Clichê, jargão, palavra zumbi... 10 armadilhas da escrita que a ciência ajuda a evitar

Com a profusão de novas plataformas de publicação, como blogs e perfis em redes sociais, 
as pessoas estão escrevendo mais – e muitas querem escrever melhor. 
Conheça dez cuidados que tornam a escrita mais clara e elegante

por Meire Kusumoto

Uma rápida consulta às livrarias brasileiras revela uma farta oferta de dicionários, gramáticas e manuais para quem quer escrever corretamente – até a Presidência da República tem o seu, com instruções sobre a colocação da vírgula, o emprego do hífen e a diagramação dos ofícios. Mas para quem quer ir além da retidão gramatical, a bibliografia é bem mais escassa. Eis aí uma boa razão para prestar atenção às recomendações de estilo reunidas pelo canadense Steven Pinker, professor do departamento de psicologia de Harvard, no livro The Sense of Style: The Thinking Person's Guide to Writing in the 21st Century (O sentido do estilo: o guia do ser pensante para escrever no século XXI, em tradução livre), que a Companhia das Letras, que publicou quatro obras do pesquisador, estuda lançar no Brasil.

 
“Como os guias clássicos, este foi criado para pessoas que já sabem escrever e querem escrever melhor”, afirma o psicólogo na obra. Mas à diferença dos manuais tradicionais, Pinker confronta convenções de estilo e princípios da comunicação escrita com as descobertas da linguística, neurociência e psicologia. Eis outra boa razão de seu “guia para escrever no século XXI”. Seus achados, acredita o cientista, podem “facilitar a compreensão, reduzir mal-entendidos e proporcionar uma base sólida para o desenvolvimento do estilo e da graça”. Entre os leitores que podem se interessar pelo livro, estão estudantes que querem melhorar a qualidade de seus trabalhos escolares, aspirantes a críticos, jornalistas que querem começar um blog ou coluna de resenhas e profissionais que procuram uma solução para textos técnicos ou acadêmicos demais, diz Pinker.
 
A profusão de novas plataformas de publicação, como os blogs e perfis em redes sociais, torna o domínio da escrita ainda mais relevante. Márcia Vescovi Fortunato, coordenadora do curso de pós-graduação em formação de escritores do Instituto Vera Cruz, explica que o ato de escrever passou a estar mais presente no dia a dia do brasileiro a partir da década de 1990, com a disseminação da internet e a ampliação do acesso a ferramentas de processamento de textos. “Essa revolução midiática produziu seus efeitos. As pessoas estão escrevendo mais”. É o que pode explicar a procura crescente por cursos e obras de referência sobre técnicas de escrita.
 
De acordo com Lilian Cristine Hübner, coordenadora do departamento de estudos linguísticos da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), a boa escrita também pode ser tanto uma aspiração como uma necessidade. “Há pessoas que ingressam em cursos de aprimoramento de habilidades relacionadas ao uso da língua, incluindo questões gramaticais, de leitura e de escrita, a fim de suprir as deficiências do ensino recebido. Esse público geralmente tem interesse em melhor se qualificar para o mercado de trabalho ou ainda buscam simplesmente a satisfação pessoal advinda do fato de ler e escrever melhor”, afirma.
 
Deixe os clichês de lado
 
Clichês fazem o leitor parar de pensar – e o passo seguinte é parar de ler. “Quando um leitor é forçado a passar por uma expressão banal atrás da outra, ele interrompe a conversão da linguagem em imagens mentais e volta simplesmente a balbuciar as palavras”, explica Pinker em referência ao estudo Conventional Language: How Metaphorical Is it? (Linguagem Convencional: Quão Metafórica Ela É?, em tradução direta), publicado em 2000 no periódico Journal of Memory and Language. Por exemplo: “Ele ia à Cidade das Luzes visitar o irmão e tentou passar a perna na companhia aérea para mudar de classe no avião. O tiro saiu pela culatra: foi pego com a boca na botija e expulso do aeroporto”.
 
