A educação na era da Geração Y

 

Autor da série Geração Y, publicada pela Integrare Editora, Sidnei Oliveira conhece bem a chamada Geração Y, aquela formada pelos jovens que nasceram nos anos 80/90 e ingressa agora no mercado de trabalho. Estes jovens preocupam-se com a sustentabilidade, aceitam a diversidade e gostam das inovações. Em contrapartida, têm dificuldade para assumir responsabilidades e para lidar com o fracasso.

Essa falta de habilidade pode ser um dos fatores responsáveis pela violência escolar e, certamente, será o grande desafio das escolas nos próximos anos.  “Essa situação talvez seja um dos maiores problemas que vamos enfrentar na educação ao longo dos próximos anos”, avalia o escritor, consultor e especialista em conflito de gerações.

A união entre escola e família no processo educacional é a condição para mudar esse quadro. “É preciso ter os pais como cúmplices, pois não adianta a escola tentar algo e o pai anular essa ação”, afirma Sidnei Oliveira, que nesta entrevista fala sobre a Geração Y e seu comportamento.

Como surgiu o termo geração Y e como podemos identificar os jovens deste grupo?

Sidnei Oliveira – Este é o termo usado para definir o jovem de hoje.  Agora, como atributos, não há nada de diferente entre este jovem e o de outras gerações.  Equivocadamente, observamos que as pessoas, e, principalmente, a mídia atribuem a esta geração características como: ansiedade, falta de foco, vontade de fazer tudo ao mesmo tempo, irreverência. Mas, se analisarmos bem, veremos que estas são características de jovens, independendo de sua geração.

Mas há alguma especificidade dos jovens desta geração?

Nomear uma geração é estabelecer relações de comportamento, oriundas da forma como a geração foi criada. A geração baby boomer,  que nasceu e foi criada nas décadas de 40/50, entrou na juventude durante os anos 60/70. Ela foi a primeira a receber um nome de batismo. Essa geração tinha um comportamento extremamente contestador, rebelde, reacionário, revolucionário. Os sociólogos observaram esse comportamento  — “ natural”  para os jovens  da época — como oriundo de uma geração que nasceu após a segunda Guerra Mundial, quando o mundo estava muito mais disciplinado. A pressão por ordem e regras era muito grande e os jovens viveram sob essa pressão. Quando tornaram-se adultos, contestaram este cenário.  Nas décadas de 80/90, os sociólogos voltaram a observar diferenças significativas entre os jovens daquela geração (que nasceram nos anos 60/70) e os da geração baby boomer.  A juventude que entrava no mercado de trabalho era mais descolada, menos mobilizada. Havia um sentimento de ceticismo. Era uma juventude focada em tribos urbanas. Uma geração que nasceu e cresceu em um período em que a televisão fez parte do desenvolvimento das crianças. Por isso, todo o apelo de marketing fez parte do estilo de vida dessa geração que deu prioridade a marcas e à facilidade. É uma geração focada em cuidar da própria facilidade. Essa é a Geração X.

O que influenciou a Geração Y?

A cada 20 anos vemos esse estudo voltando.  Agora, os jovens que nasceram nas décadas de 80/90 estão entrando no mercado de trabalho.  Essa geração nasceu durante um período de crescimento econômico, de estabilidade política e social e de alto desenvolvimento tecnológico. Recebeu as influências desse período e, hoje, quando entra no mercado de trabalho, entra com expectativas, postura e pensamentos diferentes do que estamos acostumados. Isso começou a denotar um estudo geracional, de modo que ao estudarmos a sociedade entendemos o efeito que ela lança sobre a próxima geração. Nos últimos dez anos, estamos vivendo um período de alta conectividade. As crianças que nasceram no início dos anos 2000, que formarão a próxima geração, começarão a entrar no mercado de trabalho nos próximos anos e aí vamos observar o comportamento desta nova geração.

Em termos de comportamento, o que é característico desta nova geração, a Y? Percebemos que hoje os pais e professores têm dificuldade para educar?  Por quê?

Neste caso, quem está com problemas é realmente a geração anterior.  O jovem continua sendo o que sempre foi, só que os pais adotaram uma postura de provedor. Eles são mais facilitadores para os filhos. Com isso, obviamente, criaram uma geração que não sabe lidar com as frustrações porque não as viveram. Os pais proveram tudo e acabaram com as frustrações dos jovens. Eles têm poucas cicatrizes e, por isso, encontram dificuldade de lidar com o fracasso.  Essa geração lida muito mal com o fracasso, não gosta da frustração. Em uma leitura mais isenta, podemos dizer que é uma geração mais mimada. Uma geração que se acostumou com a facilidade e que não reage bem diante das dificuldades.  Desiste com facilidade. É menos guerreira que a geração anterior.  Isto chama atenção porque esses jovens entram agora no mercado de trabalho, e esse mercado não facilita a vida do profissional. Eles ainda não estão entendendo a regra do jogo. Buscam atalhos, querem ser reconhecidos sem, necessariamente, terem feito por merecer esse reconhecimento.  Eles entram em uma empresa depois da faculdade com a expectativa de ocupar um alto cargo, mas quem está nessa função pensa: “eu levei anos para chegar aqui”. Isso gera conflitos.

O Sr. disse que uma das principais características dos jovens da geração Y é não saber lidar com a frustração. Hoje, a violência é um grave problema nas escolas.  Ela pode ser explicada pela dificuldade em lidar com o fracasso?

