Surgiu, então, o Canções de Ninar”, lembra Paulo Tatit. De lá para cá, já foram mais de dez álbuns e quase 2 milhões de cópias vendidas. A dupla também entrou com tudo no ramo de DVDs infantis, com quase 2 milhões vendidos.
 
É menino ou menina?
Há 20 anos, descobrir o sexo do bebê só era possível a partir do 4º mês de gravidez, por meio de um exame de ultrassom. Incorporado como rotina pré-natal na medicina privada, o procedimento ficava restrito às grávidas de alto risco na rede pública. Hoje, o método ainda depende da posição do feto para observar o órgão sexual e o índice de acerto é de 90%, mas ele já faz parte dos exames básicos oferecidos pelo SUS (em 2011, o programa Rede Cegonha ampliou o acesso a 100% das grávidas).
 
Porém, desde 2000, não é preciso mais esperar tanto. Nesse ano, o Banco de Sangue do Hospital Sírio-Libanês, de São Paulo (SP), foi pioneiro ao oferecer o exame de sexagem fetal no Brasil. Por meio dele, com uma simples amostra de sangue da mãe ficou possível determinar o sexo da criança já na oitava semana de gestação, com 99% de eficácia. José Eduardo Levi, chefe do Departamento de Biologia Molecular da Fundação Pró-Sangue/Hemocentro de São Paulo, e Silvano Wendel, diretor do Banco de Sangue do Hospital Sírio-Libanês (SP), conduziram os primeiros testes no país, baseados na publicação científica de 1997 do cientista chinês Y. Dennis Lo. Ele percebeu que existe DNA do feto misturado ao sangue materno durante a gravidez. Bastaria encontrar um cromossomo Y – normalmente inexistente nas mulheres – no sangue da mãe para confirmar a gestação de um menino.
 
Hoje, o teste custa, em média, R$ 530 nos laboratórios particulares e a rede pública ainda não o disponibiliza. De qualquer forma, a sexagem fetal ainda não substitui o ultrassom, que “pode rastrear síndromes cromossômicas, como a de Down, detectar infecções tratáveis como a toxoplasmose e muito mais”, explica Rita Sanchez, coordenadora materno infantil e especialista em medicina fetal do Hospital Israelita Albert Einstein (SP).
 
Sono tranquilo
Qual a posição ideal para o bebê dormir? Esta sempre foi uma dúvida dos pais. Embora o ato de colocar a criança deitada de barriga para cima reduza o risco de morte súbita em até 70%, há quatro anos somente 21% delas ficavam assim no berço.
 
Desde 2007, o Ministério passou a publicar a recomendação na caderneta da criança, já que, antes, a orientação era dormir de lado. Mesmo depois da publicação, a resistência ainda foi grande e, por isso, a Pastoral da Criança, em parceria com a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), lançou uma campanha sobre o assunto, em 2009. “A orientação oficial da SBP passou a ser dormir de costas na época da campanha da Pastoral”, explica a médica Magda Lahorgue, presidente do Grupo de Trabalhos do Núcleo Permanente de Estudos sobre o Sono da SBP.
 
Com apoio do Ministério da Saúde, da Sociedade Brasileira de Pediatria e do Unicef, a campanha foi decisiva para desconstruir a crença popular de que, ao dormir de barriga para cima, a criança poderia regurgitar e se engasgar.
 


Postado em 11/03/2014


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