Jargões, abreviações e termos técnicos
 
O principal entrave para a boa escrita é o que Pinker chama de maldição do conhecimento: “a dificuldade de imaginar o que é para alguém não saber algo que você já sabe”, define. “Seus leitores sabem muito menos do assunto do que você pensa que eles sabem. A não ser que você se inteire do que eles sabem, você vai confundi-los”, escreve o psicólogo, que dá a primeira dica para superar essa questão: evite o uso de jargões, abreviações e termos técnicos, a não ser que eles já tenham ultrapassado a barreira do uso corrente, como aconteceu com palavras como “clonagem”, “gene” e “DNA”. Mesmo as abreviações conhecidas, diz ele, devem ser destrinchadas em sua primeira aparição em um texto, já que o autor não pode garantir que todos os seus leitores estão familiarizados com termos como ONU (Organização das Nações Unidas) ou USP (Universidade de São Paulo). “E, mesmo se estiverem, há bebês nascendo a cada minuto que, um dia, encontrarão o termo pela primeira vez. Eles merecem ver as palavras, não simplesmente suas iniciais”, escreve Pinker. Outras vezes, a “maldição do conhecimento” se manifesta através da chamada “fixação funcional”. Tendo familiaridade com os fatos que pretende narrar, o autor não se dá ao trabalho de descrever os elementos que compõem a cena, limitando-se a referir-se a seus efeitos ou funções. Por exemplo, a frase “o conjunto caiu da mesa” foi transformada para “o conjunto de xadrez de marfim caiu da mesa” por Pinker. 
 
Como a ciência pode te ajudar a escrever com elegância 
 
Manuais de estilo convencionais recomendam evitar abstrações. Mas frequentemente, diz Pinker, nós precisamos escrever sobre ideias abstratas. Para tratar desses assuntos, ele sugere explicá-los em termos concretos, com frases enriquecidas por exemplos, comparações e metáforas. Ele demonstra a estratégia citando o artigo Welcome to the Multiverse, de Brian Greene, publicado na revista Newsweek em 2012. No texto, o físico americano tenta explicar a leigos – os leitores da revista de notícias semanal – a teoria dos múltiplos universos, conceito nada intuitivo. Para tanto, usa linguagem simples e faz comparações com objetos concretos. “As equações de Einstein fazem um ótimo trabalho ao explicar como o universo evoluiu a partir de uma fração de segundo após o Big Bang, mas, quando aplicadas ao ambiente extremo dos primeiros momentos do universo, as equações dão erro – similar à mensagem de erro que aparece no visor de uma calculadora quando você tenta dividir 1 por 0”, escreve Greene. “Nós observamos o conceito de equações chegando a um erro com um exemplo, a divisão por zero, que podemos entender por duas maneiras. Pensando: o que significa dividir um número por zero? Ou podemos inserir os números na calculadora e verificar seu resultado”, afirma Pinker. 
 
A mania dos sinônimos
 
A repetição de palavras torna uma passagem cansativa, mas o exagero no emprego de sinônimos pode comprometer a qualidade e a clareza de um texto. Essa mania de sinônimos tem até nome: monologofobia, ou seja, medo de usar a mesma palavra. O termo foi criado pelo escritor Theodore M. Bernstein no livro The Careful Writer (1995). “O vocabulário não deve variar por capricho, porque em geral as pessoas presumem que se alguém usa duas palavras diferentes, está se referindo a duas coisas diferentes”, explica Pinker. Quando a variação for realmente necessária, é importante substituir o termo por outro mais geral, que englobe o primeiro, não o contrário. Por exemplo, “O ônibus surgiu na esquina. O veículo quase atropelou um pedestre” é mais claro do que “O veículo surgiu na esquina. O ônibus quase atropelou um pedestre”. O uso de um simples pronome também pode bastar. No caso citado, “ônibus” poderia ser trocado por “ele” sem confundir o leitor. 
 
Palavras zumbis
 
Em The Sense of Style, Pinker observa que é comum a transformação de verbos, que colocam a ação em primeiro plano, em substantivos, que “tiram a vida” das frases. “A pesquisadora Helen Sword chama esses termos de palavras zumbis porque elas passeiam pela frase sem apresentar um agente. Elas transformam a prosa em uma noite dos mortos-vivos”, escreve o psicólogo. Como exemplo, ele cita a frase: “Os participantes leram declarações cuja veracidade era confirmada ou negada pela subsequente apresentação de uma avaliação”. Concretamente, o que se passou foi que: “Nós mostramos frases aos participantes, seguidas das palavras ‘verdadeiro’ ou ‘falso’”. 
 