Essa situação talvez seja um dos maiores problemas que vamos enfrentar na educação ao longo dos próximos anos. Houve uma mudança importante provocada, principalmente, pela geração X — a geração que durante sua infância, apesar de desejar muita coisa, não teve acesso a tudo o que queria.  Essa geração tomou a decisão de oferecer o que não teve para seus filhos.  Resolveu matriculá-los em uma escola melhor e pagar por esse serviço. O problema é que ao pagar a relação educacional mudou; passou a ser uma relação de cliente. O pai chega e fala: “educa o meu filho”. Mas quando a escola penaliza o aluno, o que vemos é o pai reclamar da atitude da direção e, às vezes, até mudar o aluno de escola. O jovem não precisa lidar com a frustração do fracasso. O próprio aluno mudou a relação com o professor. Ele olha para o professor e fala: “eu estou pagando o seu salário e você não pode me dar nota baixa”.  É uma distorção óbvia dentro do processo educacional. É preciso colocar metas para os filhos. Antigamente, tínhamos o presente de Natal, que, na prática, era uma manifestação do esforço do filho. A conquista do presente desejado estava relacionada ao desempenho. Hoje, as crianças ganham presente o tempo todo. Não há mérito, não é preciso esforço.

A escola aceitou esse papel? Agora, como mudar?

Na verdade, ela foi meio vítima porque entrou em uma relação comercial. Na contratação, temos uma relação bem definida que é educacional, mas, na prática, isso muda quando o aluno é punido por alguma ação e o pai vai tirar satisfação. Posso dar um exemplo: eu trabalhava em uma escola quando um grupo de alunos quebrou parte das instalações. A responsável pelo colégio fez o orçamento do conserto, chamou a turma, informou o valor do serviço e disse quanto cada um teria que pagar. Disse ainda que eles não poderiam pedir o dinheiro aos pais e que arrecadariam o valor reciclando o lixo da escola e vendendo. Educacionalmente, a medida é perfeita; mas o que aconteceu foi que alguns pais resolveram tirar os filhos da escola por acharem um absurdo pagar para o aluno catar lixo. Os pais, às vezes, acham que estão com toda a razão, depois os filhos crescem de forma estranha e eles não sabem o motivo.

Os problemas, então, começam dentro de casa.

Sim. E é fundamental mostrar isso.  Os pais acham que os filhos são gênios, que são os melhores do mundo e esquecem que os gênios precisam ser educados. Educar é, às vezes, dizer não; é mostrar como lidar com a frustração.  

Por que os pais hoje não estão mais tendo o trabalho de educar? É a falta de tempo? A culpa pela ausência?

Tem um pouco de culpa e um pouco de vontade de proporcionar ao filho o que não tiveram quando eram jovens.  Vemos casos em que o filho está com 25 anos e os pais acham que não está na idade de casar. Isso significa não assumir responsabilidade. Os pais tendem a achar que o filho é diferente das outras crianças mimadas e mal-educadas. Na prática, eles oferecem as facilidades que gostariam de ter tido quando criança. Percebemos também a troca de presença por presente, como se isso fosse resolver o problema. 

Então, lidar com falta de habilidade dos jovens para lidar com o fracasso é o desafio das escolas. O que elas devem fazer para resolver a questão? É preciso chamar os pais para assumirem suas responsabilidades?

Exatamente.  É preciso envolver os pais na educação. As escolas estão fazendo isso.  É preciso ter os pais como cúmplices nesse processo educacional, pois não adianta a escola tentar algo e o pai anular essa ação.

E o professor: como ele deve agir quando percebe que o aluno tem dificuldade para lidar com o fracasso?

Ele tem que adotar uma postura diferente do que foi o modelo educacional dos últimos anos. Temos que acabar com o conceito de professor dono da informação.  Ele tem que adotar uma postura de educador.  Hoje, quem tem a informação é a internet. O aluno tem acesso a essa informação. O professor tem que lembrar sempre que é um educador. Deve ser uma postura similar a dos antigos filósofos que não davam a resposta, mas faziam as perguntas. É preciso levar os alunos a desenvolver a pesquisa e a capacidade de interpretação dessa pesquisa. O papel do professor mudou. Ele não é mais quem leva a informação, mas quem ajuda a interpretação.

Quais as outras características e aspectos positivos desta geração?

Ela, obviamente, foi exposta a muito mais informação do que as gerações anteriores. Isso gera um comportamento que é lido em alguns momentos como se fosse uma precocidade. É dada uma interpretação de genialidade, do tipo: “eles sabem trabalhar muito bem com o computador”. Avaliam como se isso fosse algo de gênio, quando é, na verdade, apenas uma questão de familiaridade.  Eles lidam com a máquina desde que nasceram e têm um grande tempo livre para ficar no computador.  O adulto tem que dividir o seu tempo entre diversas coisas e a tecnologia, já o jovem não. Agora, uma característica positiva desta geração é que mostra-se muito aberta à inovação, à diversidade, aos conceitos de colaboração. Ela não é ainda a geração socialmente responsável. Aposto mais na Geração Z como a grande geração da sustentabilidade, mas a Geração Y é a primeira que dá atenção a dois aspectos da sustentabilidade: diversidade e colaboração. Eles aceitam com mais facilidade a diversidade humana, isso em todos os aspectos, e esse é um ponto positivo que tende a crescer. Acredito que esses aspectos vão transformar a sociedade nos próximos anos. Devem transformar e facilitar o caminho para a próxima geração mudar de fato a sociedade e adotar ações de cunho sustentável.  A Geração Y deixará um legado de diversidade e colaboração como conceito social.

Fonte: SINEPE RIO - www.sinepemrj.org.br/


Postado em 02/05/2012


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