É difícil dizer não
 
Em The Sense of Style, Pinker explora uma afirmação do filósofo Baruch Espinoza sobre a reação da mente humana diante de frases afirmativas e negativas. “Ouvir ou ler uma frase implica acreditar em seu conteúdo, ao menos por um instante. Para concluirmos que ela traz uma negativa, precisamos de mais um passo cognitivo”, escreve Pinker. “Como resultado, quando temos muito na cabeça, podemos ficar confusos quanto ao lugar onde essa negativa pertence ou mesmo esquecê-la completamente.” O psicólogo dá um exemplo: a frase negativa “O rei não está morto” é mais difícil de ser compreendida do que a afirmativa “O rei está vivo”. De acordo com ele, o uso excessivo de expressões negativas (como “não”, “nunca” e “pouco”) em uma mesma sentença só traz mais confusão para o leitor. Exemplo: “Os pesquisadores descobriram, no entanto, que as crianças não reagiram como previsto à aparição da bola, mas, em vez disso, não olharam para ela por mais tempo do que fizeram quando os objetos não haviam sido trocados”. Ele sugere a mudança: “Os pesquisadores previram que as crianças olhariam por mais tempo para a bola caso ela fosse trocada por outro objeto do que se ela estivesse lá todo o tempo. Mas as crianças olharam para as bolas pela mesma quantidade de tempo nos dois casos.”
 
Sintaxe paralela
 
A sintaxe paralela pode enriquecer e tornar um texto mais elegante, afirma Pinker. O recurso funciona a partir do encadeamento de construções de frases similares para se transmitir uma ideia. Como exemplo, Pinker usa o seguinte trecho do livro Desvendando o Arco-Íris (Companhia das Letras), do biólogo britânico Richard Dawkins: “Nós vamos morrer, e isso faz com que sejamos os sortudos. A maior parte das pessoas nunca vai morrer porque elas nunca vão nascer”, escreve. O parágrafo começa com uma colocação intrigante, o fato de termos sorte por, um dia, morrer. A resolução do enigma vem logo em seguida, com o uso de construções parecidas, “nunca vai morrer” porque “elas nunca vão nascer”, o que dá um toque especial ao texto. Esse paralelismo obedece a uma regra de ouro da ciência: se o pesquisador pretende conhecer o efeito de uma variável, é melhor que não mexa nas demais.
 
A causa antes, o efeito depois
 
Segundo Steven Pinker, frases que trabalham com a ordem cronológica dos acontecimentos tendem a ser compreendidas mais rapidamente. Por isso: “ela tomou banho antes de jantar” é mais claro do que “ela comeu depois de tomar banho”, diz ele. Da mesma forma, “depois de tomar banho, ela comeu” é entendido mais rapidamente que “Antes de comer, ela tomou banho”. Ele lembra, no entanto, que em alguns casos a regra pode ser subvertida, se a intenção do escritor for justamente dar destaque à consequência ou ao efeito de alguma ação. “Por exemplo, se você visse uma série de pegadas molhadas que levavam até uma mesa e estivesse procurando uma explicação para elas, seria melhor ouvir ‘antes de comer, a pessoa tomou banho’”, explica. Ou seja, seria compreensível que as pegadas estavam relacionadas ao fato de a pessoa ter tomado banho antes de se dirigir à mesa. 
 
Ouça as palavras
 
“As melhores palavras não só identificam melhor uma ideia, mas ecoam esse acerto, um fenômeno que tem sido chamado de fonoestesia, a sensação do som”, escreve Pinker. Por isso, diz, escolher o termo certo ao escrever uma frase pode fazer com que ela soe de maneira mais elegante. Enunciadas, palavras como “voluptuoso” e “titilante” já trazem, em sua sonoridade, um aperitivo de seu significado.
 
Sem medo da voz passiva
 
A maioria dos manuais de estilo condena o uso da voz passiva (como em “o carro foi comprado por José”), por inverter a ordem natural da sentença (“José comprou o carro”) e permitir que o autor da ação não seja identificado (o chamado “agente da passiva” pode ser omitido, como em “o carro foi comprado”) – em português, pode-se chegar ao mesmo efeito por meio da chamada voz passiva sintética, que leva à indeterminação do sujeito (como em “comprou-se o carro”). Pinker reconhece o risco, mas chama a atenção para o fato de que inversões e omissões podem ser bem-vindas. “Pesquisas no ramo da linguística mostraram que construções na voz passiva têm uma série de funções pela maneira como elas envolvem a atenção e a memória dos leitores”, escreve Pinker. A manchete de uma notícia com o seguinte formato: “Helicópteros foram enviados para apagar o fogo”, é um exemplo. “O leitor não precisa ser informado de que um rapaz chamado Bob estava no comando de um dos helicópteros”, afirma Pinker no livro. A opção pela voz passiva também pode ser justificada quando a intenção do autor de um texto é enfatizar o objeto da ação – o chamado “sujeito paciente”, na voz passiva –  em vez de chamar a atenção para seu agente. Por exemplo, na frase “Graham Bell inventou o telefone” os holofotes recaem sobre o cientista. Já em “O telefone foi inventado por Graham Bell”, o destaque fica com a criação, ou seja, o aparelho de telefone. 
 
Fonte: Veja


Postado em 02/12/2014